02 de setembro de 2014

Nasce o Gigante

Ilustração: Gabriel Roemer

Por João Previ

Nasceu um gigante na cidade Gigante. Ele podia ser um João ou um Gabriel, tanto faz. Deveria passar dos 20, mas isso também não cabia em sua mente. Não se lembrava de como chegou até o alto daquele prédio. São Paulo havia crescido tanto a sua volta que sua única saída foi elevar-se. Mas daquele gesto involuntário nascia algo.

De cima, São Paulo não parecia tão interessante. Por causa da sujeira que estava no ar, teve que limpar seus olhos castanhos ao subir. As luzes de dentro dos apartamentos eram opacas e delas não saía nada além de sorrisos forçados. Pequenas luzes também estavam em longas filas nas ruas, mas delas não saía nada além de sons ensurdecedores. De cima, conseguiu ver as pessoas. Elas não tinham braços ou pernas, mãos ou pés. Eram pequenas estrelas, pontos de luz na cidade.

Uma súbita tristeza invadiu seu peito ao perceber que luzes estavam abafadas pela necessidade de uma pequena folha de papel; As coisas, acumuladas em cima das estrelas, pareciam prender seu brilho; a preocupação apressava as estrelas e, solto pelo andar, o brilho se perdia.

Conformou-se com sua esperança: ainda que perdidas e sozinhas, havia também luzes fortes, pessoas que sorriam e faziam sorrir na cidade; pequenas estrelas que concluiu serem crianças a imaginarem ser um pássaro qualquer; até mesmo aquelas estrelas de luzes turvas e explosivas eram mais bonitas aos seus olhos. Para o Gigante, os bêbados sempre tiveram esse brilho.

Assim [re]começou a história do Gigante. Sem ser visto via tudo. Sem julgar, sentia tudo. O Gigante, um consigo, queria ser dois contigo.

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