02 de junho de 2013

Sociedade do Descarte

Por Lucas Cabral Pazettocolunista da Revista Vaidapé e estudante de Psicologia pela Universidade Estadual de São Paulo (UNESP-Bauru).

descarte

De fato descartamos. Trocamos de celular mais rápido do que aprendemos a usá-los, damos cara nova aos nossos armários compulsoriamente, compramos novas mobílias e doamos as veteranas, adquirimos novos eletrodomésticos e desovamos as panelas velhas. Num âmbito mais pessoal assim o fazemos também. Descartamos o antigo ‘’look’’: Mudamos a aparência, competimos com a moda, renovamos e reinventamos os shampoos de nossos banheiros, pintamos o cabelo e por ai vai.

Bom, particularmente não sou desses que abominam essa grande reciclagem, ou que temem as mudanças materiais e pessoais. O meu temor é em como lidamos com isso.

Aparentemente nesse nosso tempo de constantes mudanças, ansiamos tanto pelo próprio processo e pelo o que está por vir que generalizamos esse comportamento do descarte. No qual tudo assume um valor temporário, que possa e deva ser substituído, imediato, como se as coisas se validassem efemeramente.

Um porteiro é um porteiro, a “tia” da cantina é a “tia” da cantina, o zelador, a faxineira. É com frequência que atribuímos um “valor” as pessoas do nosso cotidiano esquecendo que elas não são aquilo, não são o uniforme. Ali mora uma cabeça pensante também, um indivíduo impar em sua singularidade, por sua história.

Pois bem, será que não adquirimos então a mania de descartar o próprio homem?

Eu pergunto: O que são as cadeias (as nossas pelo menos) se não um grande lixão humano? Os criminosos não seriam como aquela velha roupa que já não nos servem mais? Aquele celular antigo que só nos dão problema, inútil? – “Por Deus, livre-se disso”.

O que é feito num presídio? Jogamos pessoas num buraco destinadas ao ostracismo não? – “Ah, então você prefere que eles continuem nas ruas? Até te assaltarem, te matarem?” – Claro que grande parte das pessoas lá dentro não está preparada para o convívio social adequado. Muitos desenvolveram inclusive patologias psíquicas dentro dos presídios. Mas o fato é que eles não são como um sapato usado, um casaco velho, ou um penteado fora de moda. Eles são gente como a gente, e a gente muda… Você não?

Fui procurar no dicionário a palavra “presídio” e encontrei: “Estabelecimento público destinado a receber presos”

Hum… Legal, receber, receber e… Só? Assim? Sem um segundo passo? Será que a definição que lá está e a nós deveria constar não seria: “Estabelecimento público destinado a receber, reabilitar e reinserir socialmente presos”?

Isso não nos mostra o tipo de atenção que estamos dando as pessoas a nossa volta?

Mas é que aqui “bandido bom é bandido morto”. Aqui uma criança é digna de dividir uma cela. Aqui não se queima só o lixo, queimam-se mendigos na calada da noite. Não se jogam só os brinquedos velhos fora. Jogam-se os menores também, todos juntos para um lixão primário chamado de Fundação Casa.

Eu poderia estar culpando apenas o governo e mostrando dados, como os do sistema carcerário da Alemanha que deixam o do Brasil no chinelo. Uma das razões pelo investimento expressivo em assistentes sociais e psicólogos o qual melhora e muito a eficácia das cadeias. Mas acho que devemos assumir essa culpa também. Enquanto imitarmos discursos sensacionalistas e acharmos normal a prática da exclusão social por “taxações”, alimentaremos o quadro.

Não foi Gandhi quem disse “olho por olho e o mundo acabará cego”? Não é isso que fazemos hoje? Damos continuidade a um Código de Hamurabi contemporâneo?

Meu primo outro dia me disse: “Queria ver se fosse tua irmã a estuprada.”

Eu respondi: Queria ver se fosse a tua a estupradora. Porque aí, amigo, só a família para estender a mão… Se estender.

