25 de outubro de 2014

ESPECIAL | Eleições na quebrada: Para além das urnas, a periferia resiste


Ah, é ano de festa! Dois mil e catarse! Imóvel caro, ingresso da Copa caro, seca em São Paulo e a festa da democracia mais cara da história. A festa para uma democracia que não apagou a escravidão, nem seu passado colonial e ditatorial. Em parceria com o Periferia em Movimento, a Vaidapé lança a reportagem especial “Eleições na Quebrada: Para além das urnas, a periferia resiste”.

A realidade que procuramos trazer vem daqueles que não têm ciclofaixa, que pegam busão lotado, que não tiveram direito a heranças privilegiadas. Pelo fortalecimento de espaços abandonados, pela batalha de quem é colocado em segundo plano, apresentamos a luta de alguns que não estiveram na grande mídia, nem nas discussões eleitorais dos últimos anos.


Parte 1

Uma batalha do extremo oeste de São Paulo


Por Victor Santos
Fotos: João Miranda

Despejo de lixo, falta de opção para mobilidade, polícia que só aparece em período eleitoral e o distanciamento da comunidade com a escola estadual. A população da Cohab Raposo sofre com a falta de serviços públicos básicos, no entanto, a movimentação local já trouxe diversos benefícios para a região.

“Não é as mil maravilhas,
mas é muito mais fácil você dialogar com um governo de esquerda do que de direita. Com Serra e Kassab nunca teve diálogo”

Toninho foi um dos primeiros moradores da Cohab Raposo Tavares. Chegou ao local, em 1991, com a inauguração de 1152 apartamentos do conjunto habitacional destinados a alguns ex-moradores da favela Nova República, ação da prefeitura de Luiza Erundina (1989 – 1993), eleita pelo Partido dos Trabalhadores (PT). A comunidade sofreu com o desmoronamento de um barranco, no dia 24 de outubro de 1989, causando o soterramento de 32 dos 120 barracos da comunidade, somadas à 12 crianças e dois adultos.

Na época, o acontecimento foi ofuscado pela eleição presidencial protagonizada por Collor e Lula – a primeira desde 1961. Na inauguração dos apartamentos Erundina também entregou aos novos moradores seus termos de permissão de uso, tempos depois os habitantes da região conseguiram suas escrituras.

26092014-IMG_3188

Toninho é eternamente grato à Luiza Erundina. Trabalhou por muito tempo em restaurantes, hoje sofre com problema de coração, não consegue dar continuidade ao tratamento por falta de recursos e já não tem trabalho fixo.

Como é denunciado frequentemente pelos movimentos sociais de moradia, a construção de habitações populares é decidida “de cima para baixo” e costuma acontecer nas áreas mais distantes do centro, além de deixar de lado peculiaridades regionais e individuais. Apesar de alguns exemplos como o de Toninho, que saiu do Morumbi para o extremo oeste de São Paulo e permaneceu no local, outros moradores, ao passo que dormiam muito longe de onde viviam, acabaram passando o imóvel à frente.

Janete comprou o terreno, onde vive hoje, de um desses moradores e depois ainda comprou a escritura da casa onde vive. É formada em serviço social e também mora na Cohab. Entende a gratidão de Toninho pela ex-prefeita, também reconhece o trabalho de Erundina no comando da capital, mas já não vota nela. Não esconde sua preferência pelo PT, apoia a campanha da presidenta Dilma. Explica: “Eu sei que não é as mil maravilhas, mas é muito mais fácil você dialogar com um governo de esquerda do que de direita. Com Serra e Kassab nunca teve diálogo”.

26092014-IMG_3155
JANETE

Janete começou sua militância ainda bem jovem, quando moradora do bairro São Domingos, também na zona oeste de São Paulo. Mudou para a Cohab, em 1995, e destaca a importância do diálogo construído com movimentações da Universidade de São Paulo (USP), no final dos anos 1990. A instituição, comandada pelo governo estadual, nunca abriu um canal de comunicação, quem o fez foi a Associação de Educadores da USP e os Jovens Conscientes do Morro do Querosene. “O pessoal ajudou principalmente na questão de pensar o espaço público. A necessidade de uma escola estadual, a importância de um espaço cultural, entre outras coisas”, afirma.

Lembra de quando veio para a Cohab: “isso aqui era um lixão”. A articulação dos moradores possibilitou a organização de um mutirão de limpeza no mesmo ano, quando tiraram todo o lixo da área do parque Juliana de Carvalho Torres, que tem uma extensão de quase 55.000 m2. No dia seguinte ao mutirão, o espaço amanheceu abrigando um circo itinerante, não demorou para que os moradores chamassem a polícia, só que, quando os oficiais chegaram, a comunidade já estava entrosada com o circo e retiraram a queixa.

