29 de julho de 2014

O Brasil não é um anão. É um cego que não percebe: Gaza também é aqui

Velas acesas durante manifestação pró-Palestina em São Paulo (Foto: Raphael Sanz)

Por Paulo Motoryn

Nunca antes a palavra “desproporcional” foi tão mencionada no debate nacional. Tudo começou quando, em consonância com boa parte da diplomacia internacional, o termo foi utilizado pela presidenta Dilma Rousseff (PT) para qualificar a ação do Estado de Israel no Oriente Médio. A postura do governo brasileiro irritou um ministro israelense, que rebateu: “Uma demonstração lamentável de como o Brasil, um gigante econômico e cultural, continua a ser um anão diplomático”.

Desde então, a atenção à questão palestina no Brasil aumentou, não apenas nas redes sociais, com um número cada vez maior de acalorados espaços de debate virtual, mas também nos grandes veículos de comunicação. O massacre promovido pela ideologia sionista que move o jovem Estado de Israel fica mais evidente aos olhos do público, dos governos e dos organismos internacionais justamente pela desproporção nos ataques: mil palestinos mortos contra menos de 50 israelenses desde o início da atual crise.

É obviamente saudável uma relevância maior da questão palestina na agenda política brasileira e mundial. Mas revela uma cegueira inexplicável: as periferias das grandes cidades brasileiras sofrem também com um revoltante massacre, promovido pelas Polícias, contra a população pobre e negra, como reafirmam ano após ano os mapas estatísticos da violência estatal. A questão, no entanto, é tratada com um silêncio mórbido nos grandes veículos de comunicação e ignorada no debate político.

O Estado de São Paulo é um caso curioso. Na capital, diversas manifestações pró-Israel, pró-Palestina e pela coexistência pacífica aconteceram. Os grandes jornais da região aumentaram como nunca o número de reportagens sobre o assunto e seus colunistas se empenharam em duvidosas análises do conflito.

Foto: Michel Nebonta
Polícia Miltiar de São Paulo desfila seu aparato repressivo (Foto: Michel Nebonta)

O fato é que apenas a Polícia Militar de São Paulo matou 317 pessoas desde janeiro de 2014. E o dado só leva em conta policiais que mataram em serviço. Os assassinatos cometidos por policias de folga ou pela atuação dos grupos de extermínio compostos por agentes estatais não foram contabilizados.

É o maior índice de letalidade policial desde 2003. Há 11 anos, portanto, os gatilhos comandados pelos homens de farda não tinha tanta eficiência para exterminar a população. Os policiais mortos, histórico pretexto para a escalada da violência estatal, foram apenas seis, desde janeiro deste ano. Para o secretário de segurança pública do estado de São Paulo, Fernando Grella, os dados têm de ser relativizados. Para a grande mídia, os dados não merecem capa – ao contrário de conflitos distantes, que não ameaçam o atual estado de coisas onde vivemos.

Chamar o Brasil de “anão”, como fez um desrespeitoso e descabido ministro israelense, é um erro. O problema não é de nossa diplomacia – ela, por sinal, poderia questionar o Estado de Israel mais que na esfera política, mas também em âmbito econômico, regulando os acordos bélico-industriais -, e sim da total indiferença ao genocído que, como na Palestina, acontece no Brasil.

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