30 de março de 2015

Tempestade: Na cadeia, uma mulher de olhos profundos


Ao som de Lulu Santos, Marisa Monte e Vinícius de Moraes, a Vaidapé conversou com Tempestade, que ficou presa por cinco anos em SP. Para ela, o presídio é um purgatório onde se reza e se culpa


Por Patricia Iglecio
Ilustrações: Jay Viegas

Tempestade me recebeu em sua casa para contar um pouco da história que viveu durante o tempo em que passou presa. Condenada por 11 anos pelos artigos 33 e 35, que correspondem à tráfico de drogas, foi encaminhada para a Penitenciária Feminina Santana em São Paulo, no dia 3 de julho de 2008, aos 57 anos.

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Teve sua pena fracionada: passou três anos e seis meses no regime fechado e um ano e oito meses no semiaberto, no Centro de Progressão Penitenciária do Butantã. Assim que foi presa, Tempestade contratou um advogado particular para defendê-la, no entanto, diz que ele não fez nada por ela e “comeu” R$ 16 mil de seu bolso. Perguntei à ela como conseguiu pagá-lo, Tempestade deu risada e respondeu: “Ah filha! Para de doidera, eu era traficante. Foi tudo para advogado pangaré, depois eu descobri que ele corria com os polícia civil”.

Enquanto sua sentença estava sendo abreviada, a ex-detenta passou seis meses na cadeia sem poder trabalhar, porque seu processo ainda não tinha um parecer. “A gente ficava mesmo sem saber de nada até o dia da audiência. Quando chegou a minha sentença, eu fui trabalhar no departamento de assistência judiciária, porque eu queria entender da lei e eu não sabia nada”, relata.

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Conseguiam os trabalhos na judiciária as presas que tinham mais conhecimento. Tempestade cursou psicologia durante quatro anos, de 1981 a 1984, na faculdade Farias Brito, em Guarulhos. No entanto, acabou não concluindo por falta de dinheiro. Ela diz que, naquela época, era muito raro ver um filho de pobre estudando em faculdade e, para pagar o estudo, trabalhou muito. Vendia roupas e perfumes, se desdobrava em qualquer bico que aparecia.

Faxineira do setor judiciário da penitenciária de Santana, Tempestade se relacionou com defensores públicos da Fundação Nacional de Amparo ao Preso (Funap), da Pastoral Carcerária e do Instituto Terra Trabalho e Cidadania (ITTC). O setor formava uma equipe de presas e defensores públicos que lutavam pelos direitos das mulheres em situação de cárcere.

A ex-detenta pontua que insistiu em trabalhar no judiciário pois queria entender, através da lei, como faria para sair de lá. E mais do que isso, queria ajudar as demais presas a reconquistarem a liberdade. Muitas das mulheres não sabiam ler e escrever com fluência, assim, encontravam grande dificuldade em entender o seu processo e buscavam a ajuda das mais instruídas.


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Perguntei para Tempestade se ela sofreu agressões na cadeia e fui ironizada. “Orra! Vai mexer com liberdade dentro da cadeia, era muito cobrada, mas eu era respeitada, porque eu corria. É ruim hein! Eu sofrer agressão em cadeia? Eu tenho cabelo branco, é um respeito muito grande das presidiárias por mim, é o respeito porque você está lá na vida do sofrimento há muito mais tempo”, conclui.

Ela teve problemas com os diretores do presídio por estar sempre ativa na luta pela liberdade, mas nunca tentou fugir da cadeia. “Eu ia para onde? Não é assim, eu não sou inocente, só que eu traficava maconha, só mexia com isso, e, independente do artigo que você está, as grades são pesadas”, pontua. Além disso, a vontade de sair da cadeia impedia a mulher de fazer algo que pudesse prejudicar o seu processo ou aumentar sua pena.

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O momento mais emocionante da entrevista foi quando Tempestade me contou do dia em que passou para o regime semiaberto. Já havia feito algumas saídas em feriados, mas para Tempestade, o gosto de liberdade foi muito maior ao saber que não estaria mais sob regime fechado.

“Foram 300 e poucas ao todo. Do meu pavilhão era umas 100. Foi uma emoção, só de falar eu me arrepio (…) Todo mundo parado dentro de um espaço, sabe, muito mais tempo do que deveriam, muitas era a primeira vez que saiam para rua… Foi uma coisa de êxtase, de liberdade.”

