13 de março de 2015

Brasil Barraca | Do outro lado da ilha

Entre o turismo e a tradição: As comunidades caiçaras

Por João Previ / Fotos: Fifo

Não é tão longe do continente. É só esperar entre 15 ou 20 minutos na travessia da balsa para chegar a uma das maiores ilhas da costa brasileira. Lá estão 3% do pouco que sobrou da Mata Atlântica. Das florestas que se estendiam por 17 estados da costa brasileira, hoje só restam 8,5% do total. Com mais de 250 cachoeiras, a ilha também tem uma das maiores reservas de água doce fora do continente. Por entre as árvores, a diversidade da fauna e flora nativas resistem, tendo suas trilhas visitadas por turistas do mundo inteiro. Mas, são os caiçaras que enriquecem a Ilha Bela.

Passamos os primeiros dias conhecendo as praias mais próximas ao continente, até mesmo pela facilidade de acesso. Os moradores que encontramos por essas praias eram de fora, principalmente mineiros de falar arrastado. As facilidades dos restaurantes e comércios também atraem os turistas da capital paulista, que em geral vão de carro. À primeira vista, aquelas praias pareciam espelhos do que encontramos no continente.

Do lado oposto da ilha se esconde uma verdade menos conhecida. Passando por uma longa trilha de terra batida, onde poucos carros se arriscam a andar pelos buracos e rios que cruzam a estrada, encontramos um local paradisíaco. Fifo monta sua barraca de frente para o mar, não mais que 60 passos dele. O fotógrafo, de cabelo bagunçado e barba por fazer, está há seis anos viajando. Durante os três meses que ficou na praia de Castê, pôde realizar um extenso trabalho fotográfico da cultura local e conhecer a comunidade caiçara que resiste naquele pedaço de terra. Isso, é claro, além de acumular algumas marcas dos mosquitos borrachudos que encontram fartos banquetes nas pernas de quem por ali chega.

“Sabe maninho, a primeira coisa que a gente tem que entender é o tempo em que eles vivem. Esse tempo não é necessariamente medido pelo relógio, ou os dias pelo calendário. Quem não bate cartão não sente a segunda-feira”, conta Fifo.

Os meses, por sua vez, não são calculados pelo último dia útil ou pelo início das férias. As marés e épocas do ano definem as prioridades da comunidade, onde a economia gira em torno da natureza. A pesca e o cultivo de pequenas roças são as principais fontes de renda dos locais, sendo o turismo um complemento não menos importante. Fifo ressalta a beleza do cotidiano caiçara. “De modo geral, eles vivem muito bem. Prezam pela qualidade de vida e o mar provê grande parte da renda.”

Os meses, por sua vez, não são calculados pelo último dia útil ou pelo início das férias. As marés e épocas do ano definem as prioridades da comunidade, onde a economia gira em torno da natureza. A pesca e o cultivo de pequenas roças são as principais fontes de renda dos locais, sendo o turismo um complemento não menos importante. Fifo ressalta a beleza do cotidiano caiçara. “De modo geral, eles vivem muito bem. Prezam pela qualidade de vida e o mar provê grande parte da renda.”

 

INFRA-CAIÇARA

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Se por um lado as construções ainda guardam a história da praia, a tradição oral se ocupa de suas origens. A comunidade costuma ser bastante fechada aos visitantes, já que a praia está fora do moderno cardápio turístico que se tornou o litoral norte paulista. Mas os três meses que Fifo passou no local deram tempo ao tempo que ele precisava para conhecer um pouco mais daquela cultura.

“Eles contaram que antigamente havia um tráfico de escravo clandestino na região. Os escravos chegavam e, para não ir direto para o continente, eles entravam por Castê e levavam os escravos pela mata. Tudo isso para escapar de qualquer custo a mais, como impostos. Os mercenários passaram a plantar bambu para poder construir toda estrutura necessária para o controle do tráfico de pessoas.”

Parte desse sistema de construção permanece até hoje, várias casas são feitas de pau a pique. Em geral, os próprios moradores constroem suas residências utilizando um tipo específico de barro para erguer as estruturas, além de fazer uma liga com bambu. O chão é de barro batido, um pequeno refresco para os pés nos dias quentes. A maioria dessas casas também não tem energia, e aquelas que têm utilizam geradores elétricos.

“Às vezes eu ia nessas casas com gerador e tinham várias famílias reunidas para ver TV. Esse é mais um elemento de união da comunidade. Lá é assim, se você solta um peido, toda a comunidade tá sabendo”, ironiza.

Saindo pelas ruelas da vila de Castê, as histórias das crianças são, em sua maioria, escritas nas mesmas linhas que as histórias de seus pais. A educação está restrita a uma pequena escola, que oferece apenas o ensino básico para as comunidades próximas. Com a dificuldade em continuar os estudos, a maioria dos caiçaras dá continuidade a profissão que aprende na família: se o pai tem um mercadinho, ele vai trabalhar no mercadinho; se o pai tem uma roça, ele vai para a roça; se o pai tem um cerco, ele vai para o cerco.

