26 de fevereiro de 2015

Entrevista com Cripta Djan: Caligrafando cadernos fechados


A Vaidapé entrevistou o pixador e documentarista Cripta Djan, que contou sobre sua trajetória histórias e convicções no movimento


Por Victor Santos
Ilustras: Cripta Djan

A rapaziada no point dos pixadores, centro de São Paulo, respeita muito Cripta Djan. Começou com 12 anos, nas vielas de Barueri, zona oeste, onde morava. Cresceu no movimento e fez muita escalada, nos anos 2000. Em 2004, depois de alguns problemas com a justiça, parou com a tinta, sem deixar o movimento.

Desde então toca dois projetos de vídeo para registrar o pixo: o Escrita Urbana e o 100Comédia – além de participar do documentário “Pixo”. Depois da entrevista fomos tomar uma cerveja e conversar com a pessoal do movimento.

Apesar de ter largado o colégio na oitava série, recentemente voltou a estudar em uma escola pública próxima de onde mora. Diz que é respeitado na sala, “a molecada reconhece”, e que tem algumas boas aulas. “Quando eu fui aprender sobre a colonização, que eu fui entender todo esse caminho que trouxe nós até aqui hoje”, continua.


VAIDAPÉ: Quem pixa?

CRIPTA DJAN: Grande parte são jovens da periferia que buscam o pixo como uma promoção social, existencial, dentro de um determinado grupo – que são os periféricos.

VDP: Como foi seu começou no pixo?

DIA A DIA DO PIXO

“Caralho, você não tá ligado na escalada de ontem! Fomos num prédio lá, tamo no meio da subida e cai um balde de água, aí eu falei, ‘porra, beleza, bora’. Nisso, caiu outro e na mesma hora já veio gente na janela gritando ‘ladrão!’, de repente – imagina – uma sinfonia! Era ladrão pra todo lado, mano! Aí descemos voando, deixamos as latas com um parceiro que ia largar num outro lugar e ainda tomamos um enquadro! Ainda bem que não tava com nada!”
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CD: Quando comecei, a pixação tava se consolidando como movimento, anos 1980, uma coisa meio despretensiosa. Nos anos 90 o pixo já se consolida como movimento, eu comecei no auge disso, mas não tinha ideia da dimensão do pixo na cidade. Eu sabia o que era dentro do município que eu morava, Barueri. Comecei na escola, pixando banheiro, carteira, primeiro rolê na rua pixei umas vielas, já me dei mal nos primeiros rolês. Você vai descobrindo a dimensão da pixação, como tá interligado, é uma rede autônoma super bem organizada e difundida na cidade. Daí é como um praticante de esporte que quer chegar longe. No skate, futebol e no pixo tem que suar pra conseguir seu espaço e se empenhar né.

VDP: Hoje você já um pouco afastado do fazer pixo, se envolveu com a produção de vídeo e tal, como você enxerga a pixação? Te fortaleceu, politizou?

CD: Sem dúvida, todo o conhecimento e a maturidade que eu tenho na vida eu devo à pixação. Ela entrou muito cedo na minha vida, eu cresci dentro dos conceitos da pixação, dos códigos de conduta. Os conceitos de ética da rua, do pixo, entrelaçados também com alguns conceitos do crime, que o PCC (Primeiro Comando da Capital) impôs quando assumiu a rua, como humildade e lealdade. São conceitos muito fortes dentro da pixação e do crime também. Você vai conhecendo, na rua, esses códigos de conduta, foi isso que formou toda minha percepção de mundo. Como encarar a cidade, desfrutar da cidade, mesmo sem a questão do potencial econômico.

VDP: Muito se fala que os prédios são, para o pixador, um caderno aberto, mas ele não tá bem aberto né?

CD: É, a gente rompe com os padrões estabelecidos pela sociedade e isso gera um conflito – por isso que o pixo é tão odiado. A cidade tá se tornando um lugar cada vez mais homogêneo e estereótipos são usados para alimentar essa ocupação da cidade, cada vez mais privada. Isso vai contra os ideais de um espaço público democrático, o pixador acaba resgatando esse lado meio na marra né. Do mesmo jeito que a cidade privada tá imposta pra nós, a pixação rompe com isso.

