03 de dezembro de 2014

Mais fogo, menos mercado: ‘Já Regou’ é prova que coletivos estão no caminho certo


Festival “Já Regou Suas Plantas?” fechou 2014 com sua 5ª edição. Muita batalha, aprendizados e conquistas vieram neste ano, fixando o evento como uma celebração de união e paz


Por Gil Reis / Fotos: Greta Rodrigues

Não por acaso, esses são dois dos pilares formadores da cultura reggae no mundo. Disseminado massivamente a partir da aparição de Bob Marley, o ritmo tem em suas raízes muito mais do que o estereótipo fixado pela sociedade contemporânea. O Já Regou Suas Plantas? abriu espaço e contemplou com muita sabedoria os que acompanharam o festival, justamente pela conexão histórica entre coletivos e agentes comunitários, essenciais para que as cinco festas fossem um sucesso total, integrando, divertindo e ocupando.

A quinta e última edição do ano rolou sábado (29) e teve 5 bandas, batucada e uma molecada que ferveu a pista de skate. O Bloco Kaya na Gandaia, primeiro a se apresentar, chegou estourando. As músicas de Bob, unidas a uma bateria dançante, foram mescladas juntamente à percussão de bateria, partindo da inspiração no Samba Reggae baiano. O projeto, que nasceu da união da banda Soul Shakers com a bateria da Unidos Venceremos, vê seu sucesso crescer a cada apresentação.

Como é de praxe no Já Regou, houve um intercâmbio estadual que deu o que falar. Os rastas da banda Ukiemana vieram de Minas Gerais, lá do alto da Mantiqueira, até São Paulo e fizeram uma apresentação inesquecível. Após um apagão, que conseguiu calar as guitarras e instrumentos, o grupo louvou a comunidade Rasta, cantando à capela. As vozes, em meio ao cair da noite num céu alaranjado e abençoado, mostraram que a energia vem do espírito. “O reggae foi uma válvula de escape por ser a única música de expressão em nível mundial, com raízes fundamentadas no espiritual”, relatou Guruba, o índio-bom do grupo, numa fala emocionada.

BEM REPRESENTADO

Disseminando a cultura rastafári, a galera do Jah I Ras mostra que as letras estão totalmente atreladas à um modo de vida milenar, que engloba muitas complexidades desconhecidas socialmente: “Quando comecei a enternder e querer buscar o que está sendo falado na música do Bob, eu descobri quem foi Salomão, quem foi [Haile] Selassie e de onde vieram as linhagens salomônicas. O reggae vem da cultura Rastafari, mesmo com muitos gêneros [e grupos] sempre tendo flertado com o reggae, como Gilberto Gil, por exemplo”, explicou Ras Fernando, guitarrista do grupo, mostrando que as influências estão por toda parte. A cultura rastafári inspirou muitos artistas e criou sonoridades distintas, sendo explicita sua relevância para o mundo da música.

O ROOTS RESISTE

Essencialmente ligada com o reggae roots, a resistência do povo e a luta pelos iguais é o pensamento que fez nascer esse estilo musical. Junto a isso, a monopolização cultural, tanto no Brasil quanto no mundo, é um fator que faz do modo de vida reggeiro uma luta diária. “A gente mostra que não é impossível levar nossa música pros quatro cantos do Brasil e até pro outro lado do mundo. A cena reggae não é valorizada dentro do showbusiness da música, mas é muito valorizada no cenário independente. Isso já é muito importante”, alertou Leandro Kintê, vocalista da banda Filhos da Terra Reggae. Realmente, a valorização da música independente é a valorização do povo. A valorização de quem sofre e sofreu pelas oportunidades desiguais conferidas a cada gênero e a cada pessoa. Isso inclui também a ocupação de um espaço que deveria, mas muitas vezes não é ocupado pela comunidade.

A COMUNIDADE DEVE OCUPAR

A ocupação do espaço público é assunto de extrema relevância. É o ponto que marca a possibilidade de encontro para que tudo que vimos nestes festivais possa acontecer concretamente. “Quando a galera vê alguém que se identifica fazendo [o festival], o negócio rola. Quando o movimento é de cima pra baixo, a galera não vêm, não ocupa. Deveria ser um movimento horizontal. A galera da cultura ao redor do espaço tem que ser ouvida, tem que ser uma gestão compartilhada”, deixou claro Fernando Rangel, guitarrista do Veja Luz. E foi assim que rolou. A partir de uma atuação exemplar dos coletivos tudo se fez possível. A união se concretizou e o CEU Butantã recebeu centenas de pessoas, que se identificaram com a idéia e com o espírito do festival.

O encerramento do ciclo reabre novas possibilidades. Em 2015 virá mais empenho, mais amor, mais fogo e união. É indispensável o agradecimento à todos que participaram e compartilharam das lindas festas e mágicos momentos celebrados no Já Regou Suas Plantas.

Aos muitos: Muito obrigado!

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