24 de março de 2015

‘Pegaram meu filho deitado, dormindo’: PM de SP protagoniza mais um homicídio

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Ilustra: Vitor Teixeira

Mais uma polêmica morte envolvendo a Polícia Militar revela caráter genocida da instituição e falta de investigação

Por Henrique Santana

Debora Maria da Silva, fundadora do movimento Mães de Maio, afirmou à Secretaria Nacional de Juventude que “a pena de morte existe no Brasil. Ela é decretada pela instituição policial”. E, de fato, a polícia brasileira mata uma média de seis pessoas por dia, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

“A vontade de matar de um Capitão Nascimento”, como proclamou Marcelo D2, não é exceção em São Paulo. No estado de Geraldo Alckmin a polícia bateu recorde de homicídios ao longo de 2014 e  matou, em média, uma pessoa a cada 9,8 horas, segundo o Centro de Inteigência da Polícia Militar e da Corregedoria. Os índices de criminalidade – contrariando o velho jargão “bandido bom é bandido morto” -, por outro lado, permaneceram no mesmo patamar, também com base no órgão fiscalizador da coorporação. Na última semana um caso ilustou a questão.

A madrugada da última terça-feira, 17 de março, foi sangrenta: a Polícia Militar assassinou um jovem de cerca de 20 anos na Liberdade, centro de São Paulo. A vítima era suspeita de roubar um estacionamento no bairro da Bela Vista no último dia, 15. Segundo a PM, quando abordado, o jovem teria corrido para dentro de uma pensão e disparado contra os policiais, que revidaram.

A reação de quem estava na região, no entanto, não condiz com esta versão. Moradores se revoltaram, atiraram pedras contra os policiais e incendiaram dois carros. Entrevistada pelo G1, uma mulher de 61 anos afirmou ter visto a mãe da vítima logo após o ocorrido. “Eu vi a mulher que gritava, tremia, desesperada. Ela dizia: ‘Pegaram meu filho deitado, dormindo’ e pedia para entrar na pensão. Os policiais não deixaram. Depois eu vi o carro do IML chegar e entendi que ele tinha morrido”, questionou.

A testemunha, que não se identificou com medo de represálias, também afronta a versão que a PM deu para a retaliação dos moradores – que supostamente teriam iniciado as agressões. “Escutei reportagem dizendo que as pessoas reagiram com pedra, mas não é verdade. Não tinha ninguém agredindo policiais. Até eu mesmo estava no meio. Não tinha para onde correr. Eu fiquei rezando. Tinha bomba muito forte mesmo”, afirmou.

A ocorrência foi enviada ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), órgão que, em 2012, esclareceu 29,5% de todos os casos enviados – em 2001 foram 20,4%.

Tiro certo

A região do homicídio não costuma ser palco desse tipo de fatalidade. No primeiro semestre de 2013, de todas as mortes por confrontos com agentes de segurança na capital paulista, apenas 1,56% foram no centro. No mesmo período de 2014 nenhum caso foi computado.


Confrontos com morte envolvendo agentes de segurança do estado nos primeiros semestres de 2013 e 2014 (Levantamento: Ponte)


Curioso que as áreas mais pobres da cidade foram campeãs nesses indicadores. O sangue derrubado por armas policiais manchou com mais frequência as zonas leste e sul, que no primeiro semestre de 2014 somaram mais de 80% das mortes.

Os números assustam e demonstram apenas as ocorrências registradas. Casos em aberto e os estranhos desaparecimentos que reinam na periferia não entram para a conta. Desaparecimentos que entidades responsáveis pela segurança pública também não mostram muita eficiência em solucionar.


Parcela da população por rendimento (em %) – salário mínimo R$ 724 (Levantamento: Ponte)


Em 2012 e 2013, dos 18 mil boletins de pessoas desaparecidas registrados pela Polícia Civil apenas 51 casos foram contemplados pelo inquérito de investigação, 0,3% do total. O DHPP também não se mostrou muito eficaz. A delegacia criada pelo órgão para solucionar casos de desaparecimento – que conta com dois delegados e 35 policiais – instaurou apenas 11 inquéritos nesses dois anos.

Os berros da mãe da vítima da última quarta-feira – e de tantas outras – dificilmente competem com os megafones da polícia e o descaso das investigações. Enquanto nos meios sociais da elite os brados por “fim da corrupção” e “ameaça conservadora” ecoam, mais uma mãe perde seu filho pelas mãos do braço armado do Estado. Como diria o poema de um contribuinte da Vaidapé:

Fía
Bater panela vazia é fácil
Difícil
É perder mais de um time por dia
Na peneira da covardia
Que milicia nossos passos.


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Locais onde a polícia matou no primeiro semestre de 2014