O pixo é justamente um reflexo desse processo de segregação, que todas as grandes cidades vão apresentando: com os muros, cercas elétricas, condomínios e os chamados enclaves fortificados. As classes mais altas estão, cada vez mais, se refugiando nesses lugares e impondo separações baseadas por interesses de classes.

VDP: Como consegue autonomia?

CD: : Buscamos formas de financiar o pixo sem o crime, porque, quando eu era mais jovem, a minha opção de financiar meu rolê era através do furto e muitos manos nossos se foram no crime por causa disso: começou roubando pra comprar tinta e, quando foi ver, aquilo ali ultrapassou os limites. Mas se a gente conseguir formas, através do pixo, de financiar isso é melhor também. Eu vejo como um caminho o diálogo com o poder público, como a gente teve no caso lá de Barueri, que foi um caso isolado, era um município pequeno e a gente tinha o controle da rua. Então lá a gente ainda conseguiu ter um diálogo de igual com o poder público, a gente organizava os festivais junto com o secretário.

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VDP: Rapaziada ainda pixa mais em grupo, né?

CD: A pixação sempre foi um movimento coletivo, rola pixar sozinho – o que é muito respeitado. Sinônimo de autonomia e coragem. Mas é um movimento coletivo, as vezes o cara que pixa sozinho não vai conseguir determinadas coisas que, em grupo, ele pode.

VDP: Por que que a união desses grupos é chamada de grife?

CD: (Risos) Eu não sei cara, eu acho que é por causa da marca né, grife. O pixador adapta muito a linguagem, quando comecei já tinha essa linguagem, é antiga do pixo. Na real, as grifes, que são as uniões de grupos, sempre são representadas por símbolos, então acontece muito essa apropriação de linguagem pelo pixador.

VDP: Se fala muito que o pixo é anárquico, como é essa compreensão?

CD: É justamente nessa compreensão da anarquia mesmo, de ir contra os padrões estabelecidos pela sociedade e as regras impostas pelo governo. Você não reconhece isso. Você não reconhece nenhum tipo de lei quando tá pixando na rua. Então o pixo é anárquico nesse sentido, nessa liberdade de apropriação da cidade e de se assumir como transgressor.

VDP: Mas hoje, já tem mais aceitação, né?

CD: Não diria aceitação, diria reconhecimento artístico e político. Acho que tem melhorado sim, mas aceitação é difícil falar porque o pixo continua sendo odiado e combatido na rua da mesma forma. Eu não vejo isso como um problema – porque esse é o nosso papel – a gente nasceu pra isso, a gente não tá buscando aceitação. Mas, o circuito artístico se recusar a discutir a pixação dentro dos parâmetros que abrangem a arte contemporânea hoje? Eu vejo como uma hipocrisia.

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VDP: Mas precisa ser arte?

CD: Não é que precisa ser arte, se legitima como tal sozinho, independente da minha opinião. O pixador é um artista e um vândalo de uma forma inconsciente. É foda né, como é que o cara pode ser artista e vândalo? A gente tem que estudar o conceito das palavras, ver a origem; o que foi o vandalismo, como se originou, e eu, analisando o conceito de vandalismo e de arte, cheguei à conclusão que a pixação é a arte de vandalizar. Inconsciente, tá ligado? Porque o vandalismo o que era? O ataque do povo vândalo, que era um povo, mano, à Antiga Roma. E o ato deles, de destruir alguns artefatos do Império Romano, como obras de arte, livros e estátuas, foi batizado de vandalismo.
O pixo é uma agressão às classes superiores e o patrimônio das elites. Quando a gente pixa um prédio num condomínio chique, nos grandes centros, é um ataque, é uma destruição simbólica.

VDP: Onde, por exemplo?

CD: A cidade tá toda pixada, velho. Você chega aqui no centro, todos os grandes símbolos já foram pixados: o Banespa, o Itália, todos os maiores prédios da cidade. Os pixadores não moram no centro e a gente acaba com o centro. Aqui é um lugar que se depender da nossa condição econômica a gente não vai morar, então o pixo é meio que uma retomada da cidade, porque nós somos realmente excluídos. Se uma família da periferia tentar morar aqui no centro com o mesmo metro quadrado é impossível, é surreal. Isso se configura cada vez mais. Ainda mais depois do Kassab, aquela especulação imobiliária toda, pra realmente expulsar as pessoas de baixa renda do centro.

