04 de abril de 2014

Do Eu ao Tu

Por João Previattelli

Ilustração por Aye Ariza
Ilustração por Aye Ariza

Somos confrontados diariamente com nossos demônios interiores, dentro e fora da mente. São currículos nos oferecendo ao mercado e as redes sociais nos oferecendo aos outros. Temos perfis em redes sociais nos questionando: “quem é você?”

Perguntei ao velho. Ele me contou sua vida inteira, desde os primeiros fracassos aos últimos sucessos. Não teve medo de suas vergonhas. Estufava o peito para falar das conquistas. Sabia da sua árvore genealógica inteira, e assim justificava as suas escolhas e as escolhas dos seus. Mas ainda assim, fiquei sem saber quem era o velho.

Também perguntei ao jovem. Este me explicou seus planos, mirabolantes utopias de suscetíveis sucessos pessoais. Justificou que mesmo não tendo tantas experiências, estava pronto para os desafios que iria enfrentar. Confessou já ter pensado em todos eles, nos mínimos detalhes. Mas ainda sim, fiquei sem saber quem era o jovem.

É difícil nos desprendermos.

Mas a verdade é que agora, neste momento, somos o presente, e assim como ele somos paradoxos: pensem nesse verbo, que é o primeiro a aprendermos. Ele, o mais fácil de conjugar, é o mais difícil de viver.

Como o velho, também estamos presos aos presentes já vividos, fatos consumados pelo Eu que ainda ontem existia. Essa relembrança diária alimenta e cuida desse monstro interno que chamamos de Ego. Velho, porque se orgulha dessas lembranças pessoais, como se elas ainda valessem algo?

Também podemos ser jovens e nos aprisionarmos. Esse mesmo monstro alimentado pelo ontem, nos empurra ao amanhã. É o empurrar a um precipício. Acreditamos tanto em ações futuras que engessamos nossa moral. Cobrimos, protegemos e cercamos. Então, ela passa a não aceitar outras, a ser imutável. Jovem, porque pensa em algo que ainda não acontece, como se fosse valer algo?

Quando estava sozinho perguntava ao velho e ao jovem quem eles eram. Então, resolvi me perguntar. Hoje fiz isso. Foi quando a criança que respondeu: Ué, eu sou eu, quem mais poderia ser?

Ah, então esse sou eu.
Senti a sua falta e ainda sinto.
Só não sei se ainda falo sozinho ou contigo.
E você, porque não fala comigo?

A RUA GRITA

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