13 de junho de 2013

Flores que brotam na Guerra

Um conto de Fábio Chap baseado nos últimos protestos contra o aumento da tarifa do transporte público.
http://fabiochap.wordpress.com

copmenino

Foto: Mídia NINJA

No meio de uma multidão enorme, três ou quatro policiais se destacavam pela violência com que iam para cima dos manifestantes. Jean, totalmente engasgado com o spray de pimenta, percebe que ao seu lado há uma garota sentada e tossindo muito. Ela estava prestes a desmaiar. Ele decide ceder o seu lenço que estava amarrado no rosto.

“Amarra isso aqui no rosto; amarra e tentar molhar”
“Obrigad…cof cof… obrigada, moço”

Ana ficou tocada com a gentileza daquele cara que, há 5 minutos estava colocando fogo em algumas lixeiras. Um homem selvagem, mas que ainda guardava consideração pelo próximo, por quem é ovelha em solo de leões.

Ele sumiu para um lado, acompanhou um grupo que, com violência, estava indo para cima dos ônibus. Ana foi para o lado mais tranquilo, ficou próxima de pessoas que já estavam caminhando para irem embora. Quando descobriu que a estação Trianon/Masp estava fechada, Ana decidiu ficar um pouco mais por lá e acompanhar o que acontecia. Ela era repórter de um jornal e optou por trabalhar para conhecer a verdade mais de perto. Mesmo que seus editores modificassem todas as suas palavras depois.

Jean, distante daquela para qual doou seu lenço, agora respirava ares mais violentos. Enquanto alguns companheiros seus pichavam quase tudo que viam, ele gritava para quem pudesse ouvir:

“Vandalismo é o que fazem com seu pai na fila do médico. Destruição é o que fazem com a sua família quando seu filho morre em mais um assalto à mão armada. Violência é quando um professor tem redução de salário. O nome disso aqui é FÚRIA. O nome desse ônibus queimado é: EU EXISTO E NÃO SOU OTÁRIO. Escândalo é o salário e benefícios desses senhores ser pago com os meus míseros vinte centavos a mais.”

Enquanto gritava, Jean foi surpreendido por mais de seis policiais que conseguiram imobilizá-lo e detê-lo. O arrastaram por muitos minutos, mas no meio do caminho estava Ana. Ela, sem saber o motivo de Jean se arrastado, começou a tirar diversas fotos e gritou para que ele ouvisse:

‘Eu vou te tirar dessa, cara. Me fala seu nome.’ – Ele, com medo de que os policiais usassem isso contra ele, ficou mudo, mas olhou no olho de Ana como quem dizia ‘obrigado pela coragem’.

No retorno pra casa ela não tirou da cabeça o rosto daquele homem. Apertou mais forte o lenço que ganhou do jovem, rebelde, vândalo, mas humano: Jean.

Quando a madrugada chegou, ela descobriu que a fiança para os detidos era de vinte mil reais. Em orações silenciosas, Ana pedia que aquele rapaz tivesse estrutura, para que sua família não fosse à miséria ao precisar pagar R$20.000,00 para soltar um filho. Filho esse que foi ser a mão que age, não a boca que fala.

Hoje, 12 de junho, Ana não passou ao lado de Jean. Eles não eram um casal. Mas ela tinha uma certeza: naquela noite eles flertaram com a liberdade e a coragem para que todos pudessem namorar um amanhã mais justo. Ela sabe que revolução não se faz com mingau e abraço em árvore . Também descobriu que tinha uma estranha mania: A de se apaixonar pela coragem de quem ainda consegue se revoltar.

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