11 de fevereiro de 2015

Intolerância religiosa no país da ‘liberdade’? Assassinato de muçulmanos não comove EUA

Para quem acompanha o noticiário norte-americano, e lembra da cobertura de casos como o do jornal Charlie Hebdo, é evidente a conivência da mídia com a islamofobia

Por Thiago Gabriel, de Nova Iorque (EUA)

Três estudantes muçulmanos foram assassinados na tarde de ontem (10/2) com tiros na cabeça, em um conjunto de residências vizinho do campus da Universidade da Carolina do Norte. As três vítimas são o casal Deah Shaddy Barakat, 23, e Yusor Mohammad Abu-Salha, 21, e a irmã de Abu-Salha, Razan Mohammad Abu-Salha, de 19 anos.

O suspeito de 46 anos, Craig Stephen Hicks, se entregou a polícia na manhã desta quarta-feira, e está preso. A polícia de Chapel Hill, munícipio da Carolina do Norte onde o crime ocorreu, afirma que ele está colaborando com as investigações. A polícia divulga muito poucas informações sobre o caso desde ontem. A versão oficial das autoridades, e repercutida na mídia do país, é de que os assassinatos foram resultado de uma disputa por vaga de estacionamento. Hicks é vizinho das vítimas.

O crime ocorreu ontem às 17h (horário de Nova Iorque), apesar de não ter sido noticiado pelos grandes veículos de mídia do país até a manhã seguinte, e mesmo assim, de maneira discreta. O perfil no Facebook de Hicks apresenta mensagens de cunho ateísta radical, condenando seguidores de religiões como muçulmanos e também cristãos. As evidências levam muitos nas redes sociais e entidades muçulmanas a questionar se o crime não seria motivado por um sentimento de ódio étnico ou religioso do atirador.

A hashtag  #muslimlivesmatter (inspirada na recente #blacklivesmatter, que acompanhou os protestos contra o assassinato de negros pela polícia no país) tomou as redes sociais com questionamentos e críticas à mídia norte-americana pela cobertura, que consideram atrasada e desatenta. Muitos afirmam por exemplo, que se o atirador fosse muçulmano e as vítimas americanos brancos, o caso seria indiscriminadamente identificado como terrorismo. As mensagens também prestam homenagens às vítimas através de fotos e depoimentos de conhecidos.

Para quem pôde acompanhar a cobertura da mídia em casos como os de Charlie Hebdo por aqui realmente se impressiona com o descaso dos veículos pelos assassinatos, e a falta de questionamentos com relação as motivações do crime.

Familiares das vítimas estiveram na cena do crime após o assassinato e também reclamam da falta de transparência policial para identificar as vítimas e fornecer informações sobre o ocorrido.

Para muitos nos Estados Unidos, o caso é emblemático de como são diferenciais os tratamentos dados pelas autoridades e a mídia a casos em que os suspeitos são muçulmanos, para os casos em que a situação se inverte, e estes passam a ser as vítimas. A atenção é chamada também para um movimento crescente de islamofobia na população do país, incentivado por declarações e posições consideradas irresponsáveis na diferenciação de comunidades islâmicas e a ação de grupos como o Estado Islâmico, promovidas por políticos, autoridades e jornalistas.

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