20 de fevereiro de 2015

Ilú Obá de Min e o lado rico das coisas


Bloco de carnaval faz “uma casa de santo” na rua e traz à tona luta contra opressão de gênero

Por Carolina Piai
Fotos: Bruna Bravo e Carolina Piai

Sob o deitar do Sol, tambores ecoam no centro velho de São Paulo. Mulheres batucam, ritmadas em um compasso de terreiro, há ainda as que dançam e cantam. Elas são tantas. Trazem consigo toda força e beleza da ancestralidade africana. Ora ou outra cantam para os orixás – de alguma forma, eles também estão ali. E me parece que estão felizes.

Descrever esse momento é tentar retratar o inimaginável. Quando o batuque começa, é como se girassóis brotassem do concreto e milhares de borboletas tomassem o ar, num redemoinho sem fim. O espetáculo é forte, sério e sagrado. Relembrar uma frase do filósofo Friedrich Nietzsche me reconforta nesse começo. “Acreditamos saber algo das coisas mesmas, se falamos de árvores, cores, neve e flores, e no entanto não possuímos nada mais do que metáforas das coisas”, é o que afirma o filósofo e o que, agora, confirmo.

Ainda assim, contarei um pouco da história dessas mulheres – com modéstia e respeito. Elas próprias contarão.

A cena no centro da capital acontece no Vale do Anhangabaú. Todo ano, o Bloco Ilú Obá De Min realiza oficinas de perna-de-pau, dança, percussão e canto entre outubro e fevereiro. Preparam-se, então, para o Carnaval. Na sexta-feira do feriado, tomam as ruas da região central, passam pelo Theatro Municipal e terminam seu trajeto na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandu.

O bloco, que comemorou dez anos de vida em 2014, tem poucos homens: estão todos no corpo de dança – ainda que seja sobre pernas-de-pau. Beth Beli, presidenta do Ilú, foi uma das fundadoras do projeto e conta: “Isso veio de uma vontade minha de formar uma bateria feminina e de dar empoderamento para as mulheres por meio do tambor. Essa foi a ideia”.

Daí veio o nome: Ilú significa tambor; Obá, o título de rei e também de Xangô, um orixá; De Min se refere a mãos.


“São as mãos femininas que tocam tambor para o rei Xangô”


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O trabalho que fazem é baseado nos ritmos do Candomblé, religião de origem africana extremamente estigmatizada no Brasil. O culto aos orixás vem justamente dessa influência. Segundo o sociólogo Reginaldo Prandi, em seu livro “Segredos guardados”, “os orixás são parte da família, são os remotos fundadores das linhagens cujas origens se perderam no passado mítico. Em troca das oferendas, os orixás protegem, ajudam e dão identidade aos seus descendentes humanos”.

Beth acrescenta que, no Candomblé, apenas homens podem batucar nos rituais. “A ideia é subverter uma ordem e ocupar lugares políticos. Queremos desmistificar esse lado todo negativo histórico que tem em cima do Candomblé. E isso é feito por mulheres”, explica a presidenta. Nas palavras de Beth, fazem “uma casa de santo na rua” e o povo fica todo admirado, o bloco atrai cerca de 15 mil pessoas. Esse costume, apesar de raro em São Paulo, é expressivo em Pernambuco e na Bahia.

Os temas abordados nos desfiles variam. Nesse carnaval, homenagearam a escritora Carolina de Jesus. Ainda assim, não tratam apenas de temas nacionais. “A gente quer que as pessoas olhem para a África”, garante a presidenta. “O negro sempre é visto a partir do navio negreiro – mas existe mais atrás disso. A verdadeira história não está até hoje nos livros didáticos. Resumem a abolição no momento em que a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, por exemplo. Mas foi um trabalho muito maior, envolveu abolicionistas, pessoas escravizadas”, explica. Ressalta, então, a própria terminologia: “eles não eram escravos, eram escravizados”.

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Nesse sentido, continua: “A escola breca, não conta todas essas influências, o lado rico das coisas. Nós não somos vítimas, não estivemos sempre nesse lugar. Passamos por muitas lutas”. Dentro do Ilú, portanto, desenvolvem diversos projetos que ampliam essa conscientização. Hoje, têm uma associação que inclui tanto o projeto do bloco de rua, quanto cursos e organização de ciclos de palestras. Seu enfoque está na cultura da Nigéria e da Guiné- Conacri, país no oeste do continente africano – além de tratarem constantemente da temática feminina. Acirram a luta pela implementação da lei 10.639, que estabelece a obrigatoriedade do ensino da história, da cultura afro- brasileira e africana na educação básica.

Esse trabalho faz com que o próprio bloco de rua ensine seu público. “É quase como uma educação informal”, define Beth. Uma das maestrias de seu trabalho vem justamente disso. “O Ilú reconta a história, a verdadeira história, de um outro olhar, no qual mulheres também têm voz para falar sobre isso.”


“A ideia é subverter uma ordem e ocupar lugares políticos. Queremos desmistificar esse lado todo negativo histórico que tem em cima do Candomblé. E isso é feito por mulheres”


As contadoras remetem a uma figura narrada pelo escritor Eduardo Galeano: “Marcela esteve nas neves do Norte. Em Oslo, uma noite, conheceu uma mulher que canta e conta. Entre canção e canção, essa mulher conta boas histórias, e as conta espiando papeizinhos, como quem lê a sorte de soslaio. Essa mulher de Oslo veste uma saia imensa, toda cheia de bolsinhos. Dos bolsos vai tirando papeizinhos, um por um, e em cada papelzinho há uma boa história para ser contada, uma história de fundação e fundamento, e em cada história há gente que quer tornar a viver por arte de bruxaria. E assim ela vai ressuscitando os esquecidos e os mortos; e das profundidades desta saia vão brotando as andanças e os amores do bicho humano, que vai vivendo, que dizendo vai”.

Mais do que ressuscitarem os esquecidos das profundidades de suas saias, as mulheres do Ilú ocupam o espaço público – o que parece simples, mas não é. Há 10 anos, quando começaram os ensaios, foram expulsas de alguns lugares. Para Beth, então, “tem uma intenção política” na escolha de ensaiar fora de sua sede: “Ocupar as ruas é uma questão de direito”.

A coordenadora de dança Cristiane Gomes complementa: “Estamos ocupando um espaço que é nosso. Isso é muito simbólico. Mexe com as pessoas que vivem nas ruas, que vêm ver a gente e que acompanha a gente – são os nossos anjos. De certa forma, a gente está na casa deles também”. Cristiane conheceu o Ilú em 2006, no Carnaval. No ano seguinte, já fazia parte do corpo de dança.

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“O Ilú é uma experiência muito forte para quem vê e pra quem faz parte, traz coisas transformadoras. Aconteceu comigo e com outras pessoas que se descobrem negras ou admiradoras dessa cultura afro- brasileira. É um perfil muito variado de mulheres. E em cada uma delas desperta algo, seja espiritual, artístico. As pessoas se descobrem aqui”, conta Cristiane.

Beth conclui de forma íntegra e sucinta: “O Ilú reconstrói diversas visões sobre o que é a cultura negra, o que é o empoderamento de mulheres, o que é se descobrir como mulheres ativas, com atuação política”.

Ilú Obá De Min é despertar.
Esse texto foi publicado originalmente na quarta edição impressa da Revista Vaidapé na sessão “A rua grita”.

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