09 de março de 2015

‘1,2,3 Slam da Guilhermina’: batalha de poesias completa três anos na zona leste

Estação do Metrô Guilhermina-Esperança, zona leste de São Paulo, é o ringue cultural para a batalha de poesias: o Slam Da Guilhermina

Por: Marianna Rodrigues, Yoanna Dimitrios e Vinícius Lima
Fotos: Yoanna Dimitrios

“Se eu tivesse meu próprio dicionário, água seria vitamina pra sertanejo. Boxe: luta cujo objetivo é atingir o adversário com as mãos. Vence quem sabe usar a cabeça e os pés. Bahia: um bar que não foi, fracassou. Ciúmes: filme de ficção, com pelo menos um ator fantasma. Ou não. Doutor: o que vem depois do dodói. E o sonho da valsa? Forró…” Com essas palavras que o poeta Ni Brisant começou o seu poema “Se eu tivesse meu próprio dicionário” no lançamento de seu livro homônimo, no aniversário de três anos do Slam Da Guilhermina.

Na última sexta feira de cada mês, a praça anexa à estação Guilhermina-Esperança do metrô, Zona Leste de São Paulo, transforma-se no palco do Slam da Guilhermina, a segunda batalha de poesias faladas do Brasil. Às oito horas da noite, iluminado pela luz de um lampião, o evento começa com um Recital Livre. Nele, qualquer ouvinte pode se manifestar e declamar obras autorais ou não. Ao final dessa primeira parte, o slam começa. Ele é dividido em três rodadas, e, no final de cada uma delas, as notas são somadas e os vencedores vão para a próxima fase. Para participar do slam os poetas devem recitar poesias autorais, com até três minutos de duração, sem acompanhamento musical ou coreografia.

Além das poesias, ainda há a expressão de outras atividades culturais. No dia 27 de fevereiro, por exemplo, o cantor Edvaldo Santana fez apresentações nos intervalos e o escritor Ni Brisant lançou seu livro. O Slam da Guilhermina representa um dos veículos de expressão da periferia. Meio às poesias, inúmeras são as críticas sociais. “É um espaço livre e gratuito para propagar suas palavras, encontrar amigos. (…) O slam e os saraus são a resistência na periferia, espaço para falar de nós para nós” conta Mel Duarte, vencedora da edição de aniversário.

Slam no Brasil

Mesmo que famoso em muitos países da Europa e nos Estados Unidos, o slam ainda é pouco conhecido no Brasil, tanto por falta de divulgação, quanto de estímulo à atividade. Em vista disso, Emerson Alcalde, idealizador do movimento, tomou a iniciativa de criar o Slam da Guilhermina e trazer para a zona leste de São Paulo essa mostra de arte na rua. Forma de estimular poetas e poetisas a desenvolver sua arte.

São Paulo já conta com diversos saraus: o sarau do binho, do Ademar, do Elo em Brasa e da Cooperifa, são nomes que ganharam destaque nos últimos anos. Os slams também vêm crescendo e se tornando uma eficiente plataforma de fomento artístico. “Começamos só tinha um slam [ZAP – Zona Autônoma da Palavra], hoje tem 10”, afirma Emerson.

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Slam na escola

Aos poucos o Slam vai adentrando também as salas de aula. Escolas da região irão receber visitas do grupo organizador da batalha. “Vamos fazer um campeonato entre 4 escolas, lá [na Europa] tem campeonatos com mais de 1000 escolas.” Diz Emerson. O idealizador porém atenta que “a ideia não é levar nada pra eles, é despertar o interesse e mostrar que a poesia está próxima deles. Há uma barreira cultural muito forte. Eles ouvem funk, rap, e muitas vezes não entendem que é uma poesia”.

“Esse movimento tá cada vez maior e chegando aos poucos na escola. Quando chegar lá é que as crianças vão saborear um pouquinho mais as palavras”, disse Rose Giometti, de 63 anos, amante de poesia desde criança que estava curtindo o terceiro aniversário do Slam Da Guilhermina.

Rose afirma com muita esperança: “Está na hora de fazer umas oficinas nas escolas, quando entrar lá, não vai ter mais volta. A escola vai ter que mudar, queira ou não. À medida que a poesia vai entrando no dia a dia, a escola vai ter que se render.”

O formato da escola acaba sendo um grande empecilho para a disseminação da poesia. Cada vez mais funcional, as instituições empurram livros de literatura para o aluno de forma impositória, o que muitas vezes não desperta interesse. “Falta muita poesia nas escolas porque ela ainda parece uma coisa chata, clássica, romântica e que não faz sentido no dia a dia”, critica a admiradora do Slam. “O que essa moçada tá fazendo, é levar a poesia pra esquina, pro bar, pro cotidiano”, completa.

Dificuldades

Outro grande atraso é a falta de espaços públicos culturais em São Paulo. Com a falta de locais destinados à cultura; praças, bares e estações de Metrô têm o privilégio de tornarem-se palco de atividades culturais tão ricas como o Slam Da Guilhermina. “Trabalhadores, estudantes, todas as pessoas passam e olham o que acontece. A gente tem que voltar pra rua e ocupar o espaço público”, afirma Emerson.

A mídia também não colabora com o crescimento do movimento. “Eles [a mídia] têm uma visão muito superficial, não entendem o que é sarau. Um slam, menos ainda. Saraus, gostam de 2 ou 3, falam do que chega até eles, passou alguma vezes na TV, mas ainda é um entendimento superficial. Na Europa tem um canal de televisão de slam.”

O Brasil foi o único país latino americano no torneio mundial de Slam de 2014, em Paris, e ficou em segundo lugar. Sobre o feito, Emerson critica: “Não houve uma divulgação aqui no Brasil. Na Europa saiu em jornal impresso, televisão. Por ser novo aqui, acho que ainda não entendem”.

Confira a página do Slam da Guilhermina clicando aqui.

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