O lance da arte, o que é a arte? Técnica e habilidade, o significado de arte em latim. Então o pixo já se enquadraria só por esse argumento; mas tem também a questão da tipografia, que entra na parte das artes plásticas; tem a questão da performance também, que o pixador usa o corpo dele como um objeto artístico pra deixar a sua obra. É uma obra efêmera pela cidade né, não tem apego nenhum com a obra.

Enquadros e tretas

12 Anos

Na primeira vez que rodou, tinha 12 anos. Pixava uma casa, perto de onde morava, com um amigo, quando foi pego pelo morador que fez os dois se pintarem, tirarem a roupa, se esfregar na parede, lamber o rolinho, tomar tinta, entre outras coisas.

17 anos

Foi pixar com alguns amigos, pego pela polícia, ficaram tomando pisão na cabeça e no corpo inteiro muito tempo. Perdeu os sentidos do corpo e pensava não ter mais coro cabeludo. Após a tortura, o chão de terra ficou marcado com o nariz e a testa de cada um.

VDP: Não tem apego?

CD: Um apego assim, que a maioria dos artistas têm né. O pixador sai difundindo a marca dele, a obra dele, cada pixo é como uma obra, entendeu? Porque tem todo um processo criativo de elaboração estética, não é só rabisco. Ele vai ali fazer o pixo dele, tem que ter um padrão, existe pixo feio e pixo bonito, levam anos pra aperfeiçoar sua técnica, aí que se configura o lado artístico. Tudo isso, vale deixar claro, que é muito inconsciente e espontâneo. Hoje que a gente tá mais maduro e descobrindo isso, até através de pesquisas que a gente colabora. Esses argumentos estão sendo amadurecidos, mas tudo isso é novidade pra nós, o legal é descobrir que a gente já fazia arte e vandalismo de uma forma inconsciente e são atos políticos né.

VDP: Quando você toma uma porradaria dessa, como volta?

CD: Com mais raiva, querendo pixar tudo, mais experiente e não querendo rodar. É daí que vem a revolta do pixador. As vezes assusta né, muitos param, mas na real são os aventureiros. A gente costuma dizer que tem os pixadores e os aventureiros né, o cara que vai se aventurar por um tempinho, porque quem é pixador mesmo vai resistir a tudo isso. Mas tem que ter muita paixão pela parada, pelo movimento.

VDP: Mas não da pra enrolar os polícia? As vezes passar por grafiteiro?

CD: Cara, eu tenho vergonha de fazer isso, porque já acho nojenta a conduta de alguns grafiteiros, imagina se passar por grafiteiro. Eu me assumo mesmo como pixador e já era. Até melhor cara, dar uma de laranja com os polícia é pior velho, você apanha na cara e se fode. Dependendo da situação dá pra dar uma desculpa, mas dependendo do rolê e do horário, cara, é melhor jogar a real, porque as vezes isso ganha ponto com os polícia. Você já joga a real e pá, muitas vezes até liberam, tem policiais até que liberam a tinta e pedem pra não pixar a área deles.

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VDP: O que você acha da desmilitarização?

CD: Eu acho que já devia ter acontecido faz tempo. É incrível o procedimento de maldade, a cultura de ignorância que a nossa Polícia Militar tem. Até quando eu não tô fazendo nada cara, eu já fico com receio, tá ligado. Até me questiono, tipo: “caralho mas eu não tô fazendo nada!”. É que quem conhece a polícia de São Paulo nos bastidores – como os pixadores conhecem – realmente sabe o tipo de maldade que esses caras representam na rua, só quem vive a rua sabe isso.

VDP: O próprio graffitti nasceu como algo transgressor e hoje já se manifesta de outras formas. Você acha que esse reconhecimento, como é dito no documentário “Pixo”, permite que, em pouco tempo, madame comece a contratar pixador pra pixar a casa dela?

