26 de julho de 2014

“O pixo nosso de cada dia”

“A pixação, normalmente escrita com X por nós pixadores, não é apenas uma grafia estilizada de palavras nos espaços públicos da cidade, trata-se de um desenvolvimento expressivo realizado em sua maior parte por jovens das periferias, e funciona como a voz dos sem voz, o grito mudo dos invisíveis, brado pintado, corre existencial, identidade. Na pixação não há um consenso, muito menos liderança única. Na real são varios bandos, uma vasta vida loca solta pela cidade.

Quem pixa defende com unhas e dentes e tinta preta a prática e filosofia da pichação. O feitiço da pixação arrebate o sujeito pixador, pede dedicação desmesurada e risco de morte. Na pixação o que realmente importa é a dinâmica de criação dos riscos, não basta só pixar, temos que produzir excitação e adrenalina, transgredir pra progredir, radicalizar, chocar. Exercer nossa liberdade de expressão, já que vivemos numa falsa democracia. O novo meio urbano reforça e valoriza desigualdade e separações e é portanto um espaço publico não-democrático e não moderno. Processos de discriminação combinam-se ao medo, criando novas formas de segregação, dentre as quais a construção de muros é a mais emblematica.

O que pra uns é vandalismo, pra nós é (re)apropriação. O pixador é o artista urbano que vê a cidade como suporte. Estamos nos (re)apropriando de uma cidade que foi negada a nós. O pixo é a retomada da cidade por parte dos excluídos. Cada parede pixada é sinônimo de insatisfação social, se agrada ou desagrada já é outra questão, o importante mesmo é que incomode. A pixação pede mais do que passagem, pede permanência, como pedra lascada e não polida. Como um conceito, e não inconsequência, pede solidez e clama por respeito. E si assim não for, o pixo vai pegar.

Nesse exato momento muitos pixadores estão nascendo, sina traçada, ainda sem saber-se gente ou urbanoide. É circunstancial e sintomático por referência cultural, por contingência social, por razões antropológicas. Somos a tribo dos escribas underground, predominantes e crescentes na bolsa amniótica das periferias.

Pra quem ainda não sabe anuncio aqui: Não há futuro, o pixo é a ausência do futuro, a enfermidade da vida, praga moderna, peste aerossol, câncer cancro cítrico. Vale o que está escrita nas paredes, e nós não pretendemos parar.”

*Texto retirado do perfil do Facebook de Cripta DJAN

Trailer do filme “Pixadores”, do diretor Amir Escandari:

A RUA GRITA

Os direitos humanos frente à Cracolândia

Por: Isabel Rabelo  Problemas sociais e falta de políticas públicas abrem espaço para violações em … Continuar lendo Os direitos humanos frente à Cracolândia