18 de fevereiro de 2014

Drica, 14 anos: uma voz do rolezinho

Por Paulo Motoryn via MyFunCity

unnamedPara entender o rolezinho: debate reuniu quase 80 pesssoas na Avenida Paulista (Foto: Paulo Motoryn)

Drica é uma menina de 14 anos, moradora da zona leste da cidade de São Paulo. “Na verdade eu tenho quase 15, porque faço aniversário daqui a pouco”, brinca. Extrovertida, ela foi sabatinada por cerca de 80 paulistanos curiosos em descobrir de uma das idealizadoras dos maiores encontros de jovens em shoppings centers da cidade nos últimos meses o sentido do fenômeno que ficou conhecido como “rolezinho”.

Organizado pela escola de comunicação Énois, que atua em diversas periferias de São Paulo trabalhando com jovens, o debate “Para entender o rolezinho” havia sido divulgado com duas presenças confirmadas: a jornalista Natália Garcia e o coordenador municipal de juventude Gabriel Medina. A presença de Drica foi uma surpresa para a maioria. E mudou a cara da discussão. Nada de teorias mirabolantes sobre os rolezinhos, teses ou suposições intelectualizadas.

“Eu criei o evento dos rolezinhos do Tatuapé, do Aricanduva e vários outros. Teve rolezinho que eu chamei e teve quatro mil pessoas”, comemora, sorridente, orgulhosa de sua popularidade. “O que é ser top? Ter likes, seguidores, fotos… Eu tenho 4.000 amigos no Facebook”, responde, sempre alegre, mas já desorientada pelo bombardeio de perguntas.

O quente fim de tarde, da última terça-feira, dia 11, ficou do lado de fora do refrigerado auditório do Itaú Cultural, na Avenida Paulista. Mesmo longe das bordas da metrópole, onde mora sem vergonha de dizer, e estando em uma região de “boy”, como ela define, Drica deu uma verdadeira aula. Não uma aula convencional, é verdade: nada das pomposidades da academia, sem o discurso amarrado e coeso de um professor. Mas uma provocação intensa, que cutuca ideologias e preconceitos.

“Eu sou a favor dos rolezinhos. E podem chamar de pobre, de vândalo, porque a gente vai continuar querendo ir pros shoppings. Nós não temos nenhum espaço de lazer. E os boys dão rolezinho todo dia, por que a gente não pode?”, indaga, em um de seus poucos momentos militantes durante a conversa. “O que a gente faz no shopping?”, envergonha-se, ri, e responde: “Beija na boca”, para gargalhada geral.

Para Gabriel Medina, os rolezinhos, além da questão do consumo – amplamente debatida -, do preconceito racial e de classe, evocam a sexualidade: “É preciso enfrentar o tabu do debate sobre sexo na sociedade. Quem vai ao rolezinho está na idade da iniciação sexual, pensam e agem muito orientados por isso. Muitos fogem dessa discussão, mas precisamos entender a importância da orientação e das próprias descobertas sexuais”, afirmou.

Drica não quis mais falar de beijos e romances, pois estava envergonhada: sua mãe estava na plateia. Mas não fugiu da resposta às acusações de que os rolezeiros causam pânico correndo pelos shoppings: “A gente vai pro shopping fazer a mesma coisa que todo mundo: olhar vitrines, tomar sorvete, beber refrigerante. Ninguém é louco de ficar correndo pra lá e pra cá. A polícia é que chega expulsando e aí a gente tem que fugir”, explica.

Quando perguntada sobre a educação em seu bairro, Drica deu uma pista para a compreensão do fenômeno: “Eu até gosto de ouvir o professor falar, mas só. Na aula a gente olha pro celular e não desgruda os olhos dele até o final. O professor falando e a gente lá (neste momento, ela pega o celular do seu colo, aproxima dos olhos e desliza seu dedo alucinadamente pela tela). Mas pelo menos nessa escola nova eu entro, na outra eu não passava da porta”.

A jornalista Natália Garcia ainda contribuiu com uma discussão sobre política urbana. Especialista no tema cidades e com um passaporte recheado de carimbos, ela trouxe exemplos de políticas que valorizam as transformações a partir da demanda cultural dos cidadãos: “O direito à cidade passa pela necessidade de transformação urbana a partir de questões como a dos rolezinhos, que denuncia a falta de espaço de lazer para a juventude. Em outros países isso acontece”.

Quem também esteve na mesa de debatedores foi o rapper Diel, morador do Jardim Ângela e rolezeiro assumido: “Quando a gente vai lá comprar uma roupa, o vendedor sorri e pega o dinheiro. Mas é só a gente estar em muitos que viramos bandidos. É questão de cor, é questão de raça, classe. É tudo isso aí”. Ao lado de Diel, Drica trouxe a visão periférica dos rolezinhos, que apesar de protagonizados por jovens pobres, são analisados e discutidos apenas por adultos ricos.

“O boy tem tênis, o boy pode ir no shopping, o boy mora no condomínio. Não é nada demais que a gente quer, é só poder ter as mesmas coisas”, disse Drica, em certa altura. Ao ser perguntada sobre a importância de marcas e grifes na concepção dos rolezinhos e ouvir que a Oakley havia dito ter vergonha de seus clientes pobres, disse: “A Oakley tá lá embaixo ó, tá decadente. Ninguém mais quer Oakley, agora é só Hollister e Abercrombie. Tá achando que eu quero coisa ruim?”, finaliza, expondo as contradições do rolezinho, finalmente, saindo da boca daqueles que protagonizaram os episódios.

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