O parque já funciona como espaço cultural, conta com área verde, paredes grafitadas, um half-pipe em “U” e algumas mesas de xadrez. Nada é muito preservado, mas já é uma área de respiro, onde antes funcionava um depósito de lixo.

Durante 5 anos, aconteciam diferentes atividades no circo, incluindo espetáculos e aulas, um momento de forte movimentação cultural. Com a troca de cargos na prefeitura, o fim do mandato da então prefeita Marta Suplicy (PT) (2001 – 2005), sucedida por José Serra (PSDB), que ficou até 2006, o canal de diálogo foi fechado, a associação de moradores se desmobilizou e o espaço está abandonado hoje em dia. Janete também faz a crítica ao governo de Marta, que prometeu regularizar o espaço cultural durante a campanha – o que não se concretizou.

26092014-IMG_3190

A Cohab fica localizada no Distrito Raposo, o mais à oeste de São Paulo. Uma pesquisa realizada pelo IBGE, em 2011, revela que vivem mais de 100 mil pessoas no bairro. Os moradores não se queixam da falta de água, apesar de entenderem a atual situação de escassez da capital e a necessidade de poupá-la.

A rua é movimentada – dia e noite – os carros dividem espaço com muitas crianças brincando, além de alguns caminhões que usam a Cohab como suposto atalho para chegar à Raposo. Janete ainda lembra da época de Copa do Mundo: “aqui essa história de contra a copa não pegou. Na época, tava tudo pintado, festa, gente na rua”.

Tudo bem discordar, mas parece que muita gente vem fazer o papel do Estado, falando: ‘Ah, mas não pode ter faixa de ônibus em rodovia estadual’ e coisas do tipo”

Barba, antigo morador da região, é dono de uma das primeiras vendinhas da Cohab. Diz que a situação melhorou desde o tempo que chegou, em meados dos anos 1990, é casado e tem três filhos. Se queixa da ausência de um canal para dialogar e discutir sobre os problemas do bairro, elogia a época em que a associação era mais presente, havia organização e, realmente, mudanças aconteceram.

A entrada da Cohab fica no quilômetro 19,5 da rodovia estadual Raposo Tavares – não há trem, metrô e os caminhos alternativos demoram ainda mais. Os moradores são reféns do bom e velho “busão”, que, independente de sua qualidade, enfrenta uma rodovia que atende cerca de um milhão de pessoas por dia, com três faixas – nenhuma exclusiva para os ônibus nem para bicicletas.

26092014-IMG_3158

Janete participa de uma articulação comunitária que pede a implantação de uma faixa de ônibus na Raposo Tavares, uma demanda estadual. “Fizemos uma manifestação [5 de novembro] para parar a Raposo, infelizmente ela já estava parada quando chegamos lá, para todos os dias [por causa do trânsito]”, continua: “Na nossa página do facebook tem muita gente que vem reclamar, xingar, mas não entende o que estamos pedindo.

A Escola Estadual Odair Martiniano da Silva, na Cohab, carrega o nome de um dos primeiros moradores da região, apelidado de Mandela – em referência ao ex-guerrilheiro e presidente sul-africano falecido em 2013 – por sua trajetória de luta dentro da comunidade. A escolha de um ícone para os moradores não foi ideia do governo – foi uma luta dos moradores. “Aqui a gente nunca teve nada de graça, tudo a gente teve que lutar pra conseguir”, diz Janete. Conversando com algumas crianças, apenas um menino, de mais ou menos 8 anos, se pareceu interessado no colégio que homenageia Mandela. A justificativa? A boa e velha zoeira.

Lá pelo final da década de 1990, começo dos anos 2000, a comunidade contava apenas com a Escola Municipal Maria Alice, até hoje lecionando turmas até a quinta série, uma creche e uma Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI). Essa época era de forte movimentação comunitária, não a toa no mesmo período também foram construídas algumas ETECs (Escola Técnica Estadual) na região – uma na própria Cohab Raposo. Atualmente, há mais uma creche na região, totalizando duas.

