06 de fevereiro de 2015

Aos 74 anos, Tia Cida é personagem central de resgate e renovação do samba na periferia de São Paulo

Tia Cida, os filhos Gil e Marcelo e a mascote Tonica no quintal que deu origem a cena de renovação do samba paulistano (Foto: Bruno Miranda / Na Lata)


Quintal da matriarca deu origem a Berço do Samba de São Mateus, cena que fortalece cultura na capital paulista; além da música, Tia Cida também assumiu vocação natural de assistente social organizando movimentos em prol da comunidade

Por Ana Ferraz, da Carta Capital

A subida é íngrime; as escadas, muitas. Vencido o capricho moldado pela natureza em forma de morro chega-se a um quintal estreito e comprido. Estamos em território mítico. Aqui, a moradora da oitava casa erguida em São Mateus, zona leste de São Paulo, fez germinar a semente de um movimento que transpôs os muros da moradia simples, espalhou-se pelo bairro e em meados de 2003 ganhou nomenclatura: Berço do Samba de São Mateus. Neste espaço, garotos de 12, 13 anos puderam desenvolver talentos que sem este incentivo talvez jamais tivessem vingado. Alguns angariaram reconhecimento nacional. Outros, quase nunca frequentam a mídia tradicional. Juntos, fazem da periferia um forte reduto de samba autêntico. Em comum, grande respeito pela mulher alegre e acolhedora que coloca o samba em tudo que faz.

Aos 74 anos, Maria Aparecida da Silva Tarjan, conhecida como Tia Cida, ainda parece a menina encantada pela batida dos tambores do jongo e hipnotizada pela dança que a avó a levava para observar do alto do morro. “Era gostoso de ouvir e de mexer.” De sorriso farto e fácil, nunca precisou de esforço para ser feliz. Habituou-se à casa cheia, às panelas no fogo prontas para receber os amigos. “Minha mãe era muito divertida. Tudo era motivo para festejar. Cresci na roda de samba e criei meus filhos do mesmo jeito.” O marido, pintor e decorador na Camisa Verde, tinha amigos em diversas escolas de samba e levava os três filhos para as quadras.

Tia Cida foi morar em São Mateus em 1975. O caçula tinha cinco anos de idade, o bairro era novo, todo mundo se conhecia. “Crianças só sabem andar em bando, então quando eles perguntavam se fulano podia vir ensaiar pandeiro e sicrano treinar timba, nunca vinha um só. Logo estava a molecada toda. Eles foram crescendo e então chegaram as meninas. De repente, gente de outros bairros. E a roda de samba não tinha hora para acontecer.” O bairro acolhia a folia de bom grado. Vizinho longe do batuque apreciava à distância. E a vontade de festejar sem motivo driblava as dificuldades.

Com perfil de mulher criada no batente, era um bebê de oito dias quando a mãe foi contratada como doméstica numa casa de família, ajudou a criar os filhos da patroa e só saiu de lá para se casar, aos 23 anos. Tia Cida assumiu a vocação natural de assistente social. Conforme o bairro se desenvolvia, organizava movimentos em prol da instalação de água, luz, da abertura de ruas, de tapar buracos. Por incentivo da comunidade, viu-se na universidade aos 40 anos. “Fui empurrada, foi muito bom. Consegui unir a prática com a teoria.”

No sofá da casa de Tia Cida, violão apoiado no colo, Everson Pessoa acompanha atento o relato. Ele e os irmãos, Ivisson e Vitor, são crias do quintal. “Quando vimos Tia Cida pela primeira vez, em 1992, foi muito forte. Nos sentimos amparados. Foi como uma mãezona abraçando os filhos. De cara ela gostou daqueles garotos que queriam fazer samba.” Tempos depois, encontraram Magnu Souzá e Maurílio de Oliveira, irmãos, músicos e moradores de Santo Amaro com quem fundaram o Quinteto em Branco e Preto. O grupo foi amadrinhado por Beth Carvalho, que se encantou com o celeiro de talentos de São Mateus.

quitneto
Quinteto em Branco e Preto no samba, em setembro de 2010

“Uma característica muito forte daqui é o samba feito na beira de campo de futebol, onde muitos músicos se formaram”, diz Pessoa, que tem composições em parceria com nomes consagrados, entre eles Nei Lopes, Almir Guineto e Wilson das Neves. Sentado ao lado de uma pilha de vinis onde repousam Paulinho da Viola, Silvio Caldas, Ataulfo Alves e outros tantos clássicos da música popular que moldaram o gosto da rapaziada, Marcelo, o caçula de Tia Cida, reforça a importância dos campinhos de pelada. “Aprendi a tocar observando os amigos. Ficava feio errar”, conta Tocão, vozeirão de baixo, 1,97 metro de altura, que começou na percussão, foi para o cavaquinho e se especializou no banjo. Trabalhou sete anos com Beth Carvalho, graduou-se no traquejo das casas noturnas e agora dedica-se aos shows do Berço do Samba.

