26 de maio de 2014

KL Jay festeja 25 anos de Racionais e fala sobre racismo, mídia e ostentação

Por Paulo Motoryn

KL Jay é o DJ do grupo Racionais MC’s, uma das maiores referências do rap nacional. No vigésimo quinto ano de carreira ao lado de Mano Brown, Ice Blue e Edi Rock, Kléber Geraldo Lelis Simões já não é exatamente o mesmo jovem que começou a carreira em 1987 tocando em bailes nas madrugadas da zona norte de São Paulo. Hoje, aos 44 anos, é conhecido do centro às periferias. Mas nem por isso é possível dizer que sua revolução acabou. Longe disso.

Não é a quarta década de vida que fez KL Jay perder seu brilho. No comando do som do Sintonia Dj Club, casa nos Jardins em que apresenta um eclético repertório às quintas-feiras e onde recebeu a Revista Vaidapé, ele mostra a mesma disposição com que faz um discurso forte e politizado. A idade o faz refletir. Perguntado sobre os filhos, ele respondeu: “Meu filho mais novo tem 17 anos. Quando eu tinha 17, já era pai e o rap ainda estava chegando aos poucos”.

No espaço urbano, desde então, ele vê poucas mudanças: “Lá no meu bairro na zona norte chegou um shopping monstro. De resto, basicamente as coisas não mudaram”. A passagem do tempo só assusta KL Jay no que diz respeito ao crescimento do hip-hop: “O rap está cada vez mais forte. A internet ajudou para caralho e a gente está cada vez mais foda. Para você ver, todos os meus filhos curtem. Três deles são DJs”, afirma, orgulhoso pela expansão do gênero.

As reflexões de KL Jay sobre as transformações do rap não fogem dos pontos mais polêmicos, como a presença de rappers em programas de televisão ou a realização de shows em casas noturnas “de playboy”: “O segredo é não querer ser aceito. A questão é: como você vai? Vai lá e seja autêntico. É seu som, seu visual”, argumenta. O assunto é justamente o maior ponto de discórdia entre as novas figuras no cenário do rap.

Em pouco mais de meia hora, a conversa da Revista Vaidapé com KL Jay caminhou também para assuntos não diretamente ligados ao rap. Sobre a Copa do Mundo, por exemplo, ele afirmou: “Não aprovo, não quero estar perto e não quero nem ver”. Mas fez uma ressalva: “O dinheiro que foi gasto para estádios é ínfimo se comparado com o que é desviado e roubado. Não pode ser ingênuo e falar que ao invés de construir hospital e escola, estão construindo estádios. Não é nada o que foi investido para a Copa se você for ver”, analisa.

O DJ do Racionais ainda comentou a campanha #somostodosmacacos criada após o caso de racismo envolvendo o jogador Daniel Alves em partida de futebol no Campeonato Espanhol: “Eu não sou macaco. Sou ser humano”. Além de criticar o oportunismo da venda de camisas com a hashtag, fez questão de lembrar: “O grande racista filha da puta é o Estado. O racismo que tem no Brasil é o espelho da mentalidade do Estado e de sua polícia racista”, finaliza.

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