16 de outubro de 2014

título: no metrô

Por: Matheus Bagaiolo Raphaelli

eu tava num banquete sem comida
cerveja a dois reais
cachaça um real a dose
amanheceu e tive sorte
pois salivava trocados com uma moça
de uma áurea límpida
falando
que existem coisas nas fibras e nas carnes
de péssima qualidade

ela disse
ei, vou embora
e eu disse
me dá seu sorriso
e ela deu um sorriso

ela foi embora
eu comentei para a moça não sumir
com aquelas belas formas amarradas coladas costuradas nas costas
e peguei uma garrafa de cachaça que restou
pois eu sou um merda dum clichê
e fui embora

o tempo passou
estava indo para casa de um amigo
e eu fiquei empoeirado pelo resto das paredes velhas e brancas
olhando coisas acontecendo pelo vidro do ônibus
refletindo espasmos distantes
daquela língua recheada
sem mais seu sorriso,
meu anjo

na casa do meu amigo
ouvimos um pouco de blues e músicas regionais
e bebemos umas cervejas
e ficamos travados
pois na esquina da casa
existe um mercado
de verdade

todos foram dormir
já era quase manhã
do outro dia,
como diria o calendário

me deitei na rede e achei um bom poema
de um pastor
e seus rebanhos de nomes invisíveis
ele dizia assim
(…) mas andava na cidade como quem anda no campo
e triste como esmagar flores em livros
e pôr plantas em jarros.

estava amanhecendo
liguei Eine Kleine Nachtmusik e tentei dormir e nada
talvez eu esteja fazendo errado
não havia como eu estar com sono
naquele momento
eu ainda tava no mercado negro

levantei e fui para o metrô
e no metrô
andei ao lado de coisas interessantes
interessantes
pois não encontrei nenhuma palavra menos vazia

esperei a porta do negócio abrir e me arrumei num canto
do outro lado do vagão
um homem caminhava com calma
entre os passageiros solitários
movia seu tronco seus braços suas coxas seus joelhos suas panturrilhas seus tornozelos e seus pés com
calma
muita calma

eu bebia cachaça de cinco reais
no fundo do metrô
que tem um vidro
donde surge os trilhos e paredes
e os trilhos e paredes e luzes de segurança comentam
sobre os chãos vivos embaixo dos chãos
que agora devem estar passeando pelo repetitivo parto
da manhã

o homem caminhando calmo demais chegou próximo do fundo do metrô
ele andava calmo demais para um futuro ato normal
chegou no fundo do metrô
e sem pronunciar palavras
ou respostas mentirosas
pediu licença para um sujeito apoiado no que parecia ser um
compartimento

tirou um brilhante molho de chaves e
vagarosamente
destrancava o troço

eram quatro fechaduras
na primeira razoei que estávamos observando uma bomba
os jornais andam comentando sobre elas

bom, talvez seja

ele estava calmo o suficiente para andar por aí com uma bomba gorda

ainda tínhamos três fechaduras
e ninguém parecia se movimentar
as três fechaduras acabaram
e era apenas o controle do trem
bom, ele estava calmo demais
e as pessoas no metrô
ali sentadas
e em pé
parecendo todas
calmas demais
com os olhos abertos demais
e ninguém ali parecia disposto a mover os tornozelos e seus tendões ridículos
eu ali ainda era um passageiro
calmo demais
com minha cachaça podre nas mãos
virado de noites e dias de poeira
com a calça da quinta suja no sábado
com resquícios da moça que encontrei dançando de meia
com aquela língua recheada
e com aquele corpo ainda escondido
e as estações estavam sempre mais cheias
e tive que ser idiota o suficiente
para não entender
essa corrida de péssimo gosto

Ilustração :  Gabriel Roemer

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