10 de março de 2015

A malucada vem ai!

 Documentário “malucos de estrada II – Cultura de BR” estréia no youtube. Malucada busca reconhecimento e se organiza para ir até Brasília


Por Giovanna Fabbri e João Previ
Fotos: Duda Gulman e Talitha Arruda

As fotos estavam espalhadas na grade do parque Trianon. Apressados que passavam pela Avenida Paulista paravam para ver um dos únicos lugares onde a arte está disponível a todos. Em pé ao lado da exposição, o artista e diretor Rafael Lage convidava todos para descobrir um pouco mais sobre os malucos de BR. Ele acaba de lançar no youtube o documentário “Malucos de Estrada II – cultura de BR”.

O filme foi gravado durante cinco anos em 19 estados do Brasil. Em cima de uma bicicleta, Rafael andou por estradas e rodovias para encontrar os diferentes malucos que fazem parte do documentário – malucos, e não hippies, como fazem questão de deixar claro nas entrevistas – com o propósito de romper com a estigmatização desse estilo de vida.

Rafael Lage
Rafael Lage

Entre o verde, sob a areia, cercado pelo cerrado, ou em qualquer outro caminho que a estrada levar, os malucos da BR fazem suas historias e suas famílias conforme as experiências de uma vida guiada pela liberdade e simplicidade. Seja através da troca ou do popular mangueio – chamar a atenção e a apresentação do trabalho – a malucada promove um intercâmbio cultural com todos.

Os malucos dialogam com todos os setores da sociedade. Aliás, com todo tipo de gente. Essa é uma das causas para o crescimento do movimento desde a ditadura militar: ter espaço, ser ouvido. Segundo Rafael, não foi só a ideia da contracultura que atraiu muita malucada para as BR’s. “Muitas pessoas estão condenadas a seguir um padrão de vida ou até morrer antes dos 20 anos na periferia. Por isso, viver como maluco tornou-se uma alternativa, e não acho menos digno por isso”.

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Piauí

Um abraço e uma fala interrompem um pouco a entrevista. Paiuí, outro maluco que já foi entrevistado pela Vaidapé chega para acrescentar: “Já conheceu essa molecada? Pessoal é massa!”. Rafael e Piaui, ligados por uma mesma família, tiveram origens diferentes. Enquanto o primeiro vem de uma família de classe média mineira, o segundo nasceu e foi criado até os 14 anos em uma cidade do interior nordestino.

Ainda que separados pelos milhões de quilômetros que cortam o mapa brasileiro, os aproximadamente 20 mil malucos de BR – segundo o próprio diretor – se consideram uma família. Nas pedras de maluco, as refeições são compartilhadas e em momentos de dificuldade, a união mantem vivo o movimento. Mesmo se identificando como uma cultura, cada um se expressa de uma maneira única.

As características são individuais, mas o movimento é o mesmo. “Maluquês é quem decide ir contra um padrão. E os malucos não são os donos, mas sim os guardiões desse pensamento”, esclarece Rafael. Infelizmente, a opressão e a falta de reconhecimento ainda são motivos de luta. Casos como a expulsão da rua e apreensão, não só dos panos como também dos instrumentos e matérias primas, revelam como mesmo após o fim dos anos de chumbo o poder público ainda não superou antigos preconceitos da ditadura. A luta é pelo reconhecimento da expressão artística.

Ser maluco está também nas pequenas ações, indo contra o sistema no cotidiano. “Sabe pessoal, tem muito maluco morando aqui na cidade também”, afirma Piauí, que antes de nos encontrar conversava no vão livre do MASP com 3 homens de terno e gravata. Rafael Lage lembra ainda que as trocas e vendas realizadas também são uma forma de resistência frente uma sociedade que tende a atribuir valor a tudo.

Além da resistência presente em suas exposições diárias, Piauí e Rafal se empolgam a falar dos próximos passos: “estamos nos preparando para ir ao ministério da cultura e fazer um movimento lá em Brasília. Estamos esperando um convite do ministro, mas se não tiver convite, iremos da mesma forma. Vamos formar uma pedra de maluco na porta do palácio e exigir o reconhecimento do IPHAN [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional] como um patrimônio imaterial brasileiro. Além das artes, faz parte da nossa cultura a ideia, os códigos, os apelidos, e o modo de trabalho”. Ainda sem data, o movimento tentará juntar gente de todo o brasil. “Vai ser o encontro nacional da malucada”, brinca Piauí.

Andando por rodovias ou vendendo seus artesanatos em praças, a malucada resiste. Resiste contra a repressão; resiste contra o preconceito; resiste contra a mercantilização. E resistem para lembrar que a vida a que somos condicionados não é a única possível.

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