10 de março de 2015

Bárbara Sweet: ‘Seria interessante, no dia da mulher, que a gente se engajasse em debates mais profundos’

Foto: reprodução Facebook
Foto: reprodução Facebook
Em processo de gravação de seu primeiro disco, a rapper falou sobre a luta da mulher no hip hop, a importância do dia 8 de março e alguns caminhos para enfrentar a sociedade machista

Por Victor Santos na Revista Brasileiros

Bárbara Sweet, 28, vem de uma família católica. Sua primeira interação com a música foi no coral de igreja, com cerca de 10 anos. Não muito propícia ao ambiente eclesiástico, durou dois anos no grupo. Depois, formou uma banda com amigos e tocava em alguns bares de Belo Horizonte (MG). Nada muito sério, mas já fazia alguns improvisos.

Aos 13, foi a uma festa no centro da capital mineira, no extinto Estrela Night Club, um lugar pequeno e lá interagiu com o rap pela primeira vez. Encantou-se e começou a procurar diversas referências e pesquisar sobre o assunto.

Atualmente  conhecida na cena do hip hop não só por suas rimas, mas também por seu forte posicionamento feminista, ela está no processo de gravação de seu primeiro disco.

Com um filha pequena para criar, a Ciça, como é conhecida, Bárbara faz um grande número de shows e trabalha com arte e educação, levando a cultura hip hop e a discussão de gênero para as crianças. Ela também participa de alguns projetos como o Mina no Mic, que visa fortalecer a ocupação feminina nas batalhas de rap e na cena do gênero que consagrou Dina Di.

Veja abaixo Bárbara Sweet na tradicional batalha da Santa Cruz:

Sweet falou à reportagem da Brasileiros por telefone: “Olha, meu celular tá com 5% de bateria, mas estou no busão chegando em casa. Se cair a gente continua depois”, alertou. Felizmente não fomos interrompidos e a conversa contemplou a cena do hip hop, o feminismo e o Dia Internacional da Mulher, entre outros assuntos. Sobre o 8 de março, afirma: “Acho que a sociedade lida com isso de forma hipócrita. Seria interessante, no dia da mulher, que a gente se engajasse em debates mais profundos, como o aborto e o feminicídio”.

Leia íntegra da entrevista:

Brasileiros: Fale sobre sua primeira interação com o rap?

Bárbara Sweet: A primeira vez que fui no rap me identifiquei com o som, a música, a festa, a dança e fui absorvida. Comecei a ouvir muito e pesquisar. Naquela época não tinha internet, a gente traficava muito a fitinha cassete, um pro outro. Nesse esquema eu ouvi, pela primeira vez, Wu Tang Clan, Racionais Mc’s, Dina Dih, Detentos do Rap, 509-E, RZO, que era o que mais rolava na época.

Quando começou a rimar?

Com 15 ou 16 anos, conheci uma galera fazendo uma rodinha de rima. Eu nem concebia que aquilo se chamava Freestyle. Achei legal, cheguei junto, de forma suave, e fiz uma rima. Numa festa que fui, chamada Um Bom Lugar, a gente estava no trilho do trem e uma galera começou a rimar e fazer freestyle, aí entrei pra rimar de boas assim. Mas eu estava treinando pra caramba (risos). Lá, conheci uma galera do rap mesmo, que começou a me convidar para estar mais presente. A partir desse momento, comecei a pesquisar mais sobre a cultura hip hop, não só o rap.

Como foi sua entrada no rap, ainda mais numa época que esse gênero vivia uma hegemonia masculina bem sedimentada?

Era muito mais escroto do que é hoje. Nunca participei de grupos de rap com caras e mulheres, mas tenho amigas que participaram e muitas não podiam nem sequer escrever as próprias letras. Tinha muito homem que falava: ‘vai lá, escreve, depois eu vejo se está bom, mas agora você vai cantar isso aqui’. Ou então não deixava rimar, só cantar o refrão. O rap, em si, era um espaço meio misógino. A gente não ia de roupa de mulher, ia disfarçada de “mano”, calça larga e tal. Não só pela estética do hip hop, mas por uma questão de segurança até. Pelo menos em BH, na década de 1990, não era bem visto uma mulher de saia numa festa de rap. Até pelas mulheres. Os primeiros anos que passei no rap, ouvi muita bosta de nego que, hoje, é até grande no rap. Coisas do tipo ‘mulher no rap é bandida ou mulher de bandido, se não é vagabunda’. Ouvi isso de caras que, para mim, eram ícones do rap. Acredito que isso, de certa forma, afastou muitas mulheres.

Vi, nas redes sociais, uma postagem sua que falava das batalhas de rap como uma forma de poder da mulher. Como é isso?

Eu comecei a batalhar muito depois de rimar. Já tinha participado de projetos e fiquei parada porque eu tive a minha filha. Aí entrei na crise de conciliar a filha com o sonho da música, que também é trabalho. Batalhei em 2008, logo depois que eu tive a Ciça, e foi bem brutal. Recebi muitos ataques ao meu corpo, peitos, todas aquelas coisas da batalha. Para mim foi muito duro. Estava num processo de questionamento muito grande do meu corpo. Não fiquei chateada, fiquei receosa em voltar. Eu não me sentia preparada para tomar aquelas pedradas. Fui voltar a batalhar, em 2012, 2013, já encarando isso como uma visão diferente. Eu não podia tomar aquilo pra mim. O que meu adversário falava não era para mim, era para qualquer um que pisasse ali, isso que tinha que ser feito. O que me fortaleceu. Primeiro em saber encarar qualquer público e fazer meu papel, em cima de qualquer beat ou de beat nenhum. O que me fortaleceu como mulher. Quando um MC era ofensivo comigo eu sentia que não era pessoal, era para atacar as mulheres, o gênero. Foi bom para mim, eu sabia que não respondia só por mim, mas por muitas. Eu não estava me posicionando, eu estava nos posicionando. Não tinha mulher nas batalhas de BH e do Brasil inteiro. Isso me incomodava, porque até quando a batalha é entre homens, os ataques são “mulherzinha”, que a voz é fina, sua namorada é isso e sua mãe aquilo. Tudo girava em torno de um elemento feminino. Eu ficava pensando: ‘Caralho, se fosse comigo esse cara não ia ter “colhão” pra falar isso’. Foi esse sentimento que me levou a batalhar de novo e eu acho que é um processo de fortalecimento muito grande. Xingamento e escrotisse da sociedade machista tem todo dia. No ônibus, na rua, trabalho, família, relação afetiva, mas na batalha pelo menos tem um minuto pra responder. No mundo real não tem nada.

