11 de fevereiro de 2015

Quem manda nessa cidade sou eu? Não, é o Itaú

O Itaú, que fechou 2014 com o maior lucro da história dos bancos do país, ganha aval para livre atuação no centro de São Paulo


Por Henrique Santana
Arte: Vinícius Pereira

Ponto de partida da expansão urbana na cidade mais populosa do hemisfério sul, o centro de São Paulo traz uma boa ilustração da metrópole. A área, antes polo de investimentos, se transformou com a saída das grandes empresas para edifícios nos novos cinturões empresariais: a Avenida Paulista, cartão postal do turismo na cidade, e os ostentosos prédios da Berrini e da Faria Lima.

Esse processo desvalorizou a região. Muitos dos altos edifícios que decoram a paisagem do centro ficaram às moscas, o que criou um terreno propício para que acontecessem as ocupações de moradia, guiadas por movimentos que atuam na região. A “degradação” também culminou em um aumento de pessoas em situação de rua. Em reação, a elite foi buscar abrigo para seus olhos em outras localidades da cidade.

No entanto, São Paulo não para de crescer, e a nobre localização do velho centro voltou para a mira dos especuladores imobiliários. Pessoas em situação de rua, ocupações, catadores e vendedores ambulantes tornaram-se um empecilho aos projetos de valorização da região dotada da maior infra-estrutura urbana da cidade. E assim se desencadearam os projetos de revitalização do centro.

Recentemente, as medidas governamentais para mudança do centro, acompanhadas de um higienismo social, puderam ser observadas com mais clareza na gestão do ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD). Leis que coibiam o comércio ambulante na cidade e a polêmica Operação Cracolândia com suas internações compulsórias são apenas alguns exemplos.

Em janeiro de 2013, o Banco Itaú deu uma pequena amostra de sua interferência na política urbana do centro histórico. Uma carta, assinada pelo inspetor de segurança patrimonial do banco, Sinvaldo Guimarães Fernandes, foi encaminhada à Prefeitura de São Paulo, manifestando descontentamento com moradores de rua que estavam estabelecidos em frente à uma das agências da instituição, localizada na Rua Sete de Abril, no centro. Segundo o ofício, os clientes estariam sendo “diariamente incomodados” com a situação, e as pessoas em situação de rua estariam “causando indignação” nos transeuntes. Assim, segue a carta, o banco, “no exercício de seu dever de cidadania e preocupado com o recrudescimento desse tipo de ocorrência, vem à presença de V.Sa., solicitar a interferência desse órgão, no sentido de convidar essas pessoas a saírem do local”.

A carta ilustra a questão, no entanto, traz à luz apenas a ponta de um grande iceberg higienista protagonizado pela instituição financeira.

O portal Arquitetura da Gentrificação (AG) publicou um dossiê, com base em 11 meses de investigação, sobre uma iniciativa de transformação urbana no Vale do Anhangabaú e áreas adjacentes do centro paulistano. O projeto, desenvolvido pelo escritório dinamarquês Ghel Architects, a pedido do Banco Itaú, prevê um novo mobiliário urbano, com quiosques, cafés, lojas, novas fachadas para o comércio e espelhos d’água ao longo do Vale, além de um hotel na avenida São João – mesmo local que foi palco de violenta reintegração de posse em setembro do ano passado – e um shopping subterrâneo na Galeria Prestes Maia. Avaliado em quase 2 milhões de reais, o desenho foi doado pelo banco à Prefeitura, transação que foi aceita com incomum rapidez pelos agentes do poder público.

O projeto foi apresentado à Prefeitura durante encontro do programa que, ironicamente, carrega o nome de “Centro, Diálogo Aberto”, visando estabelecer um diálogo com a população para traçar as diretrizes urbanísticas da região central. A apuração da AG, no entanto, constatou que a proposta vêm sendo feita com grande autonomia de atuação do Banco Itaú e pouca interferência do poder público, além da falta de participação de pessoas e entidades em situação de maior vulnerabilidade – por exemplo, moradores de rua.

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Carta do Banco Itaú à Prefeitura de São Paulo

Coincidência ou não, o primeiro plano de revitalização do centro se deu na década de 70, encabeçado pelo então prefeito e dono do Itaú, Olávo Setúbal (1975-1979), que teve como uma de suas medidas a implementação do calçadão da Sé. O dossiê da AG resgatou uma entrevista de Setúbal ao sociólogo Heitor Frúgoli Jr. em que o banqueiro demonstrava seu descontentamento com a apropriação do espaço por vendedores ambulantes. Segundo o banqueiro, “você pode imaginar que o modelo de calçadões, que teve bastante êxito em algumas cidades, como por exemplo Munique, na Alemanha, seja um processo válido para o Brasil. O calçadão virou no Brasil um permanente problema de “mercado persa”. Não se consegue evitar”.

O livre arbítrio do banco “feito para você” na região central se escancara também nos eventos realizados no mesmo Anhangabaú durante a Copa do Mundo no ano passado. A famosa Fan Fest da Fifa – que estampava patrocínios do Itaú – foi um dos exemplos mais pragmáticos de privatização do espaço público. Quem quisesse circular pela pequena “cidade fifense” era submetido a revistas de seguranças privados e proibido de entrar com alimentos e bebidas, o que forçava o consumo dos produtos fornecidos pelos patrocinadores a preços inflados.

Na última quarta-feira, 4 de fevereiro, o Comitê Popular da Copa se manifestou frente à carta emitida pelo banco, afirmando que “o povo da rua, primeiro eliminado da Copa, segue há décadas sendo alvo de uma política higienista, cujas cores partidárias não diferem em nada na violência cotidiana contra essa população e tantos outros ‘indesejáveis’ da cidade. Não permitiremos que as ruas sejam apropriadas ainda mais por banqueiros e corporações aliadas sob justificativa de proteção a uma categoria de ‘cidadãos de bem’ contra a ‘subcategoria’ do povo da rua”

O movimento também relembrou a relação do banco com o megaevento do ano passado: “O Banco Itaú, um dos principais financiadores de campanhas eleitorais e também patrocinador da Copa do Mundo Fifa 2014, teve a permissão da Prefeitura de São Paulo para utilizar gratuitamente o Vale do Anhangabaú, um espaço público extremamente importante para a cidade, durante os 30 dias de jogos em 2014, para promover ações de propaganda de sua marca relacionando-a ao megaevento da Fifa, proporcionando um aumento ainda maior de seus lucros”.

A postura do Itaú, que encerrou 2014 com o maior lucro líquido da história dos bancos brasileiros de capital aberto – façanha que já havia sido conquistada em 2013 – e que doou um montante de mais de 26,5 milhões de reais a candidatos nas eleições de 2014, é evidência de que as diretrizes urbanas da cidade se curvam aos grandes grupos econômicos. Nos anos 40, o modelo rodoviarista determinou o DNA da cidade: exaltação do transporte privado em detrimento do público, sob forte pressão da indústria automobilística. Agora, a privatização da rua anda a passos largos, e, como sempre, quem sofre é a maioria.

A RUA GRITA

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