25 de março de 2015

‘Dança rainha, vassalo e escravo’

Do nordeste à zona oeste o maracatu ainda pesa uma tonelada

Por  Carolina Ribeiro e Natália Mota
Fotos: Fernando Netto, Julia Mente e Natália Mota

O conceito de nordeste atrasado, seco e amargo, além de ingrato, fere uma tradição. É tanta história, cultura e alegria que o nordeste não cabe em si. Sua poesia transborda, excede suas fronteiras e, oxente! Até em São Paulo grupos como o Bloco de Pedra, Caracaxá e Coro dos Carcarásrepresentam o maracatucar de todo uma povo.

A história do nosso país e do maracatu se misturam. A essência dessa tradição pernambucana está diretamente ligada ao processo de colonização do Brasil. Povos africanos, acorrentados e escravizados, em meio a tanta dor e sentimento de impotência, encontraram na alfaia, na caixa, no gonguê, no agbê e na dança uma saída para limpar a alma suja pelo cotidiano fatigante.

Há inúmeras histórias e interpretações acerca de seu surgimento, mas, em suma, o que se sabe é que o maracatu ganhou existência a partir das coroações de reis do Congo. Esses existiam como autoridade policial, que intermediavam o poder do Estado Colonial com as nações de origem africana. Com o tempo surgiram muitas manifestações culturais em torno dessas representações sociais, dando origem, por exemplo, ao Maracatu de Baque Virado, um dos mais antigos das terras tupiniquim.

Nações (grupos tradicionais de maracatu) como a Estrela e Porto Rico (Recife – PE), são exemplos da raiz dessa cultura musical, que espalha seus ramos pelo Brasil, carregada de uma bagagem histórico-cultural riquíssima em detalhes. Toda Nação tem seu repertório reproduzido por outros grupos, que encantam todos aqueles que pararem para notá-los. A tradição se mantém viva da organização dos blocos às músicas, e, como diz a canção: “dança rainha, vassalo e escravo”.

Em São Paulo a cor, a música e o ritmo do maracatu contemplam as raízes da África e funcionam como válvulas de escape para o cinza da cidade. Na zona oeste, os grupos Caracaxá e Coro de Carcarás realizam ensaios abertos na Universidade de São Paulo para quem quiser provar um pouco dessa tradição secular. Os Carcarás cantam todas as quartas e quintas-feiras às 12h e o outro nas quintas-feiras a partir das 20h. A entrada para ambos é livre e sem custo.

O grupo também oferece oficinas abertas todos os sábados às 15h na rua Alves Guimarães, em pinheiros. A entrada também é livre e sem custo.

Em conversa com um dos integrantes do Bloco de Pedra, também na zona oeste, a seguinte pergunta foi lançada: “Qual o significado do maracatu para você?”. Com muito amor nas palavras, ele respondeu: “Eu tinha problemas familiares, meus filhos me agrediam e eu acabei transferindo para o Bloco todos os meus sentimentos bons. E olha, eu já conheci muita gente que encontrou no maracatu uma saída para seus problemas. Já vi gente superando o alcoolismo, as drogas, as decepções de vida, tudo isso sendo deixado para trás e abrindo espaço para o batuque”.

O grupo também oferece oficinas abertas todos os sábados às 15h na rua Alves Guimarães, em pinheiros. A entrada também é livre e sem custo.

Os encarregados pela dança, na vanguarda do bloco, são responsáveis por espalhar a energia através de adereços em suas cabeças e muito molejo. Então dancemos! “Vem meu rei, embaixador e princesa também!”

Confira outros blocos em SP e o mapeamento feito pelo portal maracatu.org:

Zona leste | Maracatu Porto de Luanda

Zona sul | Mucambos de Raiz Nagô | Maracatu Ilê Alafia

Mapeamento | Clique aqui

Confira mais fotos:
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