04 de setembro de 2014

O maracatu existe porque a vida não basta

Foto: Carolina Piai

IV Encontro Estéticas das Periferias promoveu apresentação de maracatu na Zona Sul da capital

Por Carolina Piai

Ao lado da Represa Billings, no extremo Sul de São Paulo, está a Comunidade da Fumaça. Um esgoto a céu aberto passa perto desse vilarejo, que fica próximo à Estrada do Alvarenga. No último sábado (30), os moradores da Fumaça foram presenteados: receberam os batuques do maracatu. Enquanto alguns observavam, outros caíram na dança.

A atividade fez parte da quarta edição do Estéticas das Periferias e foi articulada pelo CAP (Coletivos Culturais da Cidade Ademar) em conjunto com a ONG Ação Educativa. Os grupos Batuque Abayomi, Grupo Maracagueto e Cia. Caracaxá fizeram cortejos em diferentes partes da região e se encontraram na Comunidade da Fumaça.

Durante o trajeto, o maracatu atraiu olhares curiosos. Da rua, via-se muitos rostinhos nas janelas apenas a observar. Outras pessoas foram para a porta. “Eu estava lá em casa e ouvi um som. Aí eu saí pra ver”, conta Maria Antônia Cardoso. Com a neta no colo, diz: “Ela tem 9 meses, mas já está andando. Tudo que ela pega ela já começa a batucar. O pai dela é batuqueiro. A gente já pensa que ela vai fazer parte de algum grupo por aí”.

Sob o sol do meio dia, a Comunidade da Fumaça virou festa. Só se ouvia o estrondoso batucar. João*, um dos moradores, vibrava de felicidade. “Isso é muito importante pra fortalecer a comunidade. Eu acho muito bonito”, comenta. “Todo mundo se ajunta. Quando essa união for mais pra frente, pode até isso aqui mudar. A Sabesp pode ligar a água pra gente, a Eletropaulo a energia, pode vir até asfalto”, completa, esperançoso.

A precariedade, porém, não atinge apenas aqueles moradores. “Eu, Aurélio Prates, quero, antes de morrer, poder viver de arte com dignidade. Sem ter que catar migalhas nos cantos da minha cidade”. Ele é um dos artistas que se apresentou na comunidade e luta pelo fomento cultural das quebradas.

“Faço parte da Cia. Caracaxá e do Coletivo Princesa da Zona Urbana. Os dois são do CAP, uma junção de vários fazedores artísticos de todas as áreas que surgiu em junho de 2013 com o intuito de discutir a construção de políticas públicas culturais da periferia para a periferia”, explica. “A Secretaria de Cultura não injeta valores aqui, nos bairros de Cidade Ademar e Pedreira. Vivemos mal e porcamente de arte”, conta Aurélio.

Durante a apresentação, Aurélio, com um turbante na cabeça e colares de pedra no pescoço, dançou sem parar. Sob um salto alto, guiava a Cia. Caracaxá pelos becos da Estrada do Alvarenga. “A importância de ter um cortejo aqui é mostrar que os nossos vizinhos fazem arte, é nos conhecermos enquanto vizinhos. Eu moro aqui! E hoje meus vizinhos puderam ver a beleza do Maracatu, tradição pernambucana que existe há mais de 200 anos”.

Naquele sábado ensolarado, a tradição pernambucana uniu os moradores de uma quebrada da capital financeira do país. Na hora do show todo mundo estava feliz. A arte costuma fazer isso com as pessoas. Como já diria Ferreira Gullar, “a arte existe porque a vida não basta”.

 

*Nome fictício, morador não quis ser identificado

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