11 de março de 2015

No balanço da ribeira: a vida nas águas do Rio Negro

A duas horas de barco de Manaus outro tipo de vida aflora nas florestas verdes do Amazonas

Por Duda Gulman e Giovanna Fabbri
Fotos: Giovanna Fabbri

Finalmente, depois de duas horas navegando por entre as águas escuras do Rio Negro, nasce, discretamente, a filha de uma das maiores florestas equatoriais do mundo. Por detrás de uma gigante e magricela árvore amazonense surge a tímida Comunidade do Tumbira. Na copa das árvores, uma escandalosa orquestra dos corrupiões amarelos comunica as boas-vindas a uma vida simples e inocente no interior do Amazonas.

O que mais encanta é o grande abismo entre dois diferentes modos de vida nos aproximadamente 40Km que separam Manaus de Tumbira. O percurso é feito via lancha – ou expresso Charlote, como é conhecido na região. A correria da vida urbana manauara é totalmente perdida nas famílias à beira do Rio Negro.

Simplicidade, rusticidade, trabalhos manuais, divisão das tarefas domésticas e sossego marcam o estilo de vida dos ribeirinhos. Não há estresse ou qualquer atitude que busque majoritariamente o desenvolvimento individual. A cooperação e a preocupação com o todo são princípios ainda não destruídos pela sociedade moderna. Os incentivos do governo estadual também têm colaborado com a preocupação ambiental, um dos princípios ribeirinhos.

Em um ambiente atípico para moradores de grandes centros urbanos, Tumbira é composta por aproximadamente 40 famílias, sendo a calorosa família Garrido uma das mais conhecidas da região por terem agarrado com unhas e dentes os planos de ação da ONG local. Descendentes da união de portugueses e indígenas, a família atualmente é guiada pelo alegre casal Roberto Brito de Mendonça, homem de 40 anos, de coração grande, filho direto da floresta e apaixonado pelo mistério do Curupira, e Nadia Garrido, uma forte mulher, da pele parda e cabelo muito escuro.

Nascer do sol no Tumbira
Nascer do sol a beira do Rio Negro

Inicialmente essa região, pertencente ao município de Iranduba, fazia parte de uma APA (Área de Proteção Ambiental). Entretanto, o projeto se mostrou ineficiente quanto à proteção da região e desenvolvimento das comunidades: “para o meio ambiente ser preservado tem que valorizar os nativos”, defende Roberto. Com isso, foram criadas pelo governo estadual as Reservas Florestais, que tinham como objetivo proteger as cabeceiras dos rios e distribuir o Bolsa Floresta para estimular o desenvolvimento de outras atividades. “Isso, na época, acabou gerando certo impacto nas comunidades, havia desconfiança e preocupação quanto ao desenvolvimento”, afirmou Roberto, que tomou frente da causa ao perceber que Tumbira tinha chance de se tornar o núcleo da Reserva Florestal. “Para ter mudança, principalmente quanto a questão da educação, tem que apostar no futuro. De 100 pessoas, 10 acreditaram nas promessas. Eu fui uma delas”.

Roberto à direita e seus irmãos em Saracá
Roberto à direita e seus irmãos

A chegada da ONG Fundação Amazonas Sustentável se deu em 2009, com a finalidade de administrar o Bolsa Floresta. Três comunidades foram escolhidas como seu palco principal de ação. Esses núcleos receberam suporte para o desenvolvimento e crescimento sustentável ao serem oferecidos cursos técnicos, estrutura para uma escola, posto de saúde, escritório e dormitórios, além de empregos, tais como transportador, merendeiro, professor, entre outros. Tumbira, especificamente, é o núcleo de outras 19 comunidades beneficiadas em função não só de estar situada em um lugar estratégico, mas como também por ter apresentado por parte dos nativos maior interesse em desenvolver o local.

Há quatro anos, eletricidade, água encanada e Internet eram até então desconhecidos, assim como uma vida independente da exploração da floresta. “Eu percebia que o Curupira se zangava comigo quando eu cortava madeira, mas essa era a tradição, na época nem me importava. Mas hoje, respeito minha casa. Cresci na floresta, e ela merece ser bem tratada”, revela Roberto emocionado, que atualmente trabalha com pesca, carpintaria, artesanato, manutenção e logística da escola e de sua pousada. Esta última promoveu um rico intercâmbio cultural, o que significou para os nativos o conhecimento de novas realidades através do encontro com pesquisadores, biólogos e turistas de todas as partes do globo.

Roberto e seu sobrinho Renato

A educação é uma das principais preocupação da comunidade. Segundo  Inês Alencar, diretora da escola desde 2009, as famílias passaram a dar  mais importância para os estudos. “Nesses últimos anos, cresceu  radicalmente o números de jovens matriculados nos Ensinos  Fundamental I e II, assim como nas faculdades. Entretanto, ainda há  muito a se fazer. São apenas 80 o número de matriculados no  Tumbira”, afirma. Inês, mãe de primeira viagem e filha de Manaus, confessa  também não ter intenções ou vontade de voltar para a vida urbana,  principalmente por querer educar seu filho próximo a natureza.

Ainda que essas mudanças transformaram e melhoraram a qualidade de vida dos ribeirinhos, a essência, assim como a pureza do povo local, permanecem explícitas tanto nas tradicionais partidas de futebol misto aos domingos, quanto nos infaltáveis festejos religiosos.

Recostado no canto da mesa, com as mãos apoiadas sob o queixo e pensamentos ao longe – quiçá num futuro próximo – Roberto canta para os filhos. “Passamos a ter esperança de uma vida cada vez melhor. Que no futuro a gente possa amadurecer ainda mais. Eu vivi o crescimento, e passo esse saber para eles. Ficaria muito feliz se meus meninos trabalhassem e continuassem a morar aqui. Nada melhor que um nativo para associar desenvolvimento sustentável e cultura”.

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