30 de outubro de 2014

Kobra e a Street Art no Brooklyn: sobre muralismo, graffiti e pichação

Kobra pinta muro em Williamsburg, bairro berço da cultura street art no Brooklyn (NY) e fala sobre graffiti, muralismo e pichação

 Por Thiago Gabriel / Fotos: Thiago Gabriel

Uma caminhada pelo bairro de Williamsburg, no Brooklyn (NY), permite acessar a dimensão que a street art possui no local. Paredes e muros estão coloridos por todas as ruas da região com bombs, pixos, graffitis e murais. O bairro é conhecido como “a maior concentração de artistas em uma comunidade em todos os Estados Unidos”, nas palavras do lendário graffiteiro Alan Ket, que ajudou a propagar a street art a partir dos anos 80.

STREET ART

O surgimento da arte de rua em Nova York confunde-se com o surgimento da cultura hip-hop, junto ao rap e a dança break. As primeiras manifestações surgiram, principalmente, com mensagens políticas e é na Philadelphia, no fim dos anos 60, que a arte de rua como é conhecida encontra suas origens. Logo após o surgimento, a cultura invade a cidade de Nova Iorque, onde se amplifica e encontra as raízes do movimento junto as outras formas de expressão do hip-hop, protagonizadas especialmente por jovens negros de regiões mais periféricas e pobres.

No início da década de 1970, diversos jovens passaram a pintar trens das linhas de metrô da cidade. O movimento começou a ganhar força principalmente no bairro de Washington Heights, ao norte de Manhattan, e na região do Bronx. As tags usadas no início costumavam apresentar o nome do artista e a rua em que morava, como no caso de Taki 183 e Tracy 168. 

A cultura espalhava-se e ganhava adeptos para além do Bronx. Artistas passam a surgir no Brooklyn e outras regiões de Manhattan, especialmente ao leste da ilha. As tags foram recebendo a companhia dos bombs, onde os nomes aparecem com uma estética diferente, mais colorida e trabalhada. A popularidade da prática preocupava as autoridades, que passaram a dificultar o acesso dos “writers” (escritores), aos trens e a penalizar e criminalizar a prática do graffiti.

Com as dificuldades impostas, já nos anos 80, o movimento passou a tomar as ruas e paredes da cidade; os “writers”, se organizaram em grupos, normalmente representando a região onde moravam, para dificultar a ação da polícia quando iam grafitar. As leis foram ficando mais severas, mas o movimento resistia e se expandia. Nessa época, diversos artistas já participavam da cultura da arte de rua, dos mais variados grupos sociais. Alguns ganhavam notoriedade, e galerias de arte começavam a abrir as portas para o graffiti.

Assim como os outros elementos da cultura hip hop, o graffiti, apesar de marginalizado pelas autoridades e mídia, foi se fortalecendo como movimento de resistência e expressão. Brooklyn, nesse contexto, se tornou um importante centro de propagação da prática. E, à medida que a arte de rua foi tornando-se mais aceita aos olhos da população (e sua repressão contestada), diversos artistas mudaram-se para a região para desenvolver seu trabalho de forma mais aceita. Williamsburg se tornou um dos bairros de referência da prática.

KOBRA

A notoriedade de Williamsburg aos olhos da cultura de arte de rua faz com que o bairro represente um local histórico e significativo tanto para artistas locais, como do mundo todo. Entre eles, Eduardo Kobra, o muralista que ficou conhecido em toda São Paulo e no mundo por suas obras, que resgatam imagens e personalidades históricas com uma mistura de cores igualmente inconfundível e bela.

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Kobra já possuía um mural em Nova York, na famosa região do High Line, o parque suspenso no lado oeste de Manhattan. A arte reproduz um dos beijos mais famosos da história, entre um marinheiro e uma mulher, após o anúncio do fim da Segunda Guerra Mundial.

Depois de pintar obras pela Europa, em países como Itália, Suécia e Polônia, Kobra desembarcou nos EUA em busca de um muro para colorir, de forma voluntária, a lendária imagem de Andy Warhol e Jean-Michel Basquiat (ícone da street art) usando luvas de boxe. O lugar encontrado não poderia ser melhor do que Williamsburg.

Ele explica que a obra que está realizando é um mural, feito com autorização do proprietário do estabelecimento onde se situa a parede. Sobre a diferença entre mural e graffiti, ele diz: “A diferença é muito simples, autorizado ou não autorizado”, e conta: “Eu já pixei, tenho muito orgulho de ter pixado, fiz grande parte da minha carreira graffiti de forma ilegal, até hoje ainda faço alguns trampos de forma ilegal, mas o meu trabalho hoje é mural”.

IMG_2857Sobre a maior aceitação da arte de rua atualmente, Kobra conta que “a street art tem essa vantagem de estar na rua, ela é uma arte pública e está ao acesso de todas as pessoas”, ressaltando “obviamente, ela surgiu na periferia e artistas como o próprio Jean-Michel Basquiat eram autodidatas”. O artista explica que a entrada da street arte em lugares que não entrava, é um reflexo das ruas, que mostraram que não só um artista com diploma ou formado é um artista de verdade, “também os artistas nascidos numa favela, no Capão Redondo ou no Morro do Alemão são artistas de verdade”.

A imagem representada por Kobra nas ruas do Brooklyn ficou conhecida como um manifesto pela arte, onde os artistas com luvas de boxe representam a luta pela sua expressão. Quem anda por São Paulo, e conhece suas obras em outros lugares do mundo, percebe que constantemente são retratadas cenas históricas e figuras icônicas, como o painel dos Racionais Mc’s no Capão Redondo ou a reprodução do beijo no High Line.

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Com relação a estes resgates históricos em seus trabalhos, Kobra explica que muitas das imagens que fez em São Paulo, remontam a cidade na década de 1920 e 1930 em preto e branco e surgiram como uma forma de protesto. “Eu passei a revisitar e fazer releituras dessas imagens, criando portais pra uma cidade que não existe mais”, diz. “Era uma forma de protesto contra a não preservação do patrimônio histórico da cidade.”

O intenso uso das cores é explicado como uma opção estética: “No mesmo momento que eu pego essas imagens empoeiradas, guardadas, em preto e branco, e trago elas pras ruas, eu passei a colorir essas imagens”…“Por isso que hoje temos aqui o resultado de um desses trabalhos, que é uma imagem antiga, histórica, icônica do Andy Warhol com Basquiat, e ela tá aí nessa releitura com cores”, explica mostrando o mais novo trabalho.

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