12 de março de 2015

‘Antes de mandar florzinha no zap zap vamos pensar no que a mulher significa’

Em mais um domingo, Calçadão Cultural do Grajaú recebe o Grito do Pé Preto com papo sobre feminismo, pintura ao vivo e rap

Por Redação
Fotos: João Miranda e Jay Viegas

A Vaidapé realizou, no último domingo, 8 de março, sua segunda atividade do projeto #GritodoPéPreto, no Calçadão Cultural do Grajaú. A ocupação do espaço público ocorreu em frente à Casa de Cultura Palhaço Carequinha, onde rolou a distribuição da quarta edição impressa da revista e diversas atividades. No dia internacional da mulher a convidada foi a artista Linoca, que pintou uma tela enquanto os MCs do bairro mandavam seus improvisos no microfone.

Moradora do Campo Limpo, zona sul de São Paulo, a artista falou sobre a inserção da mulher no circuito da arte e do graffite: “Quando eu comecei era difícil conhecer garotas que pintam. Agora tem Nega Hambuguer, a Thais Primavera, a Nina, a Mis van, mas podia ser muito mais amplo o espaço das mulheres na rua”, diz.

Linoca explica que a menina enfrenta mais dificuldades até para descobrir seu talento artístico. “Quando um menino fala para os pais que vai grafitar um muro isso é aceito de um jeito. Já a mulher tem que vencer uma barreira dentro de casa para conseguir chegar ao muro. Você tem que lutar dentro de casa para poder lutar na rua”, defende.

A artista começou sua carreira grafitando e hoje explora outras plataformas e métodos para seus desenhos. Linoca também posiciona sua crítica para além da arte. “Faltam espaços para nós mulheres em todos os lugares, inclusive nos movimentos culturais alternativos”, observa.

Sobre o dia da mulher, a pintora ressaltou a necessidade da participação masculina na batalha diaria contra o machismo. “Queria dizer para os homens que acompanhem as mulheres, respeitem as mulheres nessa luta. A luta não é so nossa, é de vocês também. Quando a mulher luta ela luta por ela, luta pela sua irmã, luta pela sua mãe. É muito importante que vocês acompanhem junto”. Linoca também leu um manifesto do coletivo Nós, Mulheres da Periferia. Segue abaixo:

“Somos a irmã que cuida dos irmãos mais novos até a mãe voltar do serviço e que lava a louça do almoço enquanto o irmão vai jogar bola. Somos aquelas que amam os filhos das patroas. Somos as ‘mãezinhas’ que gritam nos corredores das maternidades. Somos quem chora quando nossos filhos são mortos por serem suspeitos. Somos mães de abril, maio, de junho, setembro. Somos as mães que trabalham para as filhas estudarem. Somos as filhas que se formam na universidade para as mães voltarem para a escola.

Somos aquela que, depois de oito horas de trabalho e quatro horas no transporte público, ainda passa a roupa e nina o bebê. Somos quem vai no posto atrás de remédio e pra agendar consulta pra daqui a cinco meses. Somos quem cria abaixo-assinados para pedir creches. Somos quem denuncia que a vizinha apanha do marido. Somos operárias, empreendedoras, manicures, jornalistas, costureiras, motoristas, advogadas. Somos esposas, mães, irmãs, primas, tias, comadres, vizinhas. Somos maioria. Somos minoria. Pobres, pretas, brancas, periféricas. Migrante, nordestina, baianinha, quilombola, indígena.”

Assim como no último domingo, o microfone ficou aberto para todas e todos MCs da região. Ibe Rap, Fábio Neto e Thiago Du Rap soltaram suas rimas refletindo sobre a questão de gênero. No entanto, as batidas pesadas se silenciaram para a intervenção da cantora e compositora Andreia Dias, moradora do Grajaú. Tocando seu berimbau, a vizinha da praça cantou e declamou uma composição própria que fala de respeito à mulher.

Andreia não se limitou as musicalidades e fez ecoar no calçadão belas palavras sobre o oito de março. “Hoje é dia da mulher né? Que legal. Precisou que em 1857 várias fossem queimadas em uma fábrica de tecidos em Nova York porque estavam lutando por direitos iguais. Por melhores salários elas foram queimadas, e por causa desse dia, nós mulheres temos um dia. As pessoas acham romântico ficar mandando florzinha no ‘zap zap’, feliz dia das mulheres. Mas vamos pensar profundamente no que essa data significa. Antes de mandar florzinha – que é só uma coisa comercial – vamo pensar profundamente no que a mulher significa – o homem também – e na igualdade de alma, porque cada um tem seu papel mesmo”, criticou a música.

A jornalista Patricia Iglecio também deu seu recado: “A gente cala em tantos momentos. Mas hoje é o dia de calar o machismo. Toda manifestação masculina contra a luta das mulheres por igualdade é opressora. Hoje, em especial, qualquer tentativa de negar a expressão feminina é machismo exacerbado”.

“A mulher nas periferias”, tema da programação do dia, ecoou por entre os muros do Grajaú na forma de música, arte e falas famininas. Quando o sol já caía e a tela pintada por Linoca estava pronta, ainda se podia ouvir os versos cantados em frente a Casa de Cultura Palhaço Carequinha.

Enquanto a população do centro da cidade finalizava seu Dia da Mulher batendo panelas e chamando a presidenta de “vaca” ou “puta”, as minas representaram no Grajaú: se manifestaram nas músicas, nas tintas e nas palavras. Ocuparam a rua.

O projeto Grito do Pé Preto volta ao Calçadão Cultural no dia 22 de março. A próxima atividade será uma oficina de midialivrismo. O Perfiferia em Movimento (coletivo de comunicação que atua na zona sul) e a Revista Vaidapé, irão cobrir um ato do movimento LGBT nas redondeza do Calçadão. As câmeras e microfones estarão aberto à todos que quiserem se aventurar: os jornalistas agora são vocês.

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