19 de fevereiro de 2015

A Mudança do Garcia: há lucidez no Carnaval de Salvador

Bloco de rua protesta contra privatização do Carnaval, suas cordas e camarotes

Por João Previ

Às 10 horas da manhã, os sons do Carnaval já ecoavam pelas ruas do Garcia, um dos mais antigos e tradicionais bairros de Salvador. A “Mudança do Garcia” já acontece há mais de 60 anos no percurso de 3 quilómetros entre o final do Garcia e o bairro do Campo Grande. Naquela manhã, como em tantas outras, centenas de pessoas subiam as vielas e barrancos que levam a parte mais alta e movimentada da festa, onde outros milhares já pulavam atrás das fanfarras. Alguns, mais discretos, vestiam apenas adereços coloridos, mas muitos se dedicavam em fantasias e cartazes.

Vestido com uma saia rodada e uma peruca azul, Josué Almeida me guiou por esses caminhos até a avenida. Nascido e criado em Salvador, Jó é presença confirmada há anos na Mudança do Garcia. “Entendeu, pivete? Hoje é quando o povo todo vem pra rua pra protestar, pedindo mudanças. Cada um tem sua causa, seu motivo.”

Saraus, marchinhas e frevos se espalhavam por todas as esquinas do bairro. Em uma das subidas, três berimbaus, um atabaque e um agogô formaram uma roda de capoeira no meio da rua. E a roda formada na hora foi jogada por todos que passavam. Na Mudança, também é lembrada a história que tentamos esconder. Apontando para uma casa na frente da roda, Jó explica. “Aqui era uma casa dos barões de antigamente, daqueles donos de escravos. Imagina só, pivete.”

Operação Lava-Jato, sistema penitenciário, legalização da maconha, transporte público, direito à moradia e até a polêmica multa para quem urinasse na rua eram pautas de igual importância na festa. Os sindicatos também trouxeram suas reivindicações, engrossando ainda mais o número de foliões nas ruas.

A Mudança também traz diferentes danças e músicas de origem africana. Para a educadora Sônia Borges, a festa é importante para ressaltar a cultura negra, que muitas vezes é desconhecida pela população. “E é com essa conscientização que conseguimos ao menos diminuir o preconceito, que acontece também nas festas.”

“Repensando o Garcia” foi o tema da festa deste ano. Na avenida principal, blocos tradicionais voltaram a desfilar entre os manifestantes. A Mudança também teve a volta da votação para “Rainha da Mudança”, título vencido pela travesti Estefani Di Pauli, de 45 anos.

Mesmo com a irreverência das criticas e as manifestações por mudanças, a festa não agrada a todos. Naira Tranquilli explica que, ao menos nos outros anos, muitos trios elétricos ficaram incomodados com a ocupação do espaço de desfile: “Como a mudança entra no circuito do Campo Grande, acaba atrasando os trios que passam ali.”

Mas bastava ler as placas para entender o porquê desse percurso. Muitos ali, principalmente os mais jovens, aproveitavam para protestar contra a privatização do carnaval de Salvador. Os camarotes e as cordas, tão badalados na cidade, dividem a população que o Carnaval sempre fará a questão de juntar.

Já na saída da Mudança, outra manifestação chamava a atenção nas ladeiras. Vestidos com as roupas de alguma igreja evangélica, pouco mais de 15 pessoas carregavam cartazes espalhados alertando sobre os perigos do adultério e do calor que faria no inferno. Mas esses pareciam não convencer os milhares de fantasiados pecadores que passavam por entre os religiosos. Talvez porque, apesar das profecias que só Jesus os salvaria da morte, o povo sabia que só o carnaval os salvaria da vida.

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