31 de março de 2015

Meu trampo | As mães em Bárbara

É prostituta há doze anos e mãe de cinco filhos. Uma mulher corajosa, disposta a enfrentar todos os males que a vida lhe trouxe para chegar a seus objetivos. Sempre com um sorriso no rosto e muito jogo de cintura

Por Isabella Amaral
Ilustras: Helena Obersteiner

Bárbara se tornou prostituta para se livrar de um casamento violento. Foi casada por 19 anos, durante os quais sofreu todo tipo de agressão por parte do marido. Uma amiga a levou para a vida na rua e, infelizmente, para outra situação de opressão e abuso: trabalhou por oito anos para uma cafetina que não só cobrava dela e de suas companheiras de trabalho para que elas pudessem ficar na rua, como também as tratava mal. “Ela judiava muito das meninas. A bem dizer espancava”, lembra com pesar. Certa vez decidiu dar um basta na situação e enfrentar a rua sozinha, mas a mulher a encontrou e fez com que Bárbara pagasse pela fuga. Três meses depois, a cafetina foi presa por tráfico de drogas e exploração de mulheres e quando saiu, era a mesma: ainda cobrava e judiava das meninas. “Hoje eu já não pago pra ninguém e dizem que ela se matou. Eu não acredito nisso porque ela já morreu umas sete vezes”.

Hoje trabalha para si mesma e recebe dicas dos acompanhantes (como gosta de chamar os clientes) para não cair nas mãos de mais ninguém. Garante que é prostituta porque precisa: tem cinco filhos para criar. Seu dia a dia não é fácil.

Chega na rua no máximo nove horas da manhã e fica por lá até as seis da tarde. Nesse meio tempo atende quantos cliente o dia trouxer. Depois, volta pra casa, toma banho, janta e vai para o banco no qual trabalha durante a noite. Acostumada com a rotina cansativa, dorme cerca de quatro horas por noite e tira sua energia de pó de guaraná. Na teoria, só atende de segunda a sexta e os fins de semana são reservados para curtir os filhos e descansar, mas no sábado em que conversamos, por exemplo, Bárbara iria atender três clientes. “Quando a gente tem um objetivo a gente tem que enfrentar tudo e o meu objetivo é sair dali”.

“quando a gente tem um objetivo a gente tem que enfrentar tudo e o meu objetivo é sair dali”

A acompanhante pretende fazer um supletivo, terminar os estudos e depois entrar na faculdade. Quer fazer medicina, para trabalhar como pediatra, ou lidar com o preparo dos mortos para o sepultamento – habilidade que adquiriu quando seu avô faleceu. A opção não lhe parece nem um pouco macabra: “A gente não tem que ter medo de quem está morto, são os vivos que fazem maldade”. Mas sonha mesmo em ficar em casa, ver os filhos casarem, cuidar dos netos e tricotar, brinca. “Pra mim acho que já deu tudo que tinha que dar. Pretendo ficar mais uns dois ou três anos e sair”.

Trabalha como prostituta há doze anos – nem todos feitos de momentos ruins. Quando perguntei sobre a relação com os clientes ela prontamente respondeu:“Tem muitos amores. A maioria são amigos, amores, pessoas compreensivas”. O melhor de todos foi Douglas. “Tudo que tenho e sou hoje, é devido a ele. Agradeço muito”. Ele a tirou da rua por três anos e meio, pagou cursos para suas filhas e deu um apartamento no Campo Belo para a família morar. Os dois até tiveram um filho juntos, que hoje tem sete anos. Bárbara conheceu Douglas em um momento em que ele estava sofrendo muito: a mulher enfrentava um câncer terminal e o filho mal conversava com os pais. A acompanhante explica que alguns clientes a procuram apenas para conversar e que Douglas foi um deles. Ao final do encontro ele disse: “Você é muito diferente das meninas que estão por aqui”. Trocaram telefones e fizeram uma vida juntos.

Quando sua mulher faleceu, ele pediu Bárbara em casamento, mas ela não aceitou. Isso não impediu que os dois continuassem cuidando um do outro com carinho. “Nunca foi um jogo de interesses. Eu estava ali para ele e tudo que eu precisava ele me dava” – era Bárbara quem levava Douglas, já com mais de 80 anos, ao médico, por exemplo. Quando o filho dele ficou sabendo da relação, separou os dois. Os dois nunca mais se viram. “Todo acompanhante tem uma história, mas ele foi o que mais me marcou”.

Bárbara conhece todos os clientes na rua, mas mantém uma agenda para aqueles que ligam e marcam horário. Entre os clientes que preferem a segunda opção cita um juiz e empresários estrangeiros. Estes normalmente se hospedam em hotéis e avisam a acompanhante, que vai a seu encontro. Mas a maioria encontra Bárbara em seu ponto, de carro. Os valores variam de acordo com o acompanhante e as condições de cada encontro. Quando ela não conhece o cliente, prefere receber o pagamento adiantado, mas com os de longa data, não se importa em receber através de depósito em conta. “São clientes de tanto tempo que já posso chamar de amigos”.

