10 de setembro de 2014

Anda o Gigante

Ilustração: Gabriel Roemer


Por João Previ

Aquela nova forma ainda lhe era estranha: seus olhos enxergavam de longe como uma luneta, mas bastava uma piscadela para ver como lupa. Bastava sentir os suaves cheiros de pães quentes pela manhã, que sua fome já era saciada. Enormes como nunca, suas mãos e pés haviam se tornado mais sensíveis, arrepiando seus sentidos a cada vento, a cada toque.

Mas como as luzes que não temem o novo, as sensações logo perderam o aspecto aterrorizador, e o Gigante se tornou um só naquele grande corpo. A vista, os cheiros e os sentidos se acalmaram e ele começou a olhar em sua volta. Mesmo naquele luminoso ser de cinco metros, São Paulo não demonstrava perdão. E o Gigante sentiu-se só ao ver que ninguém o via. Mesmo ele, o Gigante.

Ele não se importava com o que as outras pessoas pensavam ou com a fama, mas não ser sentido era diferente. São Paulo o havia testado e sua luz diminuiu com a derrota. Telas nas mãos, fones nos ouvidos e o solitário costume de esbarrar nos outros. Assim se pareciam os paulistas como se fossem os três macacos em um só: cegos, surdos e mudos.

Esse pensamento incomodava o Gigante. Ele também era um paulista e amava aquele povo que chamava de nosso. Sua antiga maleta tinha o peso do mundo e isso o puxava para baixo, parecia transformá-lo em um homem pequeno. Mesmo depois de ter escapado da cidade, o Gigante ainda poderia voltar ao tamanho normal. Não conseguia evitar. Toda a sua geração fora criada por uma família de estranha estrutura.

Não sei por quanto tempo aquele jovem de alma desproporcional andou, mas ele finalmente chegou.

Onde? Isso pouco importa, ninguém ouve a música pelo último acorde. Mas enquanto andava, aproveitou o vento que batia em seu rosto para respirar e soltar as amarras da cidade. Quanto mais compaixão a sua volta, mais peso caía de suas costas. Resolveu também agir como os três macacos em um só, em seu original. Não via o mal, não ouvia o mal, não falava o mal.

O Gigante então voltou a crescer.

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