Não procuro defender os atos criminosos. Que fique claro. Ou comparar as dores. Mas que fique claro também que dor é dor e não devemos pensar em uma menor que a outra, devemos pensar que ela existe e é nosso dever procurar maneiras de evitá-la. Esses dias mesmo eu assisti uma palestra de uma professora da USP, Elaine Gomes, sobre psicologia de desastres e emergências e me lembro de que ela dizia sobre o luto não autorizado: Aquele que diz respeito a perdas que não podem ser abertamente exteriorizadas. Deu o exemplo de uma senhora que se sente “intimidada” a chorar pela perda de um cachorro pelo fato de ao seu lado haver uma mãe que perdera 3 filhos. Mas o que ela disse depois faz todo sentido: “A dor é o preço do vínculo”. E para aquela senhora o cachorro poderia significar mais que seu marido.

É-nos tão comum a frase “Iii… Esse aí não tem mais jeito”. “Não tem” porque assim o dizemos, pois assim o condenamos. E condenamos à pena mais injusta e doída para o ser humano. O descarte, “exílio”.

Lia o livro Inteligência Emocional de Daniel Goleman. Num dos capítulos ele cita uma pesquisa empírica de um psicólogo, William Pithers, na qual ele apontava a falta que alguns molestadores sexuais tinham em criar empatia. Como se eles não tivessem desenvolvido a capacidade de olhar pela ótica do outro. Em alguns relatos diziam com convicção: “se ela resiste é só para bancar a difícil”. A técnica usada por Pithers foi a de passar textos e videoteipes de vítimas contando o que é ser molestado, contando seus sentimentos e mostrando suas lágrimas. Após isso os criminosos tinham que escrever ou contar o que era ser molestado, imaginando o que uma vítima sentia. Liam seus textos em um grupo de terapia e tentavam discorrer sobre o assunto. Por último, eles tinham que passar por uma encenação na qual simulavam estarem no papel da vítima.

O resultado foi de que metade dos presos que passaram pelo programa não voltaram a cometer um crime após sua liberação em comparação com os que não passaram.

Imaginem se práticas como essas fossem usadas nas prisões de maneira mais intensa. Se começássemos a atentar a recuperação dos indivíduos e não a sua punição. Esse foi um pequeno programa, isolado, que mostrou resultados notáveis. Será que se somássemos nosso esforço em estudos e práticas do gênero não conseguiríamos mais reabilitações?

Nós fazemos isso a vida toda. Nossos esforços estão voltados para esse “descarte”. Esse não é um texto sobre as cadeias brasileiras, é sobre nós. Esse comportamento que cresce e toma forma hoje em dia.

Pensem nos idosos, eles sofrem a marginalização também, eles sofrem com indiferenças como o desrespeito às vagas e lugares que têm por direito todos os dias. E quando já fica difícil para a família aturar suas novas “malcriações” ou incapacidades físicas e psicológicas recorrem aos asilos sem muitas vezes realmente precisarem. Os asilos não significam uma segregação completa com a família. De forma alguma, os regimes são abertos e muitas vezes necessários. Mas me lembro de um trabalho apresentado por alguns colegas de faculdade que foram visitar uma instituição para idosos desse gênero e encontraram alguns casos em que a família nunca mais fora visitar o internado, apenas o despacharam lá. “Ó”, mas que bela forma de maquiar um tipo de descarte.

Então troque de celular, jogue fora o tijolão e adquira o novo GALAXY S3, S4, 9S, X9. Mas não faça isso com quem mora ao lado, com suas relações.

Devemos olhar para o outro como num espelho.

Ter esperança no próximo é ter em nós mesmos e, portanto, no futuro. Não deixem que falte.

A RUA GRITA

Volta Negra: a história do negro no Centro de São Paulo

Novo ciclo de caminhadas da Volta Negra começa neste sábado e tem atividades programadas para os próximos dois meses

A RUA GRITA

Últimos 3 dias para ajudar: Cora Primavera vai às ruas!

Criado pela Cia. Nada Pensativo, peça Cora Primavera aborda questões como transfobia e violência contra … Continuar lendo Últimos 3 dias para ajudar: Cora Primavera vai às ruas!