08 de julho de 2014

Das ruas ao pancadão: entrevista com MC Garden

A Revista Vaidapé entrevistou o músico Mc Garden,  famoso por um vídeo lançado no contexto das manifestações de junho do ano passado

Por Henrique Santana e Gil Reis

A música intitulada “Isso é Brasil” conta atualmente com mais de 2 milhões de views. Se os funkeiros Cidinho e Doca, em “Rap da Felicidade” cantavam refrões como “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci” – evidenciando a realidade das favelas e as repressões existentes na periferia – Garden traz consigo temas mais panorâmicos, saindo do recorte da comunidade e abordando aspectos mais gerais da sociedade. Os temas sociais que emergiram com grande força e repercussão durante as jornadas de junho são recorrentes nas letras do Mc, que caracteriza sua música como um “funk consciente”.

A entrevista começou permeando temas relativos à música, deixando claro que sua maior influência sempre foi Raúl Seixas. Sobre o polêmico funk ostentação, Garden afirmou não ser contrário ao estilo musical, argumentando que “é valido um moleque, que nunca teve nada, quando conseguir alguma coisa falar: ‘olha eu fui capaz’”. Enfatiza, no entanto, os problemas relativos a uma sociedade consumista e materialista: “Antes o moleque ia para o baile funk de chinelo e ele era feliz, hoje em dia ele tem que ter um tênis de 900 reais para socializar”.

Tratando da relação entre rap e funk, o músico aponta o que acredita ser a raíz em comum entre os dois: “São irmãos de berço, o rap veio da favela e o funk também”. Garden também enfatiza sua posição sobre a confluência de gêneros musicais, acreditando que e a liberdade do músico de transitar entre diversos estilos deve ser conservada: “não tem que ter um rótulo falando que Mc Garden é funkeiro. Mc Garden é músico”.

“Antes o moleque ia para o baile funk de chinelo e ele era feliz, hoje em dia ele tem que ter um tênis de 900 reais para socializar”

Voltando a temas relativos à sociedade e política, veio à tona a discussão sobre a chamada Lei do Pancadão, regulamentada em Janeiro desse ano. A Lei, que restringe o uso do som automotivo em vias públicas, tem a intenção de inibir a realização dos pancadões de rua na cidade. Nesse sentido, Garden argumenta: “Não precisava ter a Lei, deveria ter bom senso do pessoal, o som alto todo o dia incomoda com certeza, agora, proibir, principalmente na quebrada que tem poucas opções de lazer, eu acho que não é justo”.

O Mc em sua fala evidencia um processo de gradativa restrição do direito ao lazer, mais explícito na periferia, que, com a falta de parques, praças, eventos acessíveis e, principalmente, um transporte público que ligue o centro à periferia, tem nas festas de rua uma forma de concretizar tais momentos.

Finalizando a entrevista, Garden fala sobre os movimentos iniciados no ano passado e suas perspectivas sobre as mudanças que devem ocorrer: “o que tem que mudar mesmo é a mente da sociedade. Tanto quem é boy quanto quem é da favela tá no mesmo barco, é o povo”.

A RUA GRITA

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