26092014-IMG_3184 26092014-IMG_3168

A escola é estigmatizada pelos moradores, tem fama de bagunça. Barba nos conta que nenhum de seus 3 filhos estuda na escola estadual e nenhum deseja isso. Reclama do ambiente no entorno do colégio, além do lixão concentrado ao lado da entrada, fala do consumo de drogas nos arredores e muitos alunos pulando o muro. “Podia ter aquelas rondas, porque se tiver lá o moleque vai fumar em outro lugar, ali perto da escola não é lugar pra isso”, comenta. Janete não nega os problemas, mas discorda da ronda. Diz que não chama a polícia para a molecada – nem em casos extremos – e continua: “Polícia aqui só em época de eleição. As vezes o pessoal até chama a polícia mas eles não vêm”.

A diretora, Cidinha, assumiu o colégio há 5 anos. Trabalha há 30 na educação pública, se mostrou disposta para batalhar pela escola e lamenta a falta de interação com a comunidade. Passamos lá pouco antes do meio dia, as crianças assistiam a uma peça que abordava o tema da violência e Cidinha nos pediu para voltar mais tarde, ela ia checar se seria possível fazer imagens do interior do colégio, e nossa entrada, naquele momento, poderia ser prejudicial à atividade.

26092014-IMG_3187

Voltamos mais tarde, não conseguimos autorização para fazer imagens do interior da escola – afinal, o momento é de eleição. Ela reclamou do distanciamento entre a escola e a comunidade, há três décadas na educação, vê melhoras nos últimos 4 ou 5 anos. O colégio Odair Martiniano atende cerca de 800 a 900 alunos, muitos vindos dos arredores da Cohab. Nos últimos tempos a escola tem tido melhoras, como a instalação de uma sala de cinema, uma cobertura para a quadra esportiva e forros de plástico no teto e no chão. A escola é constantemente invadida e suas instalações danificadas. “Aí quando entra verba, muitas vezes não podemos trazer melhorias porque tem que consertar algumas coisas”. Cidinha acredita que a comunidade deveria se sentir parte atuante da escola.

Diferentemente de outros bairros mais nobres da capital paulista, os moradores da Cohab Raposo correm o risco de o IBGE passar lá e nunca mais voltar*. Ciclofaixa e estação de metrô ainda estão no imaginário da população local. As ondas eletromagnéticas da rádio comunitária do Butantã, a Cidadã FM, também não chegam, castradas pela legislação que impede o livre funcionamento de um instrumento que fortalece essa população. O lixo ainda é despejado ao lado da entrada da escola estadual. A educação, a cultura e a saúde capengam, mas ainda dá pra construir, com humildade, um bom lugar.


Parte 2

No extremo sul, Marsilac


Por Paulo Motoryn
Fotos: marsilac.com

As belezas naturais de Marsilac, na zona sul, poderiam criar um oásis de tranquilidade na cidade mais populosa do hemisfério sul, mas as contradições sociais não permitem. O descaso do poder público faz o distrito ter o pior IDH de São Paulo e, dessa forma, ser um caldeirão de luta e resistência.

Marsilac

Marsilac é o distrito mais ao sul da cidade São Paulo. Para se ter noção, a região é mais próxima ao litoral do estado do que do centro da cidade. Colado na Serra do Mar, o distrito faz divisa com São Vicente, a primeira cidade fundada por portugueses no Brasil. Mesmo estando na rota da invasão portuguesa às terras indígenas, a vegetação de lá segue quase intacta e boa parte dos bairros do distrito são totalmente rurais.

Dos 96 distritos da cidade de São Paulo, Marsilac é o último colocado no ranking que mede o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – número leva em conta, por exemplo, educação e esperança de vida.

Enquanto no centro de São Paulo militantes petistas e tucanos entram em confronto, em Marsilac o clima pré-eleitoral é nulo, quase inexistente: “Em relação à eleição, aqui, o pessoal é bem desanimado. Muita gente gosta de dizer que nem vai votar. E nem vota mesmo”, afirma Renata, moradora de um dos bairros do distrito. Ela denuncia: “Teve um candidato que alugou vários ônibus escolares para o pessoal ir lá votar, prometendo mundos e fundos”.

O descaso da cidade de São Paulo com Marsilac é tão grande quanto a distância que cada um dos moradores percorre todos os dias para chegar ao ponto de ônibus mais próximo: de oito a 18 quilômetros. A reivindicação por uma linha de ônibus é uma das grandes bandeiras da população. Segundo os moradores a luta já dura mais de 20 anos.

“Muita gente gosta de dizer que nem vai votar. E nem vota mesmo”

A última vez em que o restante da cidade lembrou-se da existência de Marsilac, seu calcanhar de Aquiles, foi justamente em função da reinvenção da estratégia de luta dos moradores dali: no dia 28 de abril de 2014, três pessoas tiveram que se acorrentar no portão do prédio da Prefeitura de São Paulo. Só então foram recebidos e chamados para conversar.

