17 de setembro de 2013

Lições de Economia Solidária

Dos Terreiros de Candomblé às Aldeias Indígenas

Fotos Joseh Silva
Fotos Joseh Silva

Por Aline Rodrigues e Thiago Borges, via Periferia em Movimento

Criada em 2005 pelo governo federal com o objetivo de estimular práticas econômicas horizontais e igualitárias, as ações da Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes) são observadas com atenção pelos representantes de povos tradicionais.

“Na nossa cultura, desde cedo que a gente vende acarajé pra sobreviver, mas que hoje não pode ser vendido na porta dos estádios. Há muito tempo fazemos os nosso bordados e comercializamos nossas roupas. Então, as coisas que estão postas hoje a gente já faz há muito tempo, só que em uma escala menos degradante e menos impactante”, explica Mestre Aderbal de Ashogun, que é candomblecista e integra um colegiado de representantes das religiões de matrizes africanas e povos tradicionais.

“A feira é um espaço de encontro onde a gente se vê e se conhece, onde temos a comida, temos a arte”, observa Mestre Aderbal. “Isso não é economia criativa, como dizem. É economia tradicional, o que sempre fizemos para sobreviver”.

Na cultura africana, o sagrado não se restringe à religião, pois todo universo é sagrado. Portanto, nesse sentido, as práticas comerciais também têm sua divindade.

No candomblé, Exu é o orixá da negociação. Nas grandes feiras da África ou mesmo na Bahia e Rio Grande do Sul, estados com forte influência das religiões de origem africana, há uma representação de Exu.

“Ele é a boca que transforma, é da comunicação, e isso é levado para o mercado”, ressalta Mestre Aderbal, um dos participantes do debate sobre economia solidária do Percurso em Defesa da Diversidade Cultural, realizado em agosto na periferia sul de São Paulo.

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Guaranis

Entre os ancestrais responsáveis pela formação do povo brasileiro, estão os indígenas – e muitas de suas práticas econômicas prevalecem até hoje, em meio ao sistema capitalista vigente.

A estudante guarani Dara Tapara, de 15 anos, diz que é comum trocar coisas entre seus amigos. “Eu vendo piercing e, às vezes, as pessoas não têm dinheiro para pagar. Então a gente troca por arroz, feijão, lá na aldeia mesmo”, diz ela, que ajuda os pais a fazer bijuterias.

Mas como manter esses costumes vivendo na maior cidade do País?

“Antigamente, a gente conseguia alimentos caçando. Hoje temos que ir ao mercado para comprar”, aponta João Gabriel Awaxo, 27 anos, da aldeia indígena guarani Tenondé-Porã. Localizada em Parelheiros, extremo Sul de São Paulo, a aldeia é a maior da cidade de São Paulo e tem cerca de mil moradores. “A gente até tem espaço para plantar, mas a terra não é muito boa”, completa.

Para poder comer, portanto, os guaranis precisam trabalhar em outras áreas. Parte deles é funcionário das duas escolas ou do posto de saúde localizados na aldeia, enquanto muitos outros dependem da venda de artesanato a turistas que visitam o local.

Às margens da represa Billings, a aldeia fica a mais de 40 quilômetros do centro da cidade, o que dificulta o acesso ao mercado de trabalho convencional.

“Eu faço bichos de madeira. Demora umas cinco horas para terminar”, diz João Gabriel, que vende a produção por até R$ 20 cada item. “Mas fazer artesanato é obrigação, mesmo que a gente faça outra coisa [pra ganhar dinheiro], porque faz parte da nossa cultura”.

Ainda assim, o capitalismo e a cultura do consumismo são as maiores ameaças às culturas tradicionais. “Como eu posso evitar que um jovem guarani dê mais valor ao celular do que o ao nosso cachimbo, que é um instrumento sagrado?”, questiona a professora indígena Poty Poran.

“Se a gente continuar com esse costume do consumo e do descartável, nossos bisnetos não terão condições de viver. Acho estranho esse consumismo, que acaba expulsando os indígenas de onde são”, conclui.

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