26 de fevereiro de 2015

Manifesto do Coletivo de Educação da Ocupação Jardim da União

(Foto: Bel Harari)


Caminhamos devagar para chegar longe

Por Rede Extremo Sul

Essa é uma primeira carta do Coletivo de Educação formado no Jardim da União. Escrevemos para dizer quem somos e porque fazemos educação popular no interior dessa luta de ocupação de terra no extremo sul da cidade de São Paulo.

Nós, que vivemos e lutamos aqui, vamos construindo uma verdadeira morada nessa estrada dura da luta. Atravessamos noites frias, perdemos terras e companheiros de caminhada, mas a cada barraco reconstruído, a cada novo espaço comum, a cada festa organizada por nós, conquistamos nossa própria força e construímos nossa auto-crecheorganização, nossos coletivos, nossas cooperativas. E a primeira lição do nosso coletivo é que a educação desenvolve-se a partir da luta direta, da organização e do enfrentamento contra os poderosos.

Vamos fazendo da luta um lugar que traz vida pra gente. Por isso dizemos que quem vive neste jardim já é mais que um companheiro que divide pão, já é irmão de luta e união. Daí brota nossa autonomia: da passagem da resistência à invenção de outras formas de vida, organizadas por nós mesmos, sem depender do Estado e sua burocracia, nem do governo, nem dos proprietários dos meios de produção. A vida que estamos aprendendo a criar juntos, de um mundo sem dono, nem chefia, onde não se aceita hierarquia. A vida que é pensada e feita pelas nossas cabeças, numa organização que é nossa, feita por nós e para nós.

Nosso maior conteúdo educativo é aprender a viver em outra ordem, fora dos mandatos da mídia, do governo, do patrão, da disciplina e da exploração. É essa a educação que queremos: desaprender a baixar a cabeça ou a esperar o político solucionar nossos problemas. Juntos, vamos alimentando nossa rebeldia!

Foto: Vctor Santos
Foto: Victor Santos

Nessa caminhada surgiu a proposta de começar a ensinar o que se sabia, compartilhando conhecimentos e aqui e ali, foram surgindo uma porção de atividades simples, mas cheias de significado e criadas a partir de nossas necessidades: oficinas de corte e costura, capoeira, futebol, creche, formação política, leitura e escrita para adultos, aulas de espanhol, oficina de coleta e reciclagem etc., atividades que se apoiam nos aprendizados do dia a dia, que vamos acumulando e sistematizando. Boa parte das atividades se mantiveram e quando começamos a nos reunir como coletivo de educação, as experimentações orientadas pela luta autônoma e autogestionada já estavam em curso. Começamos então a realizar formações mensais com todas e todos os educadores e educandos, buscando estudar e refletir coletivamente sobre o significado da educação nessa luta.

Essa caminhada segue, mas não sem dificuldades, pois a todo o tempo esbarramos com aquilo que buscamos combater, e descobrimos nossos inimigos até dentro de nós e de nossos companheiros e companheiras. Somos sempre muito poucos diante das tarefas que temos, e apesar de nos dedicarmos com todas as forças, volta e meia vemos as nossas práticas e relações assumindo um caráter utilitário, de clientela, vazio de experiência. Essa é a maior fonte de cansaço, mas que necessariamente acompanha as lutas verdadeiras; porém, a sensibilidade de enxergar as conquistas que alcançamos e os irmãos que nos tornamos também é uma aprendizagem fundamental que faz nossa energia se renovar.

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Foto: Rede Extremo Sul

Foto: Rede Extremo Sul
Foto: Rede Extremo Sul

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Foto: Rede Extremo Sul

Juntos vamos buscando nossa própria forma de educar e de rejeitar a desigualdade que normalmente se coloca entre quem ensina e quem está aprendendo, por vários motivos. Primeiro: porque é assim que se faz a luta no Jardim da União, ninguém de fora chega aqui pra nos ensinar sem fazer parte da luta, como querem toda hora os revolucionários de grupo de estudos e outros encantados em serem professores do povo. Segundo: porque essas posições não são estandartes, e quem está aprendendo em dado momento, é quem ensina horas depois. Terceiro: porque como guerreiros e guerreiras, temos que exercitar essa horizontalidade e igualdade entre nós o tempo todo, radicalmente. E quarto: sabemos que somos diferentes e, por isso mesmo, podemos trocar conhecimentos, mas essa diferença não pode converter-se em poder, para que nossa travessia não se transforme em um ponto de chegada previamente formulado na cabeça de um “líder”, mais do mesmo…

Nossos aprendizados não são ditados por outros. Nossa educação não vem de fora e não é alienada de nossa própria prática. Nossa educação não é uma atividade de promoção. Não educamos para algo, mas sim com nossos companheiros. Aprendendo com a própria luta organizada e coletiva, juntos vamos buscando uma experiência de educação popular que seja autêntica. Na busca de uma prática orientada pela solidariedade e contra a indiferença a qualquer forma de opressão, a nossa educação não pode apagar a história da luta do povo; ao contrário, ao se inscrever nessa tradição de luta, aproveitamos o conhecimento que nos pertence, este que vem da resistência contra esse mundo tão hostil aos trabalhadores e trabalhadoras. Com isso, alumiamos nossa história e tiramos dela a certeza de que estamos do lado certo: o lado da ousadia da luta popular.

Acreditamos que as linhas e desenhos de uma nova organização social brotam dos enfrentamentos contra nossos inimigos, tanto quanto das experiências de autogestão da nossa vida cotidiana. Fortalecendo nossos princípios políticos e organizativos, que possuem a mesma base de nossos princípios educativos, vamos enfrentando as dificuldades e cuidando para que cada passo da luta caminhe em direção a uma sociedade auto-organizada e livre das amarras e das opressões.

TODO PODER AO POVO!

Confira a reportagem da Revista Vaidapé na Ocupação Jardim União

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