01 de abril de 2014

Violência policial contra a população preta e pobre: a Ditadura não acabou

Cavalaria da Polícia Militar em ocupação no Complexo da Maré (Foto: Atila Roque/Facebook)


Os anos de chumbo se foram, no entanto, a repressão nas periferias e favelas se mantém cada vez mais viva

Por Henrique Santana

Poucos dias antes do cinquentenário do golpe militar, foi assinado pela presidenta Dilma Rouseff (PT) um decreto que autoriza o emprego das forças armadas dentro do complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro. A ocupação, meio à ação conjunta da Polícia Militar, com a implantação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), prova que as conquistas obtidas nos últimos 50 anos na instauração de um regime “democrático” servem, na realidade, apenas à uma pequena parcela da população.

Mal se iniciaram as ocupações e já emergiram insatisfações dos habitantes do complexo, com denúncias de abusos em abordagens policias. Em matéria publicada no site da revista “Exame“, moradores entrevistados fizeram alguns relatos: “Eles estão esquecendo que somos trabalhadores. Levaram uma televisão de 32 polegadas de uma senhora. Estragaram a fechadura da minha porta. Eu sou trabalhador. Estou revoltado por causa disso” conta João, que disse trabalhar como pedreiro.

A presidenta de uma associação de moradores que se identificou como Andrea ainda apontou o descaso das políticas públicas na comunidade e a insatisfação com a entrada da polícia: “Estão entrando na casa dos moradores, estourando vidro de carro. Se damos bom dia, eles saem xingando. É muito abuso. A gente quer é políticas públicas aqui dentro. Que melhorem os serviços”.

O jornalista Benjamin Parkin, do jornal britânico “The Guardian”, em matéria intitulada “Como o Brasil vai manter a festa da Copa do Mundo rolando? Mandando o exercito”, busca mostrar que o viés político da ocupação está atrelado, na realidade, à políticas de prevenção à possíveis embaraços durante a Copa do Mundo. Verdade ou não, é evidente que tal prevenção não se aplica unicamente às periferias e está, por exemplo, voltada à repressão de movimentos sociais e manifestações populares, como o famigerado projeto de lei “antiterrorismo” que tramita no Congresso.

A diferença básica é que dentro das favelas as prevenções vem munidas e se dão, em grande parte, pela pólvora. Em janeiro desse ano, no Estado de São Paulo, por exemplo, policiais militares mataram, em serviço ou de folga, 76 pessoas, gerando uma média de duas mortes por dia, isso somente nos dados oficiais divulgados. A violência policial tem cor e classe social. A mídia, no entanto, trata tais abusos às margens de seu arcabouço de notícias, e a repressão nas periferias cresce como consequência.

Da mesma maneira, a repressão policial à população preta e pobre, que se acentuou na Ditadura, não tem caráter central nos movimentos de memória ao golpe. Recordar é viver, mas que essa memória não se restrinja unicamente aos danos sofridos pela classe média e pela elite intelectual. As mortes e desaparecimentos nas periferias do país vigoram até hoje, de forma mais intensa do que nos anos de chumbo.

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