25 de março de 2015

Midialivrismo e poesia: vozes da luta no Grajaú


Vaidapé, Ecolab e moradores do Grajaú somam em mais uma atividade do Grito do Pé Preto, com música, arte e midialivrismo


Fotos: Henrique Santana e Jay Viegas
Por Henrique Santana

O Calçadão Cultural do Grajaú amanheceu, no último domingo (22), com mais uma atividade do Grito do Pé Preto, Projeto da Vaidapé em praças públicas da zona sul de São Paulo. Depois de uma entrevista coletiva com integrantes da Luta do Transporte no Extremo Sul e uma troca de ideia sobre a mulher na periferia, regadas de rimas e improvisos de MCs da região, o tema dessa vez foi midialivrismo.

A galera do Ecolab marcou presença no evento. O projeto teve início nesse ano e consiste na formação de jovens comunicadores na Ilha de Bororé, às margens da Represa Billings, também na zona sul de São Paulo. A ideia é fazer os jovens se empoderarem das técnicas de comunicação e traçarem a partir daí, suas próprias narrativas.

O time foi composto por Jaison Pongiluppi e Wellington Neri, idealizadores do projeto, além de Wesley Rocha, 15 anos, e Guilherme Pontes, 16. Os dois jovens comunicadores formaram o corpo de jornalistas do dia e foram entrevistar a população do Grajaú. Os primeiros entrevistados foram os integrantes do Graja MC’s, Fabio Neto e Herbert Santos, que deram suas opiniões sobre a questão do transporte na região.

Galera do projeto Ecolab no Grajaú. Wesley e Guilherme foram os entrevistadores

“Se [o transporte] é público, porque tem que pagar? Estão mentindo para a população. Não tem que falar que é público, tem que falar que o transporte é privado mesmo e você paga mesmo, como se fosse um taxi”, questionou Herbert, que também criticou a falta de transporte na madrugada e a gestão dos recursos destinados ao transporte. “Uma cidade igual São Paulo, que gera tanto lucro igual São Paulo, tem tanto trabalhador igual São Paulo. Isso é uma vergonha, isso é um tapa na cara.”

Graja mc’s solta o verbo e questiona transporte “público”

Ao seu lado, Fábio problematizou a lei sancionada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), em fevereiro desse ano, que concede o passe livre estudantil para alunos da rede pública. “O passe livre deveria existir há muito tempo, os jovens têm curso e responsabilidades, tem que correr atrás desde cedo, a partir dos 14 anos de idade o jovem já está trabalhando. Sem o passe livre, certas pessoas da periferia ou uma família da periferia, não têm dinheiro  para o moleque fazer um curso todo dia, para o moleque ir dar um rolê.”

Herbert mostra que esse descontentamento está presente nas manifestações pela tarifa zero e dá a letra: “Isso vai mudar em!”.

O papo sobre transporte foi além dos ônibus e chegou às magrelas do Grajaú. Os meninos da Ilha de Boreré entrevistaram Guilherme e Robert, que pedalavam nos arredores do Calçadão Cultural. Os ciclistas contaram que fazem uso da bicicleta para atividades de lazer e já foram algumas vezes de bike até o Ibirapuera.

O recente veto do Ministério Público à construção de ciclovias em São Paulo também foi pauta. Guilherme desaprovou a atitude: “é ruim né, tem muita gente que usa [a bicicleta] para ir trabalhar”.

Em frente ao Centro de Cidadania da Mulher, Viviane Alcantara, enfermeira e moradora da região, também foi entrevistada. Um graffite do coletivo Maçãs Podres estampava o muro do Centro e criava a cenografia do ambiente com imagens de resistência feminina.

A enfermeira reclamou da falta de espaços como aquele e contou sobre sua imersão nesse universo. “Tem uma associação das mulheres do Grajaú que é muito antiga. Eu participei quando tinha 12 anos de idade. A minha família não falava sobre sexo, eles eram todos moralistas e eu queria saber. Então eu fui para essa associação e fiquei 4 anos lá, foi onde eu formei todo o meu pensamento para o sexo, que eu acho que muitas adolescentes hoje deveriam ter, formação do corpo para tudo”, relata.

Viaviane apontou a falta de espaços de lazer como um problema, para ela “tinha que ter mais, tinha que ter espaço para o pessoal andar de skate, mais espaço para o teatro. Assim a gente tira essa criançada toda da rua e coloca elas no meio social”.

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Viviane fala da necessidade de espaços para a mulher

O rap não ficou de fora das perguntas e o MC Pivô soltou o verbo sobre a relação entre o estilo musical e a vida na periferia. “A minha vida sem o rap seria um erro. As coisas que eu conquistei com o rap e a personalidade que eu criei com o rap fizeram toda a diferença na minha vida. Tem a ideologia periférica no meu rap, voltada aos direitos, às conquistas, sempre motivando a molecada de hoje em dia.”

Instalado sobre o terreno de um antigo sacolão, a Casa de Cultura Palhaço Carequinha não abre as portas aos sábados e domingos. Pivô ironiza a história do centro cultural: “O sacolão ficava aberto de segunda a segunda, a casa de cultura fica de segunda a sexta”.

“Final de semana, todo mundo na rua, e o que deveria estar aberto para todos, está fechado. Um quadro de um mano que fez um desenho muito louco, que quer mostrar pra galera mas a casa de cultura está fechada. Um monte de talento na quebrada que canta música, faz suas músicas em casa, faz seus desenhos e não dá para expor seus talento, expor sua criatividade”.

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Pivô, MC do Grajaú

Apesar do descaso das autoridades públicas com o Calçadão Cultural, o espaço ainda é ocupado pela população. A cena do skate, por exemplo, também é forte na região. A Vaidapé trocou uma ideia com Cássio, que fazia manobra sobre as quatro rodinhas. Ele conta que, há dois anos atrás, a praça estava sempre lotada, no entanto, a repressão policial foi aumentando e esvaziando o Calçadão. “Eu mesmo já apanhei aqui umas três vezes dos polícia, às vezes e só porque a gente tá andando de skate. Teve outro dia que a gente fava fazendo ato pela legalização da maconha aqui, veio os polícia e quebro tudo, foi mó confusão danada. A gente fava uma galera aqui”, denuncia.

O graffiteiro Mauro, do coletivo Imargem e idealizador do projeto Cartograffite, também marcava presença no calçadão, local que definiu como “um lugar bem simbólico, bem no centrinho do Grajaú”.

A arte que permeia o a região é forte, música, cor e poesia coexistindo nas ruas da zona sul de São Paulo. Enquanto os jovens jornalistas da Ilha de Boreré entrevistavam os moradores, o Calçadão também foi contemplado com uma incisiva intervenção poética dos integrantes do sarau Sobrenome Liberdade e do Coletivo PI, declamando poemas e crônicas que ecoaram pelas muros do Grajaú. E um poeta falou: “Violetas, rosas e margaridas resistem. Apesar do ar e do ar da cidade cinza”.

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