02 de maio de 2013

Se Oriente Brasil

“Um salve para os jovens que querem mudar o Brasil”

Coluna Semanal de Eduardo Fagnani, coordenador da rede Plataforma Política Social, para a Revista Vaidapé.

A música “Se oriente rapaz” revela a extraordinária alma artística de Gilberto Gil. Sua poesia incita os jovens a planejarem o futuro, incluindo a “possibilidade de ir pro Japão num cargueiro do Lloyd lavando o porão”.  Além de planejar, Gil também ensina que é preciso ser determinado. “Determine, rapaz, onde vai ser seu curso de pós-graduação”. Sabe por quê? Pela “simples razão de que tudo depende de determinação”.

Assim como os jovens devem planejar seu futuro, a família deve organizar seu orçamento, as empresas devem ter clareza das suas metas e objetivos. E o Brasil? Não deve se “orientar” com “determinação” em direção a um futuro mais justo e civilizado?

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Celso Furtado dedicou sua vida e escreveu vasta obra em defesa de um projeto de desenvolvimento nacional. Ele foi um dos mais proeminentes representantes do pensamento da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal) em prol da realização do projeto latino-americano de desenvolvimento ancorado na industrialização.

A crise do Estado Nacional Desenvolvimentista nos anos de 1980 encerra um ciclo iniciado na década de 30, no qual o Estado cumpriu as tarefas fundamentais num país de industrialização tardia. O caso brasileiro é considerado um dos mais bem-sucedidos de realização do projeto defendido pela Cepal.

Nos últimos trinta anos de hegemonia do projeto neoliberal o mercado passou a ser soberano. O Estado, a política e a democracia foram desvalorizados. O papel da sociedade na formação das demandas coletivas foi esvaziado. “A sociedade não existe, existem apenas os indivíduos”, dizia Thatcher. O mercado passou a ser única mediação possível entre indivíduos sozinhos diante do próprio destino.

As ideias de planejamento estatal e de projeto nacional de desenvolvimento foram varridas do mapa, do debate público e das redações da mídia (de) formadora de opinião. O “mercado resolve”, dizem os representantes do establishment. 

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A força avassaladora dessa visão está estampada todos os dias nos meios de comunicação. O debate sobre os rumos do país permanece interditado. Em troca, assiste-se à profunda fragmentação de temas irrelevantes para o futuro do país. Não por acaso: isso é funcional para a manutenção do status social quo.

Ao invés de debater como distribuir renda num país que ainda ocupa a 12º pior posição mundial no ranking da desigualdade social, discutimos o colar de tomates da apresentadora de TV que foi atropelada pelo “automóvel inteligente”.

Ao invés de debater a urgente necessidade da realização de uma reforma tributária justa e progressiva, discutimos o “Manifesto do Nada na Terra do Nunca”, escrito pelo cantor Lobão, que chama Roberto Carlos de “múmia deprimida”, identifica os Racionais MCs como “braço armado do PT” e dedica um capítulo especial para Dilma Rousseff (“Vamos Assassinar a Presidenta da República?”).

Ao invés de debater como construir uma sociedade onde todos os seus cidadãos tenham direitos e acesso digno a bens e serviços básicos como saúde, previdência, assistência, segurança alimentar, educação, saneamento, e transporte público de massas, discutimos as profecias do pastor Feliciano.

E por aí vai. Os donos do poder se divertem com a riqueza e profundidade do “debate” nacional.

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Os progressos econômicos e sociais dos últimos anos contribuíram para reanimar o debate acadêmico sobre a formulação de uma agenda nacional de desenvolvimento. Trata-se de tarefa complexa. Fórmulas bem sucedidas no passado não têm validade na atual etapa do capitalismo. O êxito de uma agenda desenvolvimentista depende de mudanças estruturais complexas nos rumos da economia e da política num contexto em que prevalece a hegemonia do mercado globalizado ante os interesses gerais da sociedade e da nação.

A construção da agenda deve se assentar na defesa do crescimento econômico com sustentabilidade ambiental. Mas somente o crescimento é sabidamente insuficiente. O desenvolvimento requer ações específicas que reduzam a concentração da renda e da riqueza e assegurem direitos e cidadania social para todos os brasileiros.

Se você se interessa por este debate não deixe de acompanhar o Seminário “Desafios e oportunidades do desenvolvimento brasileiro – Aspectos Sociais” que a rede Plataforma Política Social (parceira da Revista Vaidapé) vai realizar entre 7 e 9 de maio (informe-se pelo site www.politicasocial.net.br)

Se não puder ir, assista pela internet.

Um seminário como este vale mais que mil colunas.

A RUA GRITA

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