07 de março de 2015

Parques privados: do centro à sul movimentos resistem à especulação imobiliária

No Parque Augusta a especulação venceu mais uma vez e terreno volta para a mão de construtoras

Por Guilherme Bampa e Lucas Scatolini

Na manhã desta quarta-feira, quatro de março, a reintegração de posse do Parque Augusta foi feita. A malfadada sentença não deixava escolha aos ocupantes senão a de abandonar – momentaneamente – o parque. Por outro lado, nada impedia que a despedida não fosse em grande estilo e um exemplo de luta pelo espaço público.

Desde o primeiro dia de ocupação, em 17 de janeiro, uma vasta gama de atividades artísticas e culturais foram promovidas pelo Organismo Parque Augusta e se intensificaram com o objetivo de mobilizar a população para resistir à reintegração de posse. Atividades voltadas para os guris, mutirões para o plantio de mudas de árvores, graffiti, danças performáticas, aulas públicas sobre os mais variados temas; e tudo isso ao som de músicos de primeira linha. O conjunto de atividades ficou conhecido como a “Desintegração de Posse”.

A reintegração

Precisamente às 5h50 da manhã, o Grupo de Operações Especiais (GOE) chegou ao local para – em tese – garantir a integridade física do oficial de justiça que executava a sentença. Em meio ao clima de tensão membros do coletivo Advogados Ativistas monitoravam a ação policial e negociavam com o comandante uma saída amigável. Enquanto isso, um grupo de cerca de 10 ativistas resistiam em cima de uma figueira centenária e recusavam deixar o parque.

Por volta das sete horas da manhã a policia entrou para executar a ordem judicial. A partir dai, aqueles que permaneceram na ocupação do parque poderiam ser responsabilizados pelo esbulho possessório (ameaça da propriedade alheia).

Outras ameaças, a mesma luta

Além de movimentos como o Organismo Parque Augusta e a É de Lei, ONG que atua com redução de danos, o caldo foi engrossado com moradores de Cidade Ademar, Pedreiras e defensores do Parque dos Búfalos, todos na Zona Sul de São Paulo. “Nós, defensores do Parque dos Búfalos e de seus 944.000 m², estamos aqui no Parque Augusta resistindo até o último minuto”, afirmou Aurélio Prates Rodrigues, morador de Cidade Ademar.

Apesar da horrível derrota no Parque Augusta, uma importante decisão proferida pelo juíz da 11ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo garantiu a paralisação das obras de um desastroso conjunto habitacional na região do Parque dos Búfalos. “Foi uma luta que o Parque Augusta também colaborou”, comenta Aurélio Prates.

O parque da zona Sul nasceu há 40 anos e desde então é ocupado pela população. A região é considerada o “último resquício de Mata Atlântica de Cidade Ademar”, como afirmou Wesley Rosa, militante do movimento Rede Novos Parques. Desta vez a briga é contra a Prefeitura da Cidade São Paulo: “[A prefeitura], sem prévia consulta pública à população, quer construir 190 prédios às margens da represa Billings”, critica Wesley. Segundo o Rede Novos Parques, a construção dos prédios colocaria em risco cerca de 13 nascentes da represa Billings em plena crise hídrica.

Parque plural e horizontal

Diferentes cidadãos ocuparam o espaço do Parque Augusta. Pessoas de classes sociais e realidades completamente diferentes. O grande mérito da experiência foi  a diversidade. Esse magnífico espaço de convivência aglutinou mundos diversos e criou laços entre eles.

Na última assembléia antes da reintegração, no dia dois de março, ativistas e colaboradores do parque fizeram um balanço dos quase dois meses de existência de um parque autogestionado. A horizontalidade, sem a presença do Estado ou da polícia, fez com que os envolvidos discutissem temas que envolvem não só o parque, mas também a sociedade. No entanto, diferente do que ocorre em outras instâncias de discussão, alí o debate era franco e plural. Na roda estavam representadas múltiplas camadas sociais.

Temas como guerra as drogas e redução de danos foram os primeiros a surgir. Aécio, morador em situação de rua que também ocupava o parque, disse: “Somos todos nóias de alguma forma”. Para ele o “nóia” não é só o usuário de crack, mas também o indivíduo que reduz sua cidadania ao consumo. A assembléia seguiu e lembranças boas surgiram, mas os conflitos também. Nada mais natural em um ambiente em que as diferenças  são encaradas e não segregadas.

No momento da assembléia era possível perceber que todos estavam exercendo sua cidadania ativa. Se pertenciam e sentiam-se pertencentes àquele lugar. Ao contrário dos parques em que um simples dia de sol é um ato de consumo, a vida no parque Augusta é um ato de cidadania.

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