Choramos juntas. Tempestade disse do quanto se aprende à olhar para o sofrimento dos outros na cadeia. Ela conta que no regime semiaberto as presidiárias resgatam o brilho no olhar. Nas festas de final de ano, quando algumas detentas recebem visitas, a expressão delas melhora. Algumas presas contestavam os enfeites de natal, pois diziam que na cadeia não tem nada para se festejar.

Ela não acha: “Os enfeites eram um meio da gente acolher as pessoas que estavam na casa delas e saiam para ir lá, era difícil as pessoas irem lá, não eram muitas visitas. Era muita solidão”. Tempestade não recebia visitas, diz que não queria que ninguém tivesse que entrar na cadeia e passar por revistas, para vê-la. Pergunto de sua vida pessoal e relações familiares, porém, ela prefere não falar sobre o assunto.

“O lugar que mais se reza é na cadeia, eu achava que era na igreja sabia? Mas é na cadeia. Dia e noite rezando para deus tirar a gente do inferno. Na verdade, eu acho que lá não é o inferno, é o purgatório social. Quando eu era pequena eu falava: ‘Caramba, o céu é lá em cima no azul, o inferno é lá embaixo’. O purgatório dizem que é a terra, mas é na cadeia. Lá é o purgatório social, é o lugar onde a sua alma fica se culpando: você chora, você quer estar que nem nós duas agora, ouvindo uma música suavizinha. É um negócio muito louco”


“O lugar que mais se reza é na cadeia, eu achava que era na igreja sabia? Mas é na cadeia. Dia e noite rezando para deus tirar a gente do inferno. Na verdade, eu acho que lá não é o inferno, é o purgatório social”


Sobre o regime semiaberto, Tempestade fala que todas as presas tem a ilusão de que muitas coisas vão melhorar. No entanto, praticamente todas trabalham com faxina, as poucas que são empregadas como metalúrgicas executam serviços que exigem muito esforço físico. Além disso, o Estado não paga pelo trabalho das presas. O serviço é terceirizado a empresas, que remuneram as detentas com pagamentos inferiores a um salário mínimo.

Tempestade passou por duas operações no coração, por isso não pode fazer muito esforço. Não aguentou por muito tempo o trabalho de faxineira no presídio do Butantã. Diz que limpar o chão e empurrar carrinhos de lixo era cansativo. A força que tinha que fazer para levantar grandes contêineres quase a levou à morte.

“Eles me tiraram da rua porque eu carregava muito peso e já não aguentava mais. Tinha 60 anos, daí um dia eu quase caí dura”, relata. Com isso, passou a fazer curso de pintura e textura, mas não recebia dinheiro.

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Outra grande conquista da equipe que atuava com ela pelo direito das presas foi reduzir o “castigo” de 30 dias para 10. Presas eram mandadas para o “pote” – uma cela escura com condições ainda mais precárias de higiene e alimentação – por descumprir alguma ordem ou causar algum problema. “Graças a deus eu nunca fui levada para o ‘pote’, uma cela horrorosa”, diz Tempestade.


“Eles me tiraram da rua porque eu carregava muito peso e já não aguentava mais. Tinha 60 anos, daí um dia eu quase caí dura”


Conversamos também sobre o comportamento das presas. Perguntei se elas saiam da cadeia mais violentas do que quando entram. Ela me respondeu que não, que o sofrimento é muito grande e tudo que se pensa no presídio é o dia em que você sairá de lá.

A trajetória de Tempestade na cadeia, tão cheia de lutas pelos direitos, não coube em nossa conversa de quase duas horas. Ao som de Lulu Santos, Marisa Monte e Vinícius de Moraes, pude oferecer para ela minha vontade de escutá-la e de fazer com que mais pessoas soubessem de sua história.

Tempestade, uma mulher de olhos profundos, transmitiu para mim o sofrimento daqueles que passam pelo encarceramento e seu anseio, não apenas por sair de lá, mas de que as outras presas tivessem a sua liberdade de volta.

Esse texto foi publicado originalmente na quarta edição impressa da Revista Vaidapé na sessão “A rua grita”.

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