20 de março de 2015

Ortellado: ‘200 mil pessoas de classe média mobilizadas é extremamente assustador’

Professor da USP analisa atual cenário político do Brasil, aponta para poder de manipulação da mídia e força da classe média alta

Por Henrique Santana

Pablo Ortellado, professor doutor do curso de Gestão de Políticas Públicas e orientador no programa de pós-graduação em Estudos Culturais da USP (Universidade de São Paulo), trocou uma ideia com a Revista Vaidapé sobre a atual situação política do Brasil.  “Se eu tenho 200 mil pessoas de classe média mobilizadas na rua, isso é extremamente assustador, porque elas são muito mais poderosas do que 200 mil trabalhadores. São pessoas que tem acesso a recursos, tem influência política.”

O professor problematizou a suposta dicotomia da conjuntura política no país e criticou a atitude dos setores de esquerda de desqualificação do ato do último domingo (15). “É uma leitura equivocada dizer que, já que quem estava mobilizado era de classe média alta – principalmente – a insatisfação com o governo está restrita a esse setor”, pontuou.

Ortellado costurou uma análise, que passou de junho de 2013 ao 15 de maio de 2015, sobre a cobertura midiática, o caráter das manifestações e a atual posição da presidenta Dilma Rousseff.

Leia a entrevista:

Vaidapé: A cobertura midiática das manifestações mudou das jornadas de junho para cá?

Pablo Ortellado: Eu acho que os órgãos tiveram posturas muito diferentes na cobertura das manifestações do dia 15. Os dois órgãos que chamam atenção, que tiveram uma atuação mais forte, foram a Revista Veja e a Rede Globo. Esses dois veículos agiram de uma maneira muito parecida com o que aconteceu na terceira semana de junho de 2013. Ou seja, na terceira semana de junho de 2013, tanto a Veja quanto a Globo, atuaram para mudar a pauta da manifestação. Atuaram inflando setores muito minoritários, naquela época, fazendo com que a pauta se dispersasse. Dessa vez, eles não precisaram atuar na mudança de pauta, mas eles atuaram inflando e divulgando bastante a manifestação, de uma maneira, no caso da Globo muito gritante ao ponto do Globo News ter ficado 8 horas no ar cobrindo – cobrindo entre aspas, cobrindo/convocando – de maneira ininterrupta; inclusive, sem intervalo comercial.

VDP: Você postou na sua página do Facebook que “20 de junho de 2013 vai ficar na história como um ensaio para o 15 de março de 2015”. É nesse sentido da Globo tentar conduzir a pauta das manifestações?

PO: É uma tentativa, o que havia de diferente é que em junho era uma manifestação que tinha sido convocada pela esquerda, que tinha uma demanda muito precisa e ela atuou para tentar reorientar essa manifestação, sobre-expondo tendências minoritárias. Dessa vez ela não precisou fazer isso, porque ela já estava de acordo com a natureza da manifestação. O que ela fez foi simplesmente divulgar e sobre-expor uma mobilização. A Globo fez isso e a Veja também fez isso de uma maneira muito aberta, mas nos outros meios de comunicação não vi esse padrão de uma maneira tão clara.

VDP: Em junho de 2013, essa estratégia da Rede Globo deu certo?

PO: Eu acho que deu errado para a Rede Globo. Se houve de fato uma tentativa deliberada de divulgar a pauta das manifestações, essa tentativa foi mal sucedida. Porque, quando a gente acompanha os números, todas as pesquisas que foram feitas naquele período mostraram que as pessoas estavam na rua por outras coisas. Ou seja, que a pauta de fato havia se ampliado, mas, em primeiríssimo lugar, as pessoas estavam ali para redução das passagens. E foi essa centralidade da demanda pela redução do preço das passagens do transporte público que permitiu que junho de 2013 fosse uma grande vitória. Pesquisa da Folha mostrou que 70% dos brasileiros tiveram redução no preço das passagens.

VDP: Como você enxerga a liberação das catracas do metrô no ato do dia 15?

PO: Escandaloso. Aliás, têm duas coisas escandalosas na cobertura da imprensa fora da Globo. Embora eu ache que os outros meios de comunicação não tenham agido de maneira tão abertamente política e manipuladora – como a Globo e a Veja – eu acho que os outros meios pecaram muito por não denunciar isso. Eu acho que é uma noticia extremamente relevante o fato de o principal grupo de comunicação do Brasil estar abertamente conclamando as pessoas a participarem de uma manifestação pública. Assim como é abertamente escandaloso todas as ações que o governo estadual de São Paulo teve no apoio à manifestação. Ele inflou o número de manifestantes. Se a gente comparar com a medição do Datafolha, a PM multiplicou por cinco a estimativa do número de pessoas; ao passo que, na manifestação do governo, ela dividiu por quatro. Isso não recebeu nenhum destaque nos meios de comunicação.

Dois meses atrás, uma manifestação com “catracaço” do Passe Livre foi reprimida com bombás de gás lacrimogêneo dentro do metrô, um ambiente fechado, o que é uma atitude completamente irresponsável. Como é que a mesma empresa trata essas duas situações de maneira completamente diferente: em uma libera automaticamente as catracas sem que as pessoas pulem; na outra, quando as pessoas pulam a catraca, ela reage com uma violência desproporcional, arbitrária e quase criminosa. Esse duplo padrão era notícia e os meios de comunicação não cobriram.