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Faz questão de usar preservativo e lubrificante em todas as relações sexuais, não importa o acompanhante nem a posição. “Só não se cuida quem não quer”, explica. A acompanhante frequenta o posto de saúde próximo de seu local de trabalho onde pega 110 camisinhas por mês, realiza exames de rotina a cada três meses e é atendida no caso de uma emergência – como uma camisinha rompida. Pergunto se os clientes aceitam bem todos esses cuidados e precauções: “Eles têm que aceitar. Dinheiro não é tudo. Saúde é mais importante”.

Hoje em dia já não se afeta quando é hostilizada na rua, mas conta que no começo sofreu muito. As agressões vinham de todos os lados: dos moradores da região, dos clientes e de carros que passam na avenida atirando desde xingamentos até garrafas com urina, nela e em suas companheiras. “Já levei muitas rasteiras”. Me conta dois episódios: em um, um cliente saiu do quarto levando sua bolsa e tudo que tinha dentro, no outro o homem que estava atendendo dentro de um carro roubou tudo que ela tinha e a abandonou nua no meio da rua. Bárbara diz que os clientes “estúpidos, grossos, ignorantes” e que estão ali para humilhá-la são apenas detalhes. “Eu tento entrar no jogo deles. Eu tô ali porque eu preciso. Se eles querem humilhar, faço de conta que não é nada. Depois eu choro, mas perto deles não demonstro. Muitos dão muita risada, eu rio junto com eles, brinco junto com eles. A gente vai levando”.

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Prefere trabalhar sozinha para evitar intrigas e escândalos, mas não se preocupa com a competição e deixa outras meninas ficarem por perto sem problemas. “Quem quer eu, quer eu. Quem quer a loira, quer a loira”. Se incomoda quando as companheiras falam muito alto ou usam drogas, principalmente por conta dos moradores da região, com quem se dá muito bem. Por isso, sempre que alguém aparece querendo trabalhar na sua região, deixa, mas por um tempo limitado. Depois, é cada uma por si. “Muitas meninas vêm aqui pra comprar drogas, roupas e serem bonitinhas. Mas muitas estão aqui pra cuidar dos filhos, das mães internadas”, conta, lembrando de uma amiga que trabalha para cuidar dos dois filhos, um recém nascido que está na UTI e outro de dois anos.

Nenhum dos filhos de Bárbara sabe que ela é prostituta. Para eles, conta que trabalha em uma empresa de transportes. Há sete anos deu uma entrevista que expôs sua profissão para a família, amigos e vizinhos – ficou completamente desmoralizada na região onde morava. “Quando alguém descobre perdemos totalmente o respeito, todo mundo acha que a gente não é um ser humano, que não temos sentimentos”. Por isso também não acredita no processo de regulamentação da prostituição. Diz só ter ouvido falar do Projeto de Lei Gabriela Leite proposto pelo deputado federal carioca Jean Willys, mas que não se vê recebendo auxílio do governo em um futuro próximo. “Pra todo mundo eu sou apenas uma safada, uma mulher de rua. Quem vai querer me ajudar?”.

Do ex-marido não quer nem um centavo. Depois de sair de casa, nunca mais conviveram, não quer cruzar com o homem nem atravessando a rua e nem trocar duas palavras. Pelo bem de suas filhas, não se importa que convivam com ele. “Ele judiou muito de mim, não vale a pena. Mas é pai delas né, se hoje elas não gostam dele, é por conta do afastamento que ele provocou”. As meninas têm entre 17 e 16 anos e não se dão muito bem com o pai.

O último a chegar na família foi o filho adotivo que ela cria desde as primeiras semanas de vida. Bárbara conheceu a mãe biológica e o menino um dia na feira. Eles moravam na rua e passavam por muitas dificuldades. “Ou eu pegaria ou ele morreria”. O processo foi bem peculiar, mas simples: quando Bárbara elogiou o bebê, a mãe perguntou se ela queria ficar com ele, a acompanhante respondeu que sim, mas só se o processo fosse registrado em cartório. Dito e feito: horas depois da conversa, a mulher passou em sua casa com o bebê em um braço e uma bolsa no outro. Dentro, todos os pertences do menino: um macacão, uma chuquinha, uma fralda e a certidão de nascimento.

A mãe de Bárbara a aconselhou a não ficar com a criança, mas ela não ouviu. Tinha certeza que ele era a resposta às suas preces por um filho menino. “Ele foi um presente de deus”. Na época não tinha relações com ninguém fora do ambiente de trabalho e portanto não podia engravidar. Seis anos mais tarde, está brigando na justiça pela guarda do filho, pois só tem a tutela. “Algumas pessoas falam pra ele que eu não sou mãe dele, ele fala que é mentira e que ele não quer outra mãe”, conta cheia de felicidade.

Bárbara faz questão de ressaltar que, para ela, prostituição sempre foi um trabalho – nunca “vadiagem”. Por isso não se envolve com ninguém, nem leva clientes para casa. Explica que aprendeu muitas coisas nesses doze anos que trabalha como acompanhante, mas que a lição mais importante foi humildade. “Depois de tudo que passei, aprendi a escutar as pessoas, a ser menos orgulhosa, mas principalmente a não confiar e a confiar, ao mesmo tempo”

Esse texto foi publicado originalmente na quarta edição impressa da Revista Vaidapé no sessão “Meu trampo”.

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