27 de fevereiro de 2015

Thiago Rocha Ribeiro: o artista convidado da revista vaidapé #4

22 anos, estudante do terceiro ano da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU-USO), é o artista convidado para ilustrar a quarta edição da Revista Vaidapé. A inserção no meio digital, tendências do futuro e o financiamento do artista foram alguns dos temas explorados durante nossa entrevista

Fotos: João Miranda

Vaidapé: Desde pequeno você se interessa por desenhar? O que marcou seu início nas artes?

Thiago Ribeiro: Sim, desde pequeno eu curto desenhar. Grande parte do meu interesse vem da escola que eu frequentava e, principalmente, dos meus pais. Meu pai não tem relação nenhuma com arte mas ele curte muito criar coisas: explorar, montar, descobrir como funciona. Meu grande barato não é só desenhar, o que eu curto mesmo é criar. Pensar uma coisa e conseguir produzir ou transformar em algo material – seja desenho, pintura, escultura.

VDP: Você tem preferência por algum material específico para criar suas obras?

TR: Eu acho que o desenho é fundamental em qualquer tipo de arte. Não importa o que vai usar no final, se é tinta, escultura… O desenho sempre vem primeiro. É a forma de arte mais primitiva que tem, tanto que os homens da caverna pegavam alguma coisa, riscavam e criavam uma marca na caverna, depois iam aperfeiçoando, até que virou o desenho. Então, ele é fundamental em qualquer criação.

VDP: E você tem preferência por cores? Na aquarela, por exemplo.

TR: Acho que não. Cor é um negócio muito complexo. Existem várias e várias teorias a respeito delas. A cor, assim como a música, consegue transmitir emoções. Então, dependendo do que eu quero mostrar, de como eu to me sentindo, eu uso cores diferentes. Tipo as cores que eu to usando aqui, verde e azul, são cores mais calmas. Se eu estivesse com raiva usaria outras.

“Eu acho muito chato quando chega alguém e fala que você tem um puta talento, que deus olhou pra você e deu um dom. Dom é o caralho! Eu fico até a madrugada desenhando, é muito treino. Quando falam que você tem talento é quase um xingamento (risos)”

VDP: E a ideia desse quadro que você está fazendo agora? Que aliás, está muito louco.

TR: Curto muito ser humano, principalmente mulher. Curva arredondada, não só no sentido sexual do negócio, mas curva, pescoço, seio, eu sou encantado por isso. Toda mulher que eu faço tem relação com alguém que eu conheço; não quer dizer que é o retrato de alguém, mas tem características de pessoas que são próximas a mim, que eu acho bonito, elegante, atraente. Na verdade, tô até com medo de fazer isso aqui, porque usar tanta cor eu não estou acostumado. Resolvi aproveitar a oportunidade pra sair um pouco da zona de conforto.

VDP: Você também trampa no computador, né? Por que você partiu pro design? Há alguma relação com o financiamento do artista?

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TR: Hoje em dia, para você trabalhar com ilustração ou como designer, é preciso estar no meio digital. Não precisa fazer tudo no computador, mas o produto final, para o cliente, vai ser digital. Explorar a linguagem que ele oferece eu acho importante. Muita gente tem problema em entender que o cara que é foda no digital é foda no tradicional. A teoria da cor, composição, anatomia é tudo igual.

VDP: Você acha que, hoje em dia, é fácil um artista que não vai para o meio digital se manter?

TR: Mesmo o cara do digital, acho difícil ele se manter. Têm coisas que o digital não consegue reproduzir 100%, então existe sim um nicho para artistas que trabalham com o tradicional. São mundos diferentes, mas com clientes diferentes, que se interessam pelas duas coisas.

VDP: Como você cria o seu público alvo na arte?

TR: Eu acho que o artista é o cara que se expressa. Depois vai vir o cara que vai dizer se gosta daquilo ou não, se vai usar ou não. O artista tem que produzir e divulgar o trabalho dele. Acho importante que o cara que quer trabalhar com arte divulgue seu trabalho, pois é assim que ele se vende.

VDP: Por que você escolheu arquitetura?

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TR: Porque quando eu era pequeno fui na casa de um amigo e o pai dele era arquiteto. Vi o que ele fazendo maquetes no computador e desenhando. Só que, na faculdade, eu fui tendo aula de projeto e percebendo que o que eu gosto mesmo é de criar coisas, que não sejam exatamente um prédio, e o curso te deixa muito restrito. É muito burocrático.

VDP: Você acha que a tendência do futuro é, cada vez mais, o trabalho à mão se tornar só “treino”?

TR: Acho que não, você precisa treinar os dois. À mão você tem o fator do improviso, consegue descobrir as coisas. No computador não, você tem que apertar tal tecla pra fazer tal coisa. Tem mais precisão. O grande barato de fazer isso é descobrir as coisas e no computador às vezes você não tem tanto essa oportunidade.

“Foda é o cara que faz fila para ver bolinha colorida, para tirar selfie. Faz fila quilométrica para ver uma série de TV que passou 10 anos atrás. Por que não tem essa fila na Pinacoteca, no MASP? As pessoas vão onde dizem para elas que é bom. Por isso que selfie, hoje em dia, é o maior marketing de museu. Um monte de gente vai tirando selfie, as pessoas vão no museu para tirar selfie e dizer que foram na exposição. Isso é uma merda, né?”

VDP: O que você pensa sobre a elitização da arte? Ou da arte se tornando mercadoria?

TR: Isso é foda. Eu tô tendo contato com galerias recentemente. Sempre escutei que lá o mercado de arte é uma bosta, pois grande parte do negócio não é poque você tem qualidade ou sabe o que está fazendo, mas porque sabe fazer sala, tomar cafezinho… Quem comercializa não sabe do que tá falando. O cara não tem ideia do porquê de estar colocando aquele cara na galeria, o que é arte contemporânea, o que é arte. É só comercial. Uma bosta.

VDP: Você acha que o preço acaba sendo para um público muito seletivo e o mesmo exige a sala, o cafezinho?

TR: Talvez. Mas é igual o médico, o engenheiro. É um ofício tão importante quanto. Se ele não cobrar um valor um pouco mais alto ele não sobrevive. A tinta no Brasil, por exemplo, é muito cara e o artista tem que usar o material de qualidade, garantir que aquilo dure. Não precisa todo mundo comprar obras de arte, mas todos tem que ter acesso à ela.

VDP: Afinal, o que é arte para você?

TR: Arte é um negócio que consegue comover as pessoas. Acho mais fácil definir o artista: ele é o cara que produz e a sua produção ninguém nunca imaginou que pudesse existir, mas, depois que as pessoas veem o que ele produziu, elas percebem como a vida delas mudou. É o cara que sai da mesmice, pensa fora da caixa, não só nas artes plásticas, na música, cinema… É uma forma de tocar as pessoas.

Esse texto foi publicado originalmente na quarta edição impressa da Revista Vaidapé.

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