25 de novembro de 2014

Policial que matou jovem negro no Missouri está livre de acusações. Protestos explodem nos EUA

Após o anúncio da decisão do júri, Ferguson e outras cidades do país tiveram manifestações

Por Thiago Gabriel, de Nova Iorque

Na noite desta segunda-feira (24/11) o anúncio que já era esperado foi transmitido aos norte-americanos. A justiça, através de júri popular, decidiu por não indiciar o policial Darren Wilson por qualquer crime no caso em que o oficial assassinou o jovem negro Michael Brown, de 18 anos. A população da cidade, de maioria negra, denuncia que a polícia age muitas vezes de maneira racista na comunidade, e que os abusos policiais são constantes, especialmente contra pobres e negros.

A Guarda Nacional já havia sido convocada pelo governador do estado do Missouri desde o início da semana para conter os possíveis protestos. O controverso processo judicial que se arrastou por 3 meses já era considerado no mínimo discutível por sua demora e pela composição do júri, com 9 brancos e 3 negros (lembrando que o tribunal decidia apenas a possibilidade de indiciamento por qualquer crime, e não condenava o oficial, propiciando o início de um julgamento). Esses fatores, aliados a lembrança recente de impunidade em casos como o de Rodney King e Trayvon Martin, igualmente negros, que foram respectivamente espancado e mortos por agentes da lei, já apontavam para a provável decisão do júri.

O policial Darren Wilson assassinou Michael Brown no dia 9 de agosto deste ano após atirar ao menos 12 vezes no jovem, que estava desarmado. O relato de diversas testemunhas após o caso apontavam para o fato de Brown estar rendido com as mãos na cabeça quando recebeu os tiros. Outras versões do fato também foram apresentadas ao júri. Segundo o procurador Robert McCulloch, as evidências físicas foram determinantes para a decisão, enquanto os relatos variavam durante o tempo e os interesses apresentados.

Muitos manifestantes e alguns especialistas discutem se a decisão por indiciar ou não o policial deveria ter demorado tanto tempo, e se não seria desnecessária a apresentação de tantas evidências. A desconfiança deve-se ao fato de que o indiciamento ainda levaria Wilson a julgamento, para que então as evidências e relatos comprovassem ou não sua culpa. Decisões de indiciamento como estas não costumam levar tanto tempo e depender de tanto esforço judicial.

Os manifestantes, que já se reuniam em Ferguson e em outras cidades do país, mostraram-se inconformados com a decisão de inocentar o policial e iniciaram protestos que pararam vias e avenidas em todos os Estados Unidos.

Em Ferguson, as manifestações foram violentas. A multidão inconformada atirou pedras na polícia, queimou carros, saqueou lojas e, segundo testemunhas, foram ouvidos tiros de arma de fogo. A polícia reprimiu de maneira igualmente violenta os manifestantes, resultando em prisões, bombas de gás lacrimogênio e confusão.

Em Nova Iorque, milhares de pessoas partiram às ruas indignadas com o resultado anunciado. Saíram da Union Square em direção ao famoso ponto turístico da Times Square, aonde se reuniram e entoaram gritos de ordem. Um manifestante foi preso de maneira violenta após atirar sangue falso no Comissário de Polícia e alguns oficiais que o acompanhavam, provocando o início de um tumulto.

Gritos como “Hands Up, Don’t Shoot” (mãos levantadas, não atire), e “No Justice, No Peace” (sem justiça, sem paz), que tornaram-se comuns após o início dos protestos de Ferguson, agitavam a multidão, visivelmente revoltada. De maneira espontânea, já que a data do anúncio da decisão do júri só havia sido divulgada no mesmo dia, pessoas e transeuntes juntavam-se a manifestação e compartilhavam a indignação.

O clima de tensão com relação à polícia era claro. Alguns manifestantes protestavam também contra outro caso recente de assassinato provocado por um oficial ocorrido no Brooklyn na quinta-feira passada (20). Akai Gurley, um homem negro foi morto na escada de um prédio, após um tiro de policiais que patrulhavam o local. A polícia afirma que o disparo foi acidental e que a vítima era inocente. Somado a casos recentes como o de Eric Garner, manifestantes demandam justiça e responsabilização dos envolvidos.

A manifestação dispersou-se por dois trajetos. Algumas pessoas marchavam para o norte, enquanto outros em maior número seguiram caminhando por grande parte da ilha, fechando importantes avenidas de Manhattan. O ato interditou duas pontes da cidade e atravessou até o Brooklyn, aonde o protesto terminou já por volta das 2h da manhã.

Junto com a indignação, também era visível nos presentes um sentimento de derrota e de desilusão com um sistema que não leva nem a julgamento um homem branco de farda que atirou diversas vezes em um jovem negro desarmado, provocando sua morte. Muitos se viam em Michael Brown. Um homem negro afirmava, desolado: “Estive aqui após o caso Trayvon Martin, estarei aqui de novo no ano que vem? Na semana que vem? Daqui dois meses? Estarei fazendo a mesma coisa? O que vai mudar? Não podemos apenas vir aqui e gritar, não é o bastante.”

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