“Fizemos todos os caminhos burocráticos possíveis e ainda assim não conseguimos resolver o nosso problema: temos de andar um monte a pé para chegar em qualquer serviço público. Por isso que estamos fazendo os protestos”, disse Fernanda, outra moradora da região, em entrevista à Vaidapé em abril deste ano. Poucas semanas antes, os mesmos moradores viabilizaram por um dia, de forma autônoma, uma linha gratuita, feita por um ônibus alugado pelos próprios. A ideia era chamar a atenção do Estado para a viabilidade do transporte coletivo no bairro.

A sequência de ações diretas teve sucesso. A mobilização chamou atenção de parte da mídia e constrangeu o poder público. Pelo menos de início. No dia em que manifestantes se acorrentaram, o secretario adjunto de Relações Governamentais, José Pivatto; o secretario adjunto dos Transportes, José Evaldo; e a diretora de Planejamento da SPTrans, Ana Odila, receberam uma comissão do distrito para uma reunião.

Na conversa, ficou acertado que os moradores seriam contemplados em 20 dias, após a autorização da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, com a criação de duas linhas de ônibus com perfil rural – o que pressupunha, inclusive, a gratuidade da passagem. No entanto, o prazo não foi cumprido.

Marsilac

“Eles deram 20 dias para implantar a linha de ônibus e nada. Aí continuamos cobrando com muita insistência e nada. Nada, nada, nada. Até o momento que eles deram uma resposta. Disseram que a linha tinha sido embargadas porque a Secretaria do Verde não deu autorização”, lamenta Renata. Mas ela não se cansa de lutar.

“A gente continua se organizando. Faz muitas reuniões, mas quando vamos lá, a Prefeitura diz que não é com eles. Aí a Secretaria do Verde diz que não é com eles. O maior problema é que com esse transporte a gente tem muitos outros problemas. O maior deles é o desemprego porque não tem condição de trabalhar no centro e demorar três, quatro horas, só para voltar para casa”, diz.

Renata logo se lembra da tarde anterior, com sua voz fina e firme, doce e indignada: “Ontem, por exemplo, eu voltei para casa junto com uma idosa de 74 anos daqui do bairro. Eu vim tranquila, saí às quatro da tarde e cheguei umas sete da noite. Imagina ela que tinha que andar mais uns sete quilômetros. Deve ter chegado em casa às nove horas da noite”.

Se na questão do transporte a ausência do poder público tem consequências graves, a falta de um sistema de abastecimento de água, agora, coloca os moradores de Marsilac como “privilegiados” em função da crise de gestão hídrica do estado de São Paulo: “Pelo menos aqui não falta água, como tá acontecendo há muito tempo por aí. É que na verdade, a gente tem os nossos poços. A água da cidade não chega aqui. Não tem sistema de água”, ela diz.

Sobre o domingo em que Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) disputam a presidência da República, ela diz que seus vizinhos não têm muitas dúvidas: “Aqui na região é muita gente que recebe renda mínima, os programas do governo. E mesmo assim a gente já tem esse tanto de sofrimento. Para presidente, a gente sabe que com o PT estamos andando pra frente, o problema é que a gente não quer andar pra trás e viver todos os problemas do passado de novo”.


Parte 3

“No seu bairro está faltando alguma coisa? Porque aqui na periferia quase não tem hospital…”


Por Patricia Iglecio
Fotos: Patricia Iglecio

IMG_1822

Clodoaldo Avelino da Silva tem 37 anos, nasceu em São Paulo e vive no Itaim Paulista, na zona leste da região metropolitana, desde os oito anos de idade. Atualmente, mora em uma pequena casa com sua esposa, Osana Luiz da Silva e os dois filhos; Carolina e Ítalo, de oito e 11 anos.

Há dez anos, Clodoaldo está aposentado por invalidez, perdeu quatro dedos da mão direita – só restou o polegar. Ele não gosta muito de mostrar nem de falar sobre mão machucada, procura deixá-la dentro do bolso, de lado, de canto. Trabalhou a vida inteira como confeiteiro em uma padaria, próxima à casa dele, fazia bolos, pães e salgados. Em 2004, Clodoaldo trabalhava na confecção de pães, sozinho, durante uma madruga, ao manusear a máquina cortou a sua mão. No momento do acidente, ele conta que chamou a ambulância e depois disso não se lembra de muitas coisas, pois começou a ficar zonzo com o sangue.

