02 de março de 2015

‘Aqui é Butanclan’: conheça a cena do skate na zona oeste de SP

Em SP, a cena do skate segue viva e resiste diante da falta de incentivo e espaços para prática do esporte

Por Vinicius Lima

Fotos: Greta RodriguesJoão Miranda

Mesmo sendo uma das maiores cidades na cena do skate mundial, São Paulo ainda não tem muitos espaços para quem gosta do esporte poder andar; espaços como a pista do Sumaré, Simba Safári e o CEU Butantã.

Se o esporte e a arte já conseguem fazer uma diferença enorme na vida de uma pessoa, imagine o que não faz por uma comunidade. Foi através dessa paixão pelo skate que nasceu o Butanclan, um grupo de amigos que fez com que a pista do CEU Butantã se tornasse um verdadeiro centro artístico, cultural e esportivo.

Desde a inauguração do CEU, uma galera se reunia para andar de skate na pista local, “eram no máximo 9 moleques e uns mais velhos”, relembra E.T., um dos idealizadores do grupo. Hoje, a pista conta com festivais, show, graffiti, oficinas, campeonatos de manobra e os mais diversos eventos. Mas não foi e nem é fácil, devido à burocracia, E.T. diz também que já bateu muito de frente com a gestão do CEU para realizar as iniciativas culturais do Butanclan.

Além dos eventos culturais e dos roles de skate, o grupo também faz um barulho na internet através de vídeos no seu canal no Youtube, “Butan Channel”, com mais de 350 inscrições e sua página no Facebook, “Butanclan”, com 3000 seguidores.

Os vídeos são feitos pelos próprios membros do grupo, e eles aprenderam na pista mesmo, “tinha muito moleque como o Ezequiel Falcon aí, que nem andava até chegar o Butanclan, hoje é homem grande e faz uns trabalhos bonitos, uns vídeos monstros”, explica E.T. sobre a importância do grupo pra comunidade local.

A Revista Vaidapé esteve na pista do CEU Butantã e trocou uma ideia com o E.T.

Confira:

VAIDAPÉ: Como o skate entrou na sua vida?

E.T.: Começou em 1983 através de skates de amigos. Onde eu morava só um cara que tinha skate e eu pegava o dele pra ficar brincando. Mas só em 86 eu peguei gosto, aí comprei o meu skate aos poucos, juntei um dinheirinho e fui montando, comecei a acompanhar uns caras mais velhos no role pra aprender e to há quase 31 anos na cena.

VDP: Como e quem começou o Butanclan?

E.T.: Teve uma festa numa quebrada de São Paulo que estavam o Pomba, o Indião e o Fernando, aí tocou uma música do grupo Wu-Tang Clan e os caras começaram a ironizar, “Aqui é Butanclan! Não Wu-Tang Clan!”. Depois eles vieram com essa ideia aqui pra pista, todo mundo abraçou e, dali em diante, a gente decidiu que o nome do grupo que andava aqui no CEU iria se chamar Butanclan.

VDP: Hoje, qual é a importância do Butanclan pra cena do skate paulista?

E.T.: Meu, não digo nem paulista em si, digo pra cena local. Porque se você for ver como era antes do Butanclan, aqui tinha no máximo 9 caras. Aí a gente começou a colar, o barato começou a crescer, veio uma molecada nova que aprendeu a fazer vídeo, outro aprendeu a tirar foto. E foi bem bacana porque tinha muito moleque como o Ezequiel Falcon aí, que nem andava até chegar o Butanclan. Hoje é homem grande e faz uns trabalhos bonitos, uns vídeos monstros. A importância da parada é essa, não é nem pra cidade, é pra comunidade local.

VDP: Qual foi a mudança que o Butanclan fez na comunidade?

E.T.: Como um amigo nosso, o Cara Preta, disse: a pista serviu bastante pra reunir o skate da Zona Oeste. Então, todo pessoal do Jardim Ester, Boa Vista, Vila Borges, Raposo, Corifeu, todo mundo se junta aqui hoje.

VDP: Na cultura Hip-hop, existem os quatro elementos (MC, B-Boy, DJ, Graffiti), o skate seria o quinto?

E.T.: Mano, não diria que é o quinto porque hip hop é música e skate é esporte, cada um tem a sua cultura, mas dá pra abranger porque as coisas até que se encaixam, só que não é a peça chave. Existe muito respeito do pessoal do hip hop com o skate e vice- versa, mas não dá pra falar que é o quinto elemento.

VDP: Qual é o maior atraso pro crescimento do skate no Brasil?
E.T.: Atraso mesmo é quando o moleque gosta de skate e não tem dinheiro pra comprar umas peças. Porque, se você pegar o exemplo aqui do Butanclan mesmo, se a gente vê que o menino tá na pegada de andar de skate, a gente empresta um shape pra ele andar. Só que não é todo mundo que tem uma pista como essa perto de casa e essas conexões que quem anda aqui tem.

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VDP: Onde o Butanclan quer chegar?

E.T.: Vou falar a real, não digo por todos, mas por mim. A gente quer é fazer um trabalho bonito e ter o nosso pessoal unido. A gente não quer glamour, fama, dinheiro, queremos curtir nosso barato, nossa amizade e nossa união. É isso que interessa, curtir os amigos e tentar fazer sair uma molecada boa que anda de skate por prazer.

VDP: Faltam espaços como o CEU Butantã para andar de skate? E de incentivo ao skate?

E.T.: Falta pra caralho. Essa pista é uma mão na roda, quando eu comecei a andar, a gente fazia umas rampas de madeira na rua. Antes de ter esse espaço aqui, fiz vários corres com os políticos locais que prometiam mundos e fundos, e aí chegava na hora de eu cobrar o cara, ele debochava de mim.

VDP: E qual a falta que isso faz?

E.T.: O problema é que tem muito moleque bom, mas não tem onde andar e chega uma hora que ele fica cansado e fala “não vou andar de skate mais”. Quando tem pista, os moleques tem quem ver como referência de manobra e estilo. Se você não tem uma pista dessa, tem que andar na rua que é mais perigoso. Existe o street skate que é animal, mas aí você não vai ter tanto sossego quanto você tem numa pista dessa, porque aí você vai estar na tensão com carro e farol.

VDP: Como você vê a cena do skate paulista?

E.T.: Do tempo que comecei a andar pra hoje, tinha que ver umas revistas, não tinha tanta informação. Hoje a molecada, além da revista, tem vídeo, vai na pista e vê os caras andando. A cena paulista do skate tá forte, se você for ver, de 20 caras, 8 arrebentam.

VDP: Quem quiser entrar no Butanclan, é só chegar?

E.T: Mano, aqui não tem essa questão de entrar. Aqui não é gangue, nem é quadrilha. O negócio é chegar na moral e se alguém olhar pro moleque e curtir, a gente vai falar “quer colar com nóis?” Chega no sapato porque aqui é uma reunião de amigos, mas é compromisso, aqui não é brincadeira não.

Esse texto foi publicado originalmente na quarta edição impressa da Revista Vaidapé na sessão “A rua grita”.

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