Fifo ouviu, durante os três meses que esteve na ilha, histórias de vida muito semelhantes entre si. “Dificilmente os filhos dos caiçaras têm outras profissões. Eles ficam ali, casam cedo e já buscam um lugar para construir suas casas.”

COTIDIANO
Os peixes são comercializados em pequenas vendas da comunidade e, quando a maré favorece e Yemanjá abençoa, eles revendem no centro de Ilha Bela. Em geral, as canoas voga são as mais utilizadas. Construídas com um único tronco de árvore, levam de três a quatro meses para ficarem prontas. O processo começa quando eles entram na mata para retirar a madeira e acaba quando eles conseguem retirar do ateliê onde ela é entalhada. Muitas já possuem um pequeno motor, que é utilizado na cerca, um sistema de pesca que utiliza o canal e a maré como formas de pegar o maior número de peixes possível. Coexistem ali vários tipos de cerco, alguns mais perto do continente, outros do costeiro.

A maior parte das comunidades vive do sistema de pesca. Em pequenos grupos, eles chegam a verificar a rede até cinco vezes por dia para garantir que os peixes não escapem. O sistema acaba funcionando como um ponto de taxi, em que cada um tem o seu e cada família tem seu lugar.

Não é qualquer um que pode chegar lá e ocupar, por isso não são raras as discussões entre os próprios moradores pelos melhores locais. Nas praias ao redor de Castê, grande parte dos moradores é evangélico. De um modo geral, a igreja chegou com força nessa região onde a predominância original estava em um catolicismo que aceitava diferentes elementos de outras religiões. Socialmente, a praia tem certa divisão entre quem é evangélico e quem não é. As gerações de caiçaras acabam refletindo essa disputa religiosa. Enquanto os mais velhos são muito apegados a essas instituições, os mais novos já tentam quebrar essa barreira, mesmo com a pressão dos pais em seguir na igreja.

Encontrar um baseado por aqueles lados também não é tarefa fácil e acaba sendo um assunto com os moradores adeptos do fumacê. E com evangélicos ou não, Fifo não achava muita dificuldade em encontrar alguém para completar a roda. “A maioria do pessoal com que eu falei fuma. Aí divide: vários evangélicos fumam, mas na escondida, enquanto os outros fumam na cara dura mesmo.”

JEITINHO

Se por um lado a dificuldade da acessibilidade alimenta um estilo de vida diferente, por outro ela transforma até ações cotidianas em desafios a serem superados. As principais queixas que Fifo escutou da comunidade eram relacionadas ao descaso (seletivo) da prefeitura. “Alguns pais com quem eu tive mais contato reclamavam muito da dificuldade que seus filhos enfrentam para chegar à escola.”

No caminho entre as casas e as salas de aula tem um pequeno rio. Quando chega a temporada de chuvas, o rio enche e muitos alunos não conseguem atravessar. O prefeito, um pouco mais interessado na temporada dos turistas, queria construir uma ponte na trilha para Castê, só para os carros terem acesso até a areia.

“Muitos caiçaras ficaram revoltados com a situação. Um dia eles se reuniram e derrubaram uma parte que estava sendo feita. Depois de muita discussão com prefeitura e outras instituições, acabaram construindo só uma passarela para os pedestres e abriram uma pequena clareira de estacionamento antes do rio. Se os carros passassem esse rio, toda sujeira ia junto”, conta.

Com a exceção dos barcos, os caminhos entre praias são feitos por trilhas. Abrir e manter esses espaços abertos são trabalhos diários para os caiçaras, por isso, eles em geral andam com facas e facões. E como todos os moradores andam de certa forma armados, Fifo chegou a presenciar conflitos onde a lei do mais forte prevalecia.

“Nesses lugares, como não tem muito lazer para a galera, eles gostam muito de beber. Isso é até perigoso. Tiveram brigas entre os nativos que eu vi eles resolvem tudo entre eles, sem lei.”

O sistema de saúde é outro problema enfrentado pelos caiçaras. O único local com o mínimo de estrutura fica no centro de Ilha Bela. Se alguém se sentir mal naquele lado da ilha, terá que enfrentar três horas dentro das canoas voga, ou ir de barco até Castê e andar mais uma hora e meia de carro. Durante os três meses que Fifo ficou ali, nenhum médico ou enfermeiro passou perto. Talvez até tivesse algum profissional do jaleco bem próximo, em um dos grandes barcos que navegam por ali.

O caiçara guarda, nas mãos calejadas e pele queimada, uma história da Ilha. Ocupa o mesmo espaço que seus avôs conquistaram ao sobreviver e se multiplicar, apesar das dificuldades que a natureza e o homem impõem. E mais do que resistir aos avanços da modernização ou se prenderem a tradições centenárias, aqueles homens e mulheres se preocupam em navegar suas canoas vogas até o dia seguinte, já que quem é do mar não enjoa.
E nós, quem fotografa e quem vos escreve, não conseguimos ver nada mais bonito que isso.

Esse texto foi publicado originalmente na quarta edição impressa da Revista Vaidapé na sessão “Brasil Barraca”.

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