Infelizmente Clodoaldo guardou na memória que, quando o socorro chegou e ele foi colocado no carro, os enfermeiros se comunicavam com os postos de saúde e definiam para onde ele seria encaminhado. Foi sugerido que eles fossem de helicóptero para o Hospital das Clínicas, no entanto, o enfermeiro que estava realizando o procedimento, afirmou que não teria onde aterrissar o helicóptero naquele bairro, e, que uma vaga no posto de saúde Santa Marcelina, do governo do estado de São Paulo, já estava disponível.

Neste momento, Clodoaldo ainda resistia a dor e hesitou em ir para o posto de saúde próximo a sua casa, insistiu para os atendentes que havia um campo, ali perto, em que o helicóptero poderia socorrê-lo. Depois disso, já não lembra o que aconteceu.

Durante o tempo que ficou internado, pegou uma infecção hospitalar devido à precariedade da unidade de saúde, o que infeccionou as partes da mão acidentada que estavam se recuperando da cirurgia

Com muita dificuldade, o homem grande, alto e negro, conta para mim do quanto sofreu vendo seus dedos, pouco a pouco, serem arrancados de seu corpo. Cortaram também, metade de sua mão.

Tempos depois, quando começou a fazer fisioterapia, pois perdeu parte da musculatura da mão, Clodoaldo teve acompanhamento com um médico do Hospital das Clínicas, que lamentou o acidente e disse à ele que, se ele tivesse feito a cirurgia no HC, não teria perdido parte tão grande da mão.

Quando Clodoaldo terminou de me contar a história, perguntei o que ele sentiu quando soube disso. Com o olhar profundo, ele respondeu: “Eu fiquei triste, senti raiva, porque nós somos seres humanos e é impossível não sentir, mas o que eu ia fazer?”.

IMG_1819

Ele solicitou ao mesmo médico um atestado para conseguir um bilhete único para deficientes. “Daí o médico respondeu: ‘Pô, mais só perdeu os dedos da mão e não quer pagar passagem? Tem que perder o braço inteiro’. Na hora, eu achei que ele estava certo, dei as costas e fui embora. Depois eu me informei, e vi que eu tinha direito mesmo”, relata.

Clodoaldo explicou, também, que a falta de um atendimento psicológico para superar o trauma, dificultou o processo de aceitação.

Atualmente, sua filha Carol está enfrentando um problema de saúde que aflige toda a família. Ela sente, todos os dias, dores de cabeça muito fortes, desde janeiro. Um dos maiores problemas da saúde pública no Brasil é a demora para conseguir uma consulta com um médico específico, no caso dela, um neurologista.

Carol já passou no pronto atendimento de todos os hospitais próximos de onde eles vivem. São eles o Santa Marcelina, que fica há 20 minutos da casa deles; a Unida Básica de Saúde (UBS) Jardim Campos; e a Assistência Médica Ambulatorial (AMA) Jardim Campos. As duas últimas são da prefeitura.

Clodoaldo diz que a filha foi diagnosticada com diferentes coisas. “Primeiro, o médico do AMA diagnosticou ela com meningite, deu um baita susto em nós. Depois, fomos em outro, ele falou que era enxaqueca, e aí foi em outro, falou que era sinusite. No último, ele falou que não era nada disso, que ela deveria ir em um neuro”, conta. O último profissional que atendeu a criança, medicou-a com Dipirona. Ela toma uma dose todos os dias para aliviar a dor.

IMG_1832

Agora, Clodoaldo diz que não há mais alternativas para curar a filha e, depois de quase um ano esperando por um neurologista, a família decidiu buscar um hospital privado. “Somando o valor da consulta, mais a ressonância, vamos gastar quase R$ 1000 reais. Ganhando um salário de R$ 1000 reais, como eu posso gastar tudo isso em uma só consulta?”, diz.

Clodoaldo denuncia a situação de calamidade em que se encontra a saúde pública na região em que vive. Aponta também que em um bairro tão grande, onde vivem quase 100 mil pessoas, ninguém é formado em medicina. “No seu bairro falta alguma coisa? Porque aqui na periferia quase não tem hospital, nem escola, nem faculdade, e todo mundo vai trabalhar no centro.”

A RUA GRITA

Esses marginais

O ar humano, demasiado humano, de Charles Bukowski está presente na obra de autores como … Continuar lendo Esses marginais

A RUA GRITA

O projeto de destruição da vida pública

O Estado é vândalo. Corram. (Anderson França) Por: Ines Bushatsky e João Mostazo* Ilustração: Pedro … Continuar lendo O projeto de destruição da vida pública