16 de dezembro de 2014

Manifestação em Nova Iorque denuncia violência policial contra negros e leva mais de 50 mil às ruas

A Millions March NYC foi a maior na cidade desde os recentes casos de mortes de negros pela violência da polícia

Por Thiago Gabriel, de Nova Iorque

O grito “Black Lives Matter” (“vidas de negros importam”) ecoou por várias esquinas de Manhattan, em Nova Iorque, no último sábado, 13 de dezembro. Mais de 70 mil pessoas, segundo organizadores, marcharam durante toda a tarde e início da noite pelo trajeto pré-definido. A polícia divulgou presença de 50 mil pessoas em primeiro comunicado, depois reconsiderou e deu como oficial o número de 25 mil manifestantes.

A movimentação foi intensa durante todo o percurso da marcha, que incorporava transeuntes ao seu contingente por onde passava. Com trajeto acordado junto a polícia, a manifestação não teve casos de violência registrados por parte de manifestantes ou policiais, apesar de alguns momentos de maior tensão.

Amplamente divulgado como parte do Dia Nacional da Resistência, o protesto em Nova Iorque foi uma das inúmeras movimentações convocadas por militantes e líderes dos direitos civis, que reuniram famílias de vítimas da violência policial e levaram milhares às ruas por todo o país. Em Washington DC, a marcha “Justice For All” (justiça para todos) atraiu pessoas de todo o país, que se organizaram para ir de ônibus à capital exigir justiça em frente ao Congresso e a Casa Branca. Manifestações também ocorreram em dezenas de outras cidades como Oakland, Los Angeles, Boston, Chicago e St. Louis.

Os protestos exigiam o fim da violência policial nas comunidades negras do país. Os movimentos que convocaram a Millions March NYC tinham como demandas a demissão imediata de Daniel Pantaleo, policial que matou Eric Garner; a criação de um departamento de promotores independente para julgar casos de violência policial; o anúncio do nome dos responsáveis por abusos policiais em até 48 horas após a ação; que o departamento de polícia não tenha em seus contratados oficiais com qualquer histórico de abusos e mal uso de sua autoridade; e tornar ilegal a prática do estrangulamento no estado.

Em Nova Iorque, o ato teve início por volta das 14h na praça Washington Square, que foi inteiramente tomada de manifestantes. O trajeto parou o trânsito por algumas das vias mais importantes de Manhattan, como a 6a e 5a avenidas, o perímetro que ronda a Union Square e a avenida Broadway. Sempre acompanhada de perto pela polícia, que bloqueava as ruas para a passagem das pessoas, a marcha tinha como ponto final a One Police Plaza, local onde concentram-se a sede da polícia local e a prefeitura.

Já era noite quando o primeiro grupo de manifestantes chegou ao destino, enquanto pessoas ainda marchavam por uma extensão de mais de 20 quarteirões para trás em direção ao local. Na frente da sede policial, o povo se reuniu dentro dos limites estabelecidos por uma excessiva força policial, de prontidão para qualquer possibilidade de confronto. O número de pessoas era tão grande que aos oficiais não havia nada a fazer senão escutar os xingamentos que lhes eram direcionados no momento mais tenso do ato. Alguns discursos de ativistas e familiares de vítimas, e o respeito de um minuto de silêncio finalizaram a marcha previamente organizada.

A partir daí, uma boa parte dos manifestantes voltou para suas casas. Um número grande de pessoas porém, permaneceu na praça incitando a polícia e ameaçando derrubar as barricadas. Após alguns minutos, e sem qualquer ato de violência, eles se juntaram a outros milhares de manifestantes que caminhavam em direção a Brooklyn Bridge, fechando o trânsito nos dois sentidos da ponte.

Durante a travessia um manifestante foi preso acusado de atacar dois oficiais. Na chegada ao Brooklyn, os policiais tentavam desesperadamente fechar grandes avenidas para direcionar o ato para vias menores. Os manifestantes no entanto, confundiam os policiais improvisando no trajeto e ultrapassando as barreiras construídas sem sucesso pelos agentes da lei.

O protesto percorreu as principais avenidas da região, e realizou “die-ins” (quando as pessoas deitam no meio das ruas simbolizando as vítimas da violência policial). Moradores de apartamentos por onde passava a marcha faziam coro aos gritos já popularizados de “I can’t breathe” (eu não posso respirar) e “Hands up, don’t shoot” (mãos para cima, não atire).

Passava da meia-noite quando a manifestação se dispersou em frente a um conjunto de moradias populares onde Akai Gurley, homem negro que estava desarmado, foi morto pela polícia no último dia 20 de novembro.

Muito mais diversificado em seu público e muito mais padronizado nas manifestações e reações dos presentes , a Millions March NYC não contou com a tensão e a espontaneidade de protestos anteriores na cidade. Gritava contra as ações da polícia e era inteiramente observado e direcionado pelas forças policiais (exceto quando seguiu para o Brooklyn).

A convocação para o ato deixava claro seu caráter toalmente pacífico, e assim foi por parte dos manifestantes, mesmo quando estes promoviam atos de desobediência civil. Alvos do protesto, os policiais não puderam reagir nem mesmo as provocações mais explosivas de algumas pessoas. Calaram-se diante da multidão diversificada, que era constantemente filmada por ativistas e pela mídia local e internacional.

Apesar das contradições, foi provavelmente a mais importante de todas as manifestações ocorridas na cidade desde as mortes de Michael Brown e Eric Garner. Levou às ruas pessoas que não costumam se manifestar, ativistas de diferentes movimentos unidos pela mesma causa, crianças e idosos que podem ter sentido qualquer insegurança de responder aos outros atos por conta da certeza da repressão policial. Essas presenças representam uma enorme vitória do movimento e uma oportunidade de agregar novos personagens à luta.

O fato de reunir a aprovação da população e a presença de grande parte dela deixa os governantes e autoridades intimidados para criminalizar o movimento, assim como a grande mídia.

Se será lembrada, como muitos ativistas buscaram evocar, como comparável em importância e efetividade a famosa Marcha sobre Washington em 1964 pelos direitos civis para os negros, somente a história poderá dizer. Mas foi um grande passo na luta contra o racismo enraizado na cultura norte-americana, e a tradição de violência perpetuada pelas polícias do país, direcionada especialmente contra negros, latinos e minorias. Que o sonho possa tornar-se realidade para que os negros nos EUA não tenham que dizer novamente que não podem respirar.

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