CD: O graffitti e a pixação vêm de culturas bem parecidas, isso aí vai depender da conduta de cada um; cada pixador é livre pra fazer o que quiser, porém eu tenho algumas recomendações. Eu to buscando uma inserção no mercado de forma íntegra, eu faço um trabalho que ainda não é muito conhecido nas mídias [Criptografia Urbana], não fiz nenhuma exposição aberta, não é meu tipo de trabalho. Da rua, só uso a influência estética do pixo, com as técnicas que eu tenho de desenho e artes visuais. Sempre trabalhei com isso. Vale deixar claro que eu nunca fui grafiteiro, sempre desenhei e tive facilidade de lidar com arte, o pixo só agregou.

VDP: A estética vem muito de álbum de rock e tal, né?

CD: Tem realmente essa influência do movimento punk né, porque a nossa pixação com “x”, que se configurou como um movimento de rua, não vem nem dos primeiros pixadores dos anos 80, Juneca, Bilão e Pessoinha, eles escreviam com letra de mão. Foi a galera punk que começou a pixar mesmo, daí vem esse estilo característico de letra. Nos anos 90, o nosso movimento já começa a se configurar com grupos de punk tá ligado, muitos pixavam os nomes das bandas, nomes, logotipos das capas de vinil.

VDP: Nos vídeos do 100Comédia a gente ouve muito rap, como é essa conversa do hip hop com o pixo?

CD: A gente vai se formando ali no final dos anos 80, começo dos 90, mais com a galera punk. Essa parada de movimento urbano vai se transformando e acabou se espalhando de tal forma pelas periferias que criou vida própria. A pixação era um modo de expressão dos punks e depois transcendeu isso, se tornou um movimento autônomo das periferias e cresceu junto com o rap nacional. Então o cara tava na rua, pixava e ouvia rap. No final dos ano 80, não digo nem o hip hop, digo o rap nacional, porque o movimento hip hop não tem influência direta no pixo, os pixadores não lançam blake e nem fazem graffitti, crescemos pulando bate cabeça, Wu-Tang-Clan, ali no final dos anos 90, vários grupos de rap aqui (no Brasil) se difundindo.

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VDP: E as minas no pixo?

CD: É difícil né cara, o pixo é um movimento muito viril, que exige muita força física. A gente também tem a questão do machismo, que tá na pixação também, mas uma menina que pixa, a forma como ela vai ser vista de fora por amigos, parentes, é muito difícil tá ligado. Pra homem já é complicado, tem o estereótipo de marginal; imagina pra uma mulher que com qualquer coisa já é difamada. O homem pode tá com várias minas que ele é o garanhão, mas se uma mina tá andando com vários caras ela é puta. Tem muitas que começam a pixar, constituem família e param. Eu também acho que essa posição da mãe afasta, algumas voltam (depois da gravidez) mas não com a mesma pegada.

VDP: A gente vê muito rolê de ONG, de projeto na periferia. Como você vê essa interação?

CD: Cara, a gente vê muito playboyzinho querendo usar a periferia como escada pra projeto social, na real depois você vai descobrir e não tem intenção social nenhuma, só se promover. Isso é triste, um desperdício de recurso as vezes. É muito difícil você encontrar uma instituição dessa que realmente tá preocupada em formar as pessoas.
Eu acho que a ONG tinha que ser o que a escola não é, tá ligado. Tinha que ser uma ferramenta pra politizar as pessoas, porque a escola, na real, acaba despolitizando.

VDP: O que falta?

CD: Eu acho que um comprometimento realmente sério, a longo prazo, pra pelo menos preparar a pessoa pra vida politicamente, educacionalmente e artisticamente. No Brasil, infelizmente, tem a cultura da maracutaia como uma forma de negócio; isso que é o problema, é cultural. É a forma que a gente foi colonizado que ainda deixa seus vestígios até hoje, a gente tem aquela cultura do português malandro que só queria tirar vantagem dos índios. Muitas vezes os educadores estão comprometidos com a missão, mas você vai ver e o cara tá descontente por causa de toda a podridão.

A gente tá cada vez mais individualista, a própria mídia te influencia a ser um consumidor egoísta e individualista, isso enfraquece. Acho que o nosso sistema político aliado à nossas mídias desorienta as pessoas, porque as pessoas divididas é muito mais fácil de manipular; quando se junta, faz um bolinho, já cria o medo.

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VDP: E as empresas?

