01 de agosto de 2014

Batalhas de rap são reprimidas no Grande ABC

Foto: Alan Felipe


 Nesta terça-feira (29) a Guarda Civil Municipal protagonizou um episódio de repressão a cena Hip-Hop de São Bernardo

Por Alan Felipe

Há um ano e dois meses, durante todas às noites de terça-feira, a Praça da Matriz, no centro de São Bernardo do Campo, é ocupada por jovens de todos os lugares da região do grande ABC para andar de skate, conversar e ver o duelo de MC’s. Eles, que já foram alvos da imprensa local, foram reprimidos pela Guarda Civil Municipal (GCM) na última terça feira, 29 de julho.

O evento, que já chegou a levar mil pessoas para a praça na edição de aniversário, e tem uma média semanal de quatrocentos jovens, é uma prática do direito à cidade. “A Batalha da Matrix é uma manifestação popular independente da prefeitura”, diz Alex Street, Mc de 37 anos, 23 deles dedicados ao rap. “A gente não depende de ninguém do governo e ninguém da prefeitura. O bagulho aqui é sangue, suor e lágrimas de cada um dos companheiros.”

O rapper explica: “Faltava um pico pra molecada se reunir e poder trocar uma ideia, fazer uma rima, tomar um baratinho e dar um role de skate. Resumindo, faltava um espaço de cultura dentro do ABC. A gente deu a iniciativa, só isso”.

Os GCMs têm um histórico de atrito com a batalha e teve nesta última terça-feira (29/07) o seu ápice. Neste ano, os jovens da organização conquistaram um aval da prefeitura e podem usar a caixa de som até às 22h. Depois disso, caso precise, devem continuar o evento com o equipamento desligado.

Confira abaixo um vídeo gravado no dia 13 de maio:

Ao passar do horário, os GCMs reclamaram e exigiram a finalização do evento, contrariando o acordo feito na secretaria de cultura. Durante essa discussão, aconteceu paralelamente uma briga na parte superior da praça entre duas pessoas do público. Os guardas literalmente cruzaram os braços, deixando para a organização separarem o conflito.

Começou então uma discussão perguntando quem fazia a segurança na praça. Um dos guardas começou a filmar a discussão com o próprio celular e ao ser questionado sobre não estar com identificação, respondeu que a mesma estava “no cu”. Vale lembrar que de acordo com o Art. 48, inciso VII do estatuto do GCM é infração usar termo descortês com o público e segundo o Art. 49, inciso XVI é proibido suprimir a identificação do uniforme ou utilizar-se de meios ilícitos para dificultar sua identificação.

Mas não é exclusivo de São Bernardo do Campo a repressão da polícia. Felipe Capellari, conhecido também como Cabeça Feita, fala que o problema acontece também em São Caetano, onde organiza a Batalha da Galeria. Lá, depois da décima primeira edição e por causa da opressão policial, o jovem precisou mudar a localização do evento.

A falta de locais de lazer fez a juventude se organizar com total autonomia e proporcionar toda semana, de maneira gratuita, música e diversão. Por causa da ausência do Estado, conseguiram realizar semanalmente uma festa popular e arrecadar roupas para a campanha do agasalho, limpando a bagunça feita por eles mesmos. Ironicamente, a presença da prefeitura e do seu braço armado, que deveriam proporcionar a segurança do local, protagonizaram mais uma vez a repressão ao hip-hop, cultura negra e da periferia.

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