17 de setembro de 2014

‘Alguma coisa acontece no meu coração’: o massacre da São João

Foto: Drago/Selva SP


Reintegração de posse promovida pela Polícia Militar no centro de São Paulo provocou revolta dos ocupantes do antigo Hotel Aquarius. As cenas de guerra só tiveram um vencedor: o mercado imobiliário

Por Henrique Santana e Paulo Motoryn

Mais uma vez, a Polícia Militar do Estado de São Paulo protagonizou cenas lamentáveis em suas “reintegrações de posse” – operação que garante a propriedade privada, despeja famílias e só aumenta o deficit habitacional da metrópole.

A ocupação São João, localizada na avenida eternizada nos versos de Caetano Veloso, virou cenário de guerra: mas a Polícia lutava contra quem? O cartão postal da cidade acordou na manhã dessa terça-feira (16) com um enorme contigente, de diversos esquadrões policiais.

O oponenente: as cerca de 800 pessoas que viviam no antigo Hotel Aquarius, abandonado há 10 anos. Imigrantes, trabalhadores, mulheres e crianças expulsos de suas casas para efetivação de uma ação de reintegração de posse feita a pedido do proprietário do prédio, o empresário Ricardo Pimenta.

A ocupação, organizada pelo MSTRU (Movimento Sem Teto pela Reforma Urbana), juntamente com a FLM (Frente de Luta por Moradia) e o MSTC (Movimento Sem-Teto do Centro), ocupava o prédio desde fevereiro desse ano, quando, disfarçados de bloco de rua no carnaval, os ocupantes adentraram o número 605 da Avenida São João.

Guerra? Contra quem?

Os policiais não economizaram na truculência, e a reintegração deixou o centro paulistano em clima de guerra. Vale lembrar que, em uma guerra, o vencedor não necessariamente está na linha de frente dos conflitos ou estampado nas manchetes dos jornais. Ontem, o vencedor foi a especulação imobiliária, agindo livremente na terceira metrópole com o maior déficit habitacional do país.

O poderio do mercado imobiliário tem a conivência do Estado. Se, por um lado, os moradores da ocupação São João viveram momentos de terror, do outro, a iniciativa privada mantém seu livre arbítrio na cidade de São Paulo. A concessão ou o uso irregular de áreas públicas por parte do poder privado já acumulam mais de 600 milhões de prejuízo anual ao cofres públicos, segundo Guilherme Boulos, liderança do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto).

A grande mídia mantém seu convênio com o Estado e o mercado imobiliário ao insistir no uso de termos como “tumulto”, “confusão”, ou “confrontos”. Sem falar na absurda ênfase dada à atos de “vandalismo” por parte da população, em contraponto à cobertura, praticamente nula, das atrocidades policiais.

A dissimulação dos grandes veículos ao apontarem à brutal repressão policial como um “confronto” é maliciosa: coloca o trabalhador sem-teto como um combatente, um inimigo da sociedade. Não se fala, contudo, do caráter assimétrico na correlação de forças entre sem-tetos e a Polícia.

A detenção de quase 100 pessoas – com uma esmagadora maioria composta por membros da ocupação – revoltou o padre Júlio Lancellotti, que foi à Delegacia da Polícia Civil e se solidarizou aos presos: “Estão oprimidos como se aqui fosse uma guerra e os prisioneiros de guerra estão presos. Isso a gente pensa que tem que ir no Iraque para ver, mas estamos vendo aqui, a Síria é aqui”.

Mais uma vez, o governo do Estado de São Paulo mostra à quem serve. A mesma gestão que autorizou o massacre na Ocupação Pinheirinho, em 2012; que é conivente e dá suporte à uma Polícia Militar que, apenas no primeiro semestre de 2014, já computou 434 mortos por suas armas, com alta de 62% em relação ao ano passado; que sabe que o déficit habitacional paulista teve alta de 18% entre 2011 e 2012; atua, novamente, em mais uma reintegração higienista e gentrificadora, colocando na linha de frente sua polícia fascista e respondendo aos interesses do capital e da especulação.

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