Fincado na tradição do samba rural paulista, com uma pitada de influência do Rio de Janeiro, o som da periferia encontra inspiração nas crônicas do bairro. “Procuramos pensar na literatura do samba, no lirismo”, frisa Pessoa. Em momento iluminado, empunha o violão e toca a belíssima “Alê Luelo”, parceria do irmão Ivison Bezerra com Gerson da Banda. Tia Cida levanta-se para cantar e sai dançando, a esparramar alegria pelos cantos da sala. “É um jongo, coisa de preto”, esclarece, sorriso matreiro a enfatizar o orgulho das raízes bantos.

A música está no CD “Tia Cida dos Terreiros”, lançado no fim de 2013 pelo selo Sesc. “Ficou tão bem-feito que até acredito que sei cantar.” Produzido pelo Quinteto em Branco e Preto, o primeiro disco da sambista traz repertório “da antiga e da atualidade”. As 15 faixas habitam a memória afetiva da matriarca. Entre os compositores escolhidos estão Bororó (“sempre fui apaixonada por ele”), Orestes Barbosa, Silvio Caldas, Candeia, Wilson Batista, Billy Blanco, Dolores Duran, Ataulfo Alves, os integrantes do Quinteto em Branco e Preto e um nome especial, Blecaute (Otávio Henrique de Oliveira). Do pai compositor e cantor de sucesso da era do rádio, Tia Cida acredita ter herdado o “gosto por festas e por cantar”. Da convivência fragmentada com a primeira grande paixão de sua mãe, “ele tinha uma prometida no interior, casou e foi para o Rio de Janeiro”, ficaram as lembranças da rua cheia de gente para ver o astro de bonita figura que brilhava no rádio, no cinema e nos shows. “O Tocão é muito parecido com ele.”

O fato de São Mateus não ter escola de samba pode ter influenciado a cultura das festas e redutos da música de raiz. A partir do pioneiro quintal de Tia Cida floresceram importantes núcleos como a Casa do Zezinho, Rua 12, Buteco do Timaia, quintal da Tia Filó e da Dona Ercília. Popularíssimo em São Mateus, Altair José de Oliveira, o Timaia, divide-se entre o pequeno mercado que leva seu nome e o afamado bar. “O comércio é a razão, o samba, a emoção”, explica o homem que, segundo Tia Cida, parece o Tim Maia só na gordura. “Ele é redondo e alto. O original era mais baixo.” Cercado de fotografias de celebridades distribuídas pelos azulejos do estabelecimento, Beth Carvalho incluída, que passou com ele madrugadas no carteado, Timaia conta como foi parar na Broadway em 2008. “Fui com o pessoal do Berço do Samba. Ficamos oito dias em Nova York e sete em Cleveland. Sair da beira do campo e ir para os Estados Unidos parecia coisa de filme.” Acompanhado ao violão por Pessoa, entoa “O Defunto e o Coveiro”, saboroso samba composto por ele em seu hábitat, a mesa do bar. “O pessoal para aqui, conversa e, se bate a inspiração a gente compõe”, simplifica. “É cultura de boteco.”

Muitas vezes, Timaia recebe Tia Cida na roda de samba. Disposição não lhe falta. Se os filhos não podem ir, vai sozinha. De tudo que enfrentou, o único medo que ainda tem é de caranguejo vivo. “Na época da ditadura, em que ninguém podia sair de casa, eu não queria nem saber, ia e pronto. Certa vez estava numa reunião na paróquia e a polícia invadiu a sala. ‘Soubemos que há um encontro de comunistas aqui’, disse o militar. ‘Pois não, estamos discutindo João, versículo 15, está servido?’ Pediu desculpas e foi embora”, recorda Tia Cida. “Conseguimos atravessar essa fase sem abaixar a cabeça”, diz a matriarca, orgulhosa de ter sido uma das lideranças a dividir a mesa de debates com Paulo Freire e dom Paulo Evaristo Arns. “Ela é uma força integradora, é nossa rainha”, sentencia Pessoa. São Mateus assina embaixo.

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