VDP: Existia um perfil claro dos manifestantes no dia 15?

PO: Tinha. Eu acho que a minha observação foi totalmente confirmada pelas pesquisas que surgiram, do Datafolha e em outros lugares do Brasil: teve pesquisa em Curitiba, teve duas pesquisa em Porto Alegre. Elas deram um perfil muito semelhante: uma diversidade etária, uma homogeneidade de classe e de formação escolar. Então o manifestante típico era da classe média alta e tinha educação superior.

VDP: Em um vídeo do ativista da Favela do Moinho, Caio Castor, ele entrevista um motoboy de Pedreira e três moradores do Jardim Ângela. Apesar de exceções – como indicou a pesquisa do Datafolha – você acha que essa amostra evidencia alguma coisa?

PO: Eu acho que é uma leitura equivocada dizer que, já que quem estava mobilizado era de classe média alta – principalmente – a insatisfação com o governo está restrita a esse setor. Isso obviamente não é verdade. Mas são duas questões diferentes. Uma questão é sobre quais setores estão insatisfeitos com o governo, outra é quais setores estão mobilizados. Embora tenham tido essas exceções que o Caio captou no vídeo dele, eles eram muito excepcionais. Chamava atenção o grau de homogeneidade ali. Parecia, realmente, que você estava em um bairro de classe média alta de São Paulo. Que você estava em Higienópolis, Vila Mariana, Perdizes, Vila Madalena

VDP: Nesse mesmo vídeo, houve um grande rechaço de setores da esquerda à declaração de uma menina que se diz de direita e não sabe direito o porquê. Como você viu a reação da esquerda ao dia 15.

PO: Houve muitos tipos de reação. Mas a reação predominante, que foi de desqualificar, falar: ’isso é coisa da classe media alta, isso é coisa sem importância’, me parece bem equivocado por vários motivos. Em primeiro lugar: o fato de ter grande mobilização concentrada na classe média – na antiga classe média, a classe média profissional – não significa fraqueza do movimento, significa força. Se eu tenho 200 mil pessoas de classe média mobilizadas na rua, isso é extremamente assustador, porque elas são muito mais poderosas do que 200 mil trabalhadores. São pessoas que tem acesso a recursos, tem influência política. Isso não é uma fraqueza, isso é uma força do ponto de vista político. Em segundo lugar: houve uma confusão, acho eu, entre as pessoas que estão mobilizadas e as pessoas que estão insatisfeitas. O fato de que, por motivos da dinâmica social do protesto, a mobilização tenha se concentrado na classe média alta, não significa que a insatisfação está concentrada lá. Todas as pesquisas têm mostrado que ela está atravessando todas as classes sociais de uma maneira mais ou menos equilibrada hoje. Isso significa que o potencial de mobilização para as outras classes sociais está ai, pode ser explorado e talvez venha a acontecer nos próximos messes. A situação é muito preocupante.

VDP: Como você viu o pronunciamento da presidenta após as manifestações? Com quem ela estava dialogando?

PO: Ela teve a mesma reação que ela teve em junho. Ou seja, ela falou: ‘A reivindicação de vocês é valida. É sobre corrupção? Eu vou dar a minha resposta’. E apresentou a agenda dela para aquela questão. Foi o que ela fez em junho com os cinco pontos, falou: ‘A reivindicação de vocês é valida. Eu vou oferecer uma resposta’. E ela pegou os cinco pontos do programa dela e ofereceu como resposta. Ela está fazendo a mesma coisa aqui com o pacote anticorrupção. É a resposta dela. Acho muito difícil os grupos que estão mobilizados da direita se satisfazerem com isso. Acho que isso vai ser uma medida inócua.

VDP: O golpe militar é uma ameaça nesse momento?

PO: Não, de jeito nenhum.

VDP: Qual a análise que você faz da conjuntura política nesse momento?

PO: Das coisas que eu ainda não falei, o que mais me preocupa é o isolamento político da presidente. Ela fez uma campanha mobilizando a esquerda, ganhou apoios de importantes setores da esquerda, fez uma campanha defendendo os ganhos sociais para os grupos populares. Uma vez eleita, ela deu uma virada na política econômica, implementando uma política econômica extremamente liberal, com corte nos direitos dos trabalhadores e aumento de tarifas publicas. Isso fez com que a esquerda, que tinha apoiado ela na disputa eleitoral, tirasse o apoio. Essa retirada de apoio de setores da esquerda coincidiu com o ataque da direita, então ela está em uma situação de grande isolamento. Se os grupos de direita conseguirem consolidar esse nível de mobilização, que é o esforço deles, ela vai estar em uma situação muito mais difícil do que a do Maduro, por exemplo. Porque, se você olhar, o Maduro  está em uma situação extremamente polarizada, mas com apoio da esquerda e dos grupos populares. Ela está perdendo as duas coisas. Ela só tem o pt, na verdade, ela tem um pedaço do PT, porque tem um pedaço que está bastante insatisfeito com as políticas que ela tem adotado. Então é uma situação de muita instabilidade política e de muita incerteza.

Confira também a entrevista com Pablo Ortellado no projeto C.O.P.A, iniciativa da Vaidapé durante a Copa do Mundo de 2014, clicando aqui.

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