14 de outubro de 2013

A violência como entretenimento: um tiro na cara da sociedade

Por Pedro Lopes do Val

Na última semana, circulou um vídeo na internet no qual um motoqueiro filmava seu caminho pela cidade quando foi abordado por dois assaltantes em outra moto. Rendido em poucos segundos, a vítima logo cedeu seu veículo a um dos assaltantes enquanto era interpelado pelo outro, que perguntou se ele era policial. Logo após, prestes a sair com a moto roubada, um dos infratores toma dois tiros, vindos de um policial que assistia tudo de dentro de seu carro, do outro lado da rua. Nesse momento, não é possível ver se o assaltante está morto ou vivo, mas num relance, vemos seu corpo no chão. A câmera então, vai ao chão também, provavelmente por estar no capacete do motoqueiro, que o tirou durante toda a confusão. Parece cena de filme? Requintes de Tropa de Elite na vida real. E se parece uma mera coincidência, não é, tanto pelo enredo, quanto pela aceitação do público.

Comecemos então pelo filme. Cenas duras, de tortura, assassinatos, abusos policias e corrupções. Todas as arbitrariedades que muitos brasileiros estão acostumados a viver foram jogadas na cara do espectador, que ingenuamente, não captou a mensagem. O tiro que sai da arma do policial, vai direto em sua cara, mas o que ele enxergou mesmo foi o “espetáculo” produzido pelas cenas de violência.”Tem que bater em bandido sim. Tem que matar esses vagabundos, e enterrar de pé pra não ocupar espaço.” Palavras fortes? Sim, mas não exageradas. O público adorou as cenas de Capitão Nascimento usando o famoso “saco”, quando quase estuprou um adolescente com cabo de vassoura então, alguns foram ao delírio. Mas poucos refletiram sobre a longa cena onde Wagner Moura discursa sobre os abusos e a violência da polícia militar. O recado é claro, em seu discurso, Capitão Nascimento é interpelado por seu filho: “Pai, por que seu trabalho é matar?”. O trabalho da Polícia Militar é matar.

E com este vídeo não foi diferente. Comentários do tipo “melhor vídeo do ano”, “merece um Oscar”, pena que não morreram os dois vagabundos” foram os mais comuns. Nenhuma reflexão, nenhum questionamento. O trabalho da Polícia é sustentado por uma boa parcela de cidadãos, os famosos “cidadãos de bem”, que são os primeiros a criticar a corrupção, a não aguentar roubalheiras, estão sempre de acordo com as leis, mas sofrem de um caráter escuso, de uma moralidade fraca, que apesar de sua debilidade, é quase unanimidade no pensamento coletivo do Brasil. Os brasileiros de bem não gostam de discutir política, gostam mesmo é de ver sangue, gostam de ver a violência como forma de vingança por todas as mazelas com as quais sofrem, advindas de um país desigual, mas quem fabrica a desigualdade por aqui, são eles próprios. É classe média dos muros, dos vidros fechados, da admiração à Rota.

Vivemos em um país onde a reflexão é deixada de lado para dar lugar a um sentimento coletivo de ódio ao outro, esse outro especialmente pobre e negro. Sem surpresa, comentários como os citados acima frequentemente são maioria em vídeos como esse, demonstrando que a própria população que reclama, é a população que causa. A população que quer um país melhor, não consegue enxergar o lado do outro, e se dois assaltantes estavam ali para roubar aquela moto, e fazer dela uma valia igual a uma vida humana desprezada por grande parte da população, chegaram lá porque suas vidas foram consequências de falhas. Falha da sociedade preconceituosa e racista, falhas do governo ausente e excludente.

Enquanto a mentalidade do brasileiro de bem for maioria nos debates (a)políticos, vídeos como esse continuarão a circular como forma de entretenimento e não como fontes de debates sobre como evitar situações similares e como atacar a raiz do problema, como evitar que dois brasileiros subam em uma moto para roubar. Enquanto opiniões vazias, preenchidas com ódio e preconceito forem aceitas como “normais”, continuaremos a viver numa grande potência desigual e ancorada em feridas que perpetuam o preconceito, aumentam a exclusão, dão cada vez mais base para o desrespeito mútuo, e quando se vive numa sociedade que não se respeita, fica bem difícil chamá-la de civilizada.

A RUA GRITA

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