19 de agosto de 2014

Povo segue nas ruas e manifestações acumulam tensões em Missouri, EUA

Estudantes da Universidade de Howard protestam com as mãos para o alto, símbolo das manifestações. (Reprodução Facebook)


Crescem também manifestações defendendo a ação policial, e testemunhas surgem para confirmar suas versões do episódio. Possibilidade de prisão do policial Darren Wilson parece distante.

Por Thiago Gabriel, de Nova Iorque

Os protestos em Fergunson, no estado do Missouri, já duram mais de uma semana desde o assassinato de Michael Brown pelo policial Darren Wilson. A mídia voltou os olhos para os conflitos e tem destinado a maior parte de sua cobertura diária à tensão que envolve o caso.

A tomada das ruas pela comunidade local teve vários momentos distintos. Iniciada de maneira totalmente espontânea, reuniu negros e pessoas cansadas dos abusos policiais na região. Após protestos pacíficos, a revolta levou a saques e destruição de lojas por parte de alguns manifestantes.

A resposta policial foi utilizar táticas e armamentos militares para controlar a situação. A truculência não foi bem recebida pela população americana e, surpreendentemente, nem a mídia tradicional, em sua maioria, viu com bons olhos. Jornalistas e cidadãos americanos condenam o fato de ter uma cidade americana sitiada, comparando as cenas a um campo de guerra. Curiosamente, muitos deles apóiam ocupações militares do governo americano em conflitos internacionais. Exemplos recentes são a nova investida norte-americana no Iraque e o apoio à Israel no conflito em Gaza.

Uma autópsia pedida pela família revelou que Michael Brown levou ao menos 6 tiros. Quatro deles próximos ao braço direito e dois na cabeça. A autópsia confirmou que o último tiro, na região de cima da cabeça, foi o único sem a mínima chance de sobrevivência. Para a família, os resultados confirmam a versão de muitas testemunhas, de que Brown estava desarmado e não ofereceu resistência.

Ao redor do país, manifestações espalharam-se exigindo justiça pelo assassinato do jovem. Mesmo assim, passeatas também reuniram americanos em apoio ao oficial Darren Wilson. Uma testemunha identificada como “Josie”, afirmou a uma rádio local que Brown teria avançado sobre Wilson, antes de ser alvejado pelo policial. Essa versão contrasta com todas as outras testemunhas apresentadas, que afirmam que o jovem morreu com os braços para cima, pedindo para que Wilson não atirasse. A polícia disse que o relato da suposta testemunha é muito parecido com o do oficial, blindado pelo departamento para não se manifestar publicamente.

No entanto, a população do bairro em que Michael vivia, onde 70% dos moradores são negros, reafirma que ele foi assassinado injustamente. Após o início das manifestações violentas, em uma tentativa de acalmar os ânimos das manifestações, o governador do Missouri, Jay Nixon, designou Ron Johnson para comandar as ações policiais nas ruas. Um capitão da polícia negro e oriundo da comunidade de Fergunson.

A primeira reação foi positiva por parte da comunidade. Muitos sentiram-se prestigiados por ter um cidadão mais próximo de sua realidade comandando a relação entre polícia e manifestantes. Na primeira noite, foram vistas conversas entre os cidadãos e policiais, e até abraços e sorrisos quando os oficiais caminhavam próximos aos protestos.

No dia seguinte, a polícia divulgou o nome do policial responsável pelo assassinato, o oficial Darren Wilson. Na mesma entrevista, foram exibidas imagens de uma câmera de segurança de uma loja de conveniência. O vídeo mostra um homem negro, fisicamente muito parecido com Brown, junto a outros dois amigos. A polícia afirma que eles teriam assaltado a loja para roubar cigarros e, em seguida, Brown teria empurrado o vendedor após uma discussão. As imagens não são claras o bastante para acusar o jovem.

Após as declarações, o próprio chefe da polícia local, Tom Jackson, afirmou que Wilson não abordou Brown por conta da suspeita de roubo. Ele foi parado por estar “bloqueando o tráfego”. Sua ação, portanto, nada teve a ver com o suposto roubo, para o silêncio de muitos comentaristas que já alegavam os tiros como legítima defesa, e a abordagem como correta.

No domingo (17), a polícia apresentou seus equipamentos para a contenção de distúrbios no local, os protestos continuavam acontecendo incessantemente. Centenas de oficiais, balas de borracha, gás lacrimogênio e veículos blindados desfilavam no local onde os protestos tem ocorrido, próximo à rua onde Brown foi morto. Enquanto o toque de recolher, estipulado para a meia-noite, se aproximava, muitos manifestantes afirmavam que não iriam respeitar a determinação.

Antes do horário marcado, a polícia já reprimia quem permanecia nas ruas, e bombas de gás foram atiradas contra a população e a imprensa. Foram reportados tiros de armas de fogo, ainda não atribuídos com certeza à manifestantes ou policiais. O trabalho da mídia foi destinado a uma área específica com acesso controlado pela polícia. Apesar disso, repórteres de grandes redes como a CNN relatavam sentirem-se mais protegidos com a determinação.

A imprensa americana tradicional contenta-se em transmitir as informações através dos limites estabelecidos pelas forças de autoridade. Quando os conflitos atingem o ápice, apenas alguns jornalistas independentes colocam-se junto aos manifestantes para acompanhar os atos.

Em um vídeo gravado de uma transmissão por LiveStream, um policial grita ao jornalista que filmava as ações: “Saia já daí, ou irei atirar”, apontando uma arma para a câmera. O capitão chegou a conversar com o repórter para acalmar os ânimos, porém não forneceu a identificação do oficial que o intimidou.

O governador anunciou na segunda-feira (18), a entrada da Guarda Nacional para a contenção dos protestos. A Anistia Internacional enviou representantes à Fergunson para acompanhar a situação e denunciar possíveis abusos por parte dos envolvidos. A organização jamais havia destinado o trabalho de observadores para conflitos ocorridos dentro dos Estados Unidos.

Com a Guarda Nacional nas ruas, a repressão atingiu seu ápice. A polícia prendeu 31 manifestantes e não hesitou em utilizar seus aparatos militares para dispersar a multidão. O toque de recolher não assusta os moradores de Fergunson, que prometem seguir nas ruas. O assassinato de Michael Brown já é visto como a ponta de um enorme iceberg, há muito tempo segregando os direitos dos residentes frente a presença policial.

Muitos pedem o afastamento do chefe de polícia de Fergunson, Tom Jackson, a quem atribuem a demora na divulgação de informações do atirador, e a infeliz divulgação do vídeo de Michael Brown na loja de conveniência. A não-divulgação das cenas gravadas pelas câmeras policiais, presentes em todos os carros da corporação, também gera revolta.

Temas como a desmilitarização das polícias norte-americanas e a importância do voto, não-obrigatório no país, tornaram-se presentes nas discussões em nível nacional. O reverendo Clinton Stancil, ativista dos direitos civis, afirmou em uma entrevista: “Nós (cidadãos de Fergunson) podemos controlar quem senta na cadeira do prefeito. Estamos falando de uma cidade em que 70% da população é negra e não temos ninguém no poder que se pareça conosco”.

A revolta cresce nas ruas a cada ação truculenta da polícia. A divulgação do relato em favor do policial  deve acirrar ainda mais o ânimo dos manifestantes. A resolução das tensões parece longe do fim, assim como os problemas vividos há décadas por negros e comunidades periféricas com a polícia dos Estados Unidos.