19 de novembro de 2014

Terra Negra

Ilustração: Deni Pisciotta Lantzman


Por Deni Pisciotta Lantzman

ali estavam aqueles pequenos seres. entre minhas vassouras penduradas, fabricando lentamente seu mel dentro de um dos blocos estruturais que formavam minha casa. depois da reforma percebi que os pedreiros tinham contornado com tinta de parede a entrada diminuta da colmeia, bem ao lado da porta da cozinha.

pela manhã eu comentei com A. “elas dormem até mais tarde e sempre quando eu volto pra casa, no por-do-sol, elas estão agitadas, parecem felizes de me ver chegar, se enroscando no meu cabelo. Eu antes de abrir a porta fico olhando elas entrarem e saírem dessa entrada feita de cera, recortada pela bondade dos pedreiros.

por quê elas se juntam e se enfiam na parede de uma casa habitada por continentes quadrúpedes? por quê elas têm o ímpeto de se reunirem para dormir, acordar, trabalhar…todas circulando através de um túnel minúsculo, transformando moléculas soltas num líquido dourado, escondido sob o bloco estrutural da minha casa?” A. me mirava meio bobo com um café fumegante na luz de outubro, que anunciava um calor no porvir do meio dia, aí eu pude ver ele habitando nossa pequena casa, se preparando para sair de bicicleta para fazer algum líquido dourado que seja doce para algum continente quadrúpede.

quando A. saiu pelo portão, meus olhos bateram nas conchas que eu trouxera de Paraty e nas padras que eu encontrara na Barra do Turvo. Depois havia um pão cortado ao meio, deitado sobre sua sombra, e suas migalhas sendo carregadas no lombo das formigas. A televisão do vizinho assobiava uma corrida de arroz sobreposta pelos jingles do horário político, e havia o som da louça estalando entre a espuma do detergente. passou um caminhão de gás com sua melodia alienígena e conversei com duas testemunhas de jeová no portão.

esse sonho é um outro espaço fundido a um outro tempo. o sonho habita o corpo quando existe tempo e liberdade. ele é o mel que está incrustado na parede.

quando A. voltou, me apontou para a nossa calha, onde havia um sabiá- barranco alimentando seus filhos carecas no seu ninho feito sobre o metal sombreado pelo abacateiro. “há evidências demais, não há como não ver.” ele sem dúvida sabia disso.

nessa noite quente o sabiá sonhou com a Sibipiruna e com a janela que construiu seu ninho no passado. eu sonhava então com minha avó cozinhando sua sopa de milho acompanhada por fandangos, servindo-a aos seus netinhos carecas em algum subúrbio de São Caetano; o meu vira-lata perdido sonhava em algum canto com sua vida passada, quando era um pequeno gambá que morava no forro de minha antiga casa. a pequena concha empoeirada era sonhada pelos moluscos que a construíram com sua mão de ouro. E A. sem dúvida sonhava em seu quarto ao lado com sua mãe lhe fazendo rolinhos de folha de uva, ou então era bem possível passar-lhe aos olhos o céu denso no qual ele nadava quando era um Pardal.

A RUA GRITA

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