17 de outubro de 2014

Eles têm um sonho…

Imagem que virou símbolo do fim de semana de manifestações em Ferguson (Foto: Koran Addo/Twitter)


Final de semana de manifestações contra a violência policial dirigida à negros e pobres apresenta a nova face da luta por direitos civis nos Estados Unidos

Por Thiago Gabriel, de Nova Iorque

Em 1968, Martin Luther King Jr., um pastor da igreja batista e liderança do movimento pelos direitos civis dos negros no país, foi morto, alvejado por tiros na sacada de seu hotel, na cidade de Memphis, Tenesse. Sua morte era algo simbólico naquele momento. Representava o poder dominante branco na busca pela manutenção de sua hegemonia em uma sociedade de direitos. Depois da superação da escravidão, parecia impensável para o homem branco que os negros passassem a usufruir dos mesmos direitos que possuíam. Martin Luther King foi morto por sonhar que isso poderia acontecer. E lutar por isso.

Apesar da condenação de James Earl Ray – homem branco do Tenesse – pelo assassinato, muitas pessoas ligadas à King acreditam que ele era apenas parte de uma conspiração maior, que visava calar o ativista negro. Fato ou não, o que é facilmente constatável é que Martin Luther King representava uma ameaça as classes dominantes da época. E, através de seu ativismo não-violento e defesa da compreensão, a rebeldia e desobediência que o ativista inspirava assustava, e muito, as estruturas sociais.

Na época, os EUA possuíam uma sociedade abertamente desigual frente aos direitos de brancos e negros. Proibidos de votar, frequentar os mesmos locais que os brancos e estigmatizados pela teoria “separados, mas iguais”. O cidadão negro norte-americano vivia em situação de constante inferioridade e submissão aos brancos na convivência social. Profissionalmente, trabalhavam quase sempre para os brancos, além de serem impossibilitados de frequentar os mesmos ônibus, sentar nas mesmas mesas e, muitas vezes, usar o mesmo banheiro.

Essa herança, dos tempos de escravidão, passou a ser combatida com força na década de 1950, quando movimentos organizados, normalmente através das igrejas – locais onde os negros possuíam maior autonomia -, passaram a executar atos de desobediência civil. Estes consistiam em desrespeitar as determinações ordenadas por uma força opressora, combatendo as situação de injustiça. O boicote aos ônibus de Montgomery, liderado por Rosa Parks, culminou na proibição da segregação entre negros e brancos no transporte público; marcando o início do que ficaria conhecido como Movimento dos Direitos Civis.

Durante a década de 1960, lideranças como King e Malcolm X passaram a se tornar nacionalmente conhecidos. E seus discursos e manifestações começaram a inspirar negros ao redor do país na luta por direitos, mesmo diante das repressões sofridas pelo poder dominante. Em 1963, a Marcha sobre Washington, que reuniu mais de 250.000 pessoas em protesto, ficou marcada pelo discurso de Martin Luther King, eternizado na frase “Eu tenho um sonho”, (em inglês, “I have a dream”), onde o ativista enfatiza seu sonho por um país igual.

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Martin Luther King discursando na Marcha sobre Washington em 1963 (Foto: reprodução)

A militância pelos direitos civis, porém, não era feita em uma só frente de ação. Malcolm X, por exemplo, compartilhava uma visão diferente de luta de King. Acreditava que apenas um levante violento, que retirasse os brancos de sua posição de poder, poderia levar à uma situação de igualdade real entre todos. Defendia a violência como instrumento de transformação indispensável e possuía idéias socialistas quanto à expropriação da classe dominante pelos dominados; além de pontuar as diferenças enfrentadas pelas lutas dos negros da cidade e dos campo. Para ele, a Marcha sobre Wasinhgton representou um movimento “sob rígido controle”, em que a espontaneidade das massas negras havia sido cooptada pelo esquema de ação preparado pelo governo, aterrorizado com as proporções que o evento poderia tomar.

Mesmo com as divergências sobre o modo de ação, o Movimento dos Direitos Civis conseguiu unir um conjunto de pessoas oprimidas para a transformação radical da situação vigente, desobedecendo e contrariando as ordens estabelecidas. Foi graças a essa coragem e insubmissão que o movimento tornou-se bem-sucedido e diminuiu exponencialmente as desigualdades sociais entre negros e brancos nos Estados Unidos.