Hoje você é referência dentro do feminismo. Como foi essa construção?

Acredito que o feminismo mora dentro de todas as mulheres, a gente se descobre dentro dessa palavra ao longo dos anos. Temos isso de não acreditar nos padrões e sim na própria liberdade. O feminismo entrou na minha vida em 2012. No início do ano, eu saí de uma relação bem abusiva e nesse processo de terminar, ficar mal, eu comecei a buscar alguma coisa que me ajudasse. Nisso, topei com alguns blogs, escritoras e fui me interessando cada vez mais pelo feminismo em si, não por um ideia acadêmica de feminismo. Me comuniquei com outras mulheres e fui construindo esse conhecimento mais específico também, acerca das diversas correntes do feminismo e das lutas. Não tenho vergonha de falar que conheci o feminismo pela internet, como feminismo mesmo. Militar pelas mulheres eu fiz desde que eu pisei na terra.

Fala então de algumas influências.

Eu lia a Clara Averbuck, do blog Lugar de Mulher, a Jarid Arraes, da Revista Fórum, com quem aprendo muito sobre feminismo negro, e livros da Simone (de Beauvoir), e de outras escritoras clássicas. Mas acredito que a descoberta do feminismo se dá no dia-a-dia. As mulheres se conectam e conversam. Ao apoiar uma outra mulher que passou por diversas situações, que eu ou muitas outras mulheres já passamos, para mim é muito mais feminismo do que estudar sobre isso na faculdade. Muito mais que corrente ideológica, vejo o feminismo como algo natural.

E o papel do homem dentro do feminismo?

É difícil, esse assunto não tem consenso no movimento feminista. Eu não acredito em homem feminista. Do mesmo jeito que sou branca e nunca senti a opressão aos negros na pele, eu não posso me apropriar dessa luta. Eu apoio, corrijo se alguém próximo de mim é racista. Acho que o papel do homem no feminismo vai por esse lado, de aproveitar espaços estritamente masculinos, como aquela pelada, pra desconstruir preconceitos. Vejo muitos caras batendo no peito, se dizendo feministas, e compartilhando vídeo íntimo de mulher no whatsapp, falando que a mina é isso ou é aquilo por ser livre sexualmente. É muito difícil ir contra seus privilégios. Acho que o papel do homem é desconstruir a si mesmo, o coleguinha e tratar com respeito todas as mulheres a sua volta. É difícil porque dentro dos movimentos feministas, quando tem homem, eles sempre tentam tomar o protagonismo. Acho que essa união é importante, eu me relaciono com homens e acredito que tem que ter solução. O racismo, por mais que esteja presente na sociedade, é feio ser racista. O machismo ainda é motivo de orgulho para alguns caras. Na verdade são coisas bem parecidas.

Como você enxerga a existência de um dia para a mulher dentro dessa nossa sociedade machista?

É difícil porque eu acho importante esse dia. Debates são promovidos e a gente discute bastante. Mas é pouco. É como falar do Dia da Consciência Negra. Não pode ter um dia, isso era para ser algo coletivo e contínuo. A data é importante pela história que carrega mas eu gostaria que esse debate e a procura artística pelas mulheres se desse diariamente. Eu queria que essa valorização dos trabalhos artísticos femininos durasse o ano inteiro, não ficasse focado em março. Eu acho bom sempre tem as marchas, uma oportunidade pra conhecer várias mulheres, de várias realidades, que também estão na militância.

E a sociedade, como você acha que ela lida com esse dia?

Acredito que a sociedade lida com muita hipocrisia. Você passa na rua no dia 8 de março e vê as pessoas distribuindo flores para as mulheres e no resto do ano vêm apedrejando pela roupa, corpo, cabelo, trabalho. Seria interessante no Dia da Mulher um engajamento em debates mais profundos, como o aborto o feminicídio, e não essa história de ‘Ai, as mulheres são lindas’. Além disso, quando se justifica uma atitude machista, falam que o cara não tem mãe. Mas a verdade é que mãe não é mulher pra ninguém. Tem aquilo da divindade extrema e o resto são “só” mulheres. Acredito que o dia ainda tem um caráter bastante maternal. Mãe é algo maravilhoso mas isso limita muito. Ao mesmo tempo, eu vejo cada vez mais organização. Aqui em BH, por exemplo, estamos fazendo uma mostra de feminismo, arte e resistência, três dias com diversas mulheres. Um espaço aberto para todos os gêneros e trazemos esse diálogo para a sociedade. Se criou um mito que as feministas são uns monstros, que querem cortar o pinto dos caras. A gente vai conversar e ouve até de mulheres que se dizem a favor da igualdade mas não são feministas. São muitas dúvidas, trazer essa parte da organização das mulheres pode desmistificar essa palavra.

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