09 de junho de 2013

NÃO É VINAGRE CONTRA BOMBA, É ORGULHO CONTRA PRECONCEITO

Por Paulo Motoryncolaborador da Revista Vaidapé, estudante de Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP).

Fotos: Mídia NINJA

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Menos de 24 horas depois da realização da Marcha da Maconha e absolutamente nenhuma das páginas principais dos grandes portais online do Brasil ainda repercute a passeata, que levou milhares de pessoas às ruas de São Paulo na tarde de sábado, dia 8 de junho.

Aprovada pelo STF desde 2011 para preservar a liberdade de expressão dos manifestantes, a Marcha é um movimento social que ganha cada vez mais projeção nacional. As passeatas e grupos de discussão promovidos pelos organizadores fomentam um debate de relevância ímpar.

No entanto, o sumiço da Marcha das manchetes da grande imprensa reflete uma polarização: se, por um lado, a luta por uma nova política de drogas cresce e ganha corpo, por outro, as forças conservadoras da sociedade somam esforços para minar qualquer evolução no nível da discussão.

A “Folha de S. Paulo” é um exemplo marcante de tal postura. A edição impressa do jornal deste domingo fez uma escolha evidente: confiou piamente nos números fornecidos pela Polícia Militar, de que aproximadamente mil pessoas estavam na manifestação, colocando a informação na sua manchete.atomaconha

As duas colunas do jornal reservadas para a repercussão da Marcha – o que representa menos de 1/4 de uma página – citaram o número de 10 mil pessoas presentes na manifestação, estimado pela organização do evento. A informação, no entanto, estava quase que escondida no meio do texto.

A questão mais importante nem chega a ser o número de pessoas presentes – mesmo levando em conta que a estimativa da Polícia Militar faz qualquer um que esteve sábado na Av. Paulista dar gargalhadas -, mas a clara opção editorial do jornal ao lidar com os números: conferir a menor importância possível ao movimento.

O “Estadão” não deixou por menos. Ainda no começo da tarde de sábado, quando o clima na Marcha era totalmente tranquilo, publicou a seguinte reportagem: “Marcha da Maconha tem vinagre contra gás lacrimogêneo”. E, pasmem, a notícia não falava de confrontos entre manifestantes e policiais, mas apenas contava que alguns estudantes levaram vinagre em função do risco de um entrevero.

A publicação dos Mesquita, dessa forma, consolidou mais alguns dos inúmeros padrões de manipulação da grande imprensa: dar ares de guerra aos protestos populares, aproximar a figura do manifestante à figura do baderneiro e criminalizar movimentos sociais.

Como se não bastasse o duro caminho a se trilhar pela construção de uma nova política de drogas, privilegiando o debate e a participação popular, a Marcha da Maconha tem mais uma série de duras barreiras para superar em busca de seus objetivos, entre as quais se destacam o conservadorismo e o preconceito.

Mas a primeira arma para vencê-los esteve exacerbada nos berros, nas fantasias e nas músicas que embalaram a Marcha paulistana em 2013: o orgulho. O orgulho de lutar pela transformação da realidade que nos foi imposta.

(MC Sombra dando o recado pra quem estava na Marcha da Maconha)

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