A superação deste abismo, no entanto, ainda não foi atingida. As recorrentes notícias de violência contra negros, assim como os levantamentos estatísticos, evidenciam, tanto o racismo presente nas atitudes cotidianas, quanto em sua forma institucionalizada. Essa última reflete-se na dificuldade para acessar direitos, que, na teoria são garantidos, ou na diferença de abordagem pelas forças de poder e controle sociais – como a polícia e o sistema judicial.

A população de Ferguson conhece de perto essas desigualdades. Na pequena cidade do condado de St. Louis, Missouri, 92% das prisões efetuadas pela polícia envolvem negros. Em um contraste interessante, mesmo representando 8% das abordagens policiais, brancos possuem os maiores índices de contrabando (porte de drogas ou armas). Além disso, 50 dos 53 oficiais do departamento são brancos. O prefeito e o chefe de polícia também são brancos. Isso em uma cidade em que 64% da população é composta por negros.

Foi lá que o jovem negro Michael Brown foi assassinado de maneira brutal e autoritária pelo oficial Darren Wilson há dois meses atrás. A poucos quilômetros dali, também no condado de St. Louis, Kajieme Powell, outro jovem negro, foi alvejado por ao menos 9 tiros vindos de armas policiais – isso em um intervalo de 10 dias. E, na mesma St. Louis, a polícia matou nessa quarta-feira (8) mais um jovem negro: Vonderrit Myers Jr., assassinado com 17 tiros por um policial.

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Vonderrit Myers Jr., jovem assassinado pela polícia de St. Louis (foto: reprodução)

Testemunhas afirmam que Myers, de 18 anos, carregava um sanduíche quando, após uma perseguição, recebeu os tiros do oficial. O policial estava fora de serviço, exercendo um trabalho para uma empresa de segurança privada. O departamento de polícia apresenta um relato diferente: afirma que, após a perseguição, Myers teria se voltado ao oficial e disparado contra ele. Assim, o oficial teria atirado apenas após a ação do jovem.

O assassinato reacendeu os olhos da mídia para uma revolta que não havia deixado as ruas desde a morte de Michael Brown, em agosto. As manifestações seguiram acontecendo das mais diversas formas, inclusive com uma intervenção à apresentação da ópera de St. Louis. Após mais uma morte injustificada, com o departamento policial saindo impune, os protestos de rua voltaram a ocorrer, inclusive com alguns atos de violência. O que provocou o interesse da grande mídia americana.

Nos últimos dias (10 à 13 de outubro), pessoas de todo o país voltaram as ruas de St. Louis em uma série de manifestações. O evento vêm sendo organizado há semanas por diversos movimentos sociais e de luta da população negra, e ficou conhecido como “Ferguson October”. Discursos, apresentações musicais e um treinamento para ações de desobediência civil fizeram parte das atividades, que reuniu milhares de manifestantes.

Além de pedir justiça no caso Michael Brown, com a prisão do oficial Darren Wilson, os protestos denunciavam a violência policial que atinge todo o país, e é comumente direcionada à negros, pobres e outras minorias.

Na marcha de sábado (11), mais de 3000 pessoas ocuparam o centro de St. Louis durante o dia. Pela noite, marcharam em direção ao departamento policial de Ferguson, onde os protestos se iniciaram após a morte de Brown. A polícia prendeu 17 manifestantes, próximos ao local do assassinato de Vonderrit Myers.

No domingo, o grupo organizou um treinamento coletivo de ações não-violentas de desobediência civil, e shows que contaram com a presença dos rappers Teff Poe e Talib Kweli.

Na segunda-feira (13), mais de 50 pessoas foram presas. Ao se aproximarem do departamento de polícia, os oficiais formavam um cerco para proteger o local. Diante da tentativa de alguns que buscavam ultrapassar o cordão policial e seguir a marcha, a polícia passou a efetuar prisões e disparar gás de pimenta nos manifestantes. As causas apontadas para as prisões foram “perturbação da paz” e “bloqueio do tráfego”.

Durante os últimos dois meses, e nestes três dias que também ficaram conhecidos como “Weekend of Resistence” (Final de Semana da Resistência), a população negra, historicamente oprimida, praticou a luta direta por seus direitos. Através disso, demonstrou para o país que o racismo e a desigualdade ainda não foram superados nos Estados Unidos, apesar da luta de pessoas como Martin Luther King e Malcolm X. Em Ferguson, a comunidade deu uma lição prática de resistência e direitos civis e deixou claro nas ruas: “Sem justiça, sem paz!”.

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