CD: Total né, nós somos governados pelos empresários, isso é um fato. A gente não tem representantes na política, essa que é a nossa grande tristeza, por isso que o povo tinha que respirar política ao invés do futebol.

VDP: Em uma postagem sua no facebook você jogava uma música do Facção e uma frase do Nietzsche. Além do rap, quais são suas influências?

CD: Cara, hoje em dia,o que me foi influência de filosofia é Nietzsche. Aí eu comecei a ler o comecinho da filosofia pra entender o que era: fui ler Sócrates, um pouco de Platão. Depois o Rafael (personagem central do ataque à faculdade Belas Artes) descobriu o Nietzsche né, puxou o bonde, até pela obra “Além do Bem e do Mal”. Também tem as Teorias Piratas do Hakim Bey, o Duchamp; depois fui descobrir o Bakunin, que foi um propagador da anarquia no mundo. Cada revolucionário que você descobre te faz pensar que você ainda tem muita coisa pra fazer e aprender.

VDP: E o pixo nos protestos de rua?

CD: Acho que o pixo tem que se somar a outras causas como o sem teto, passe livre, anarquista, causa indígena, legalização das drogas, desmilitarização da polícia – todas essas minorias têm que se alinhar e buscar uma forma de atuar junto, porque foi assim que nasceu a nossa esquerda e agora tem que nascer uma esquerda nova né. Quando as minorias começarem a se organizar e realmente colocar seus representantes no poder, as coisas vão começar a mudar. Nós não temos representantes de minoria nenhuma no poder hoje, o PT já tá fazendo isso de uma forma genérica né, já fizeram muito mais. Eles também não governam sozinhos, mas tem muita gente que acabou com a nossa esquerda, muita gente que destruiu. Quem acompanha a história de como surgiu o PT e o que fizeram, muitos caras que se promoveram individualmente e foderam todo um trabalho.

VDP: Que você achou das eleições?

CD: Eu tô impressionado com o grau de alienação das pessoas que facilmente são cooptadas pela nossa direita, pessoas beneficiadas pelas políticas públicas do governo de esquerda, que também não é uma maravilha. Mas fazendo a análise do que foi o governo do PSDB, em 8 anos, e o que foi o governo do PT, em 12, fica claro qual foi mais benéfico pro povo. Quero deixar claro que eu não sou de partido nenhum, sou em prol da melhora coletiva. Mas o que ainda me impressiona é a facilidade que as nossas elites têm pra cooptar pessoas de classes inferiores.

VDP: Como você enxerga o PT hoje?

CD: É difícil a gente falar de um cenário político daqui de São Paulo, porém, entre PSDB e PT, eu prefiro PT. Porque a gente tem o governo do PDSB que é super elitista, reforçando diferenças, matando muitas pessoas, então eu não tenho como dialogar. Com o PT ainda tem. Você vê o Haddad, ajudando algumas ocupações, enquanto o PSDB quer desocupar. Então, nesse momento, o PT é a única lírica que nos resta, eu queria ter uma opção melhor mas nesse momento eu não tenho.

VDP:E o pixo protesto?

CD: Eu acho que o pixador já tem essa experiência autônoma por conta própria, o rolê dele exige, tem que ser um transgressor e um anarco por nascença. Usar o pixo como uma ferramenta política é muito importante, por isso a importância da politização dos pixadores. Hoje em dia, eu vejo que tem uma questão da conduta no rolê, tem a questão do pixo promoção e a questão do pixo protesto, acho que o pixador tem que fazer as duas coisas.

VDP: O pixo é uma porta de entrada pra política?

CD: Acho que pode ser, hoje em dia eu invisto nisso. Penso assim: o jovem não tem interesse pela política, porém tem interesse pela pixação, se ele descobrir que o pixo é uma ferramenta dentro da política, ele vai despertar esse interesse.
É difícil, porque fazer pessoas que foram negligenciadas pelo estado, com um processo de aprovação automática e despolitização total através das mídias, é difícil conseguir quebrar o gelo. Porém, o pixador é um anarco por essência, então quando você consegue criar uma linguagem menos sofisticada e fazer ele entender isso, pode ter bons resultados.

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Esse texto foi publicado originalmente na quarta edição impressa da Revista Vaidapé 

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