03 de março de 2015

Um chamado à liberdade: Ocupe o Parque Augusta

Nessa quarta-feira (04), está marcada reintegração de posse do Parque Augusta, ocupação de moradia e cultura no centro de SP

Por Lucas Scatolini e Guilherme Bampa

Fotos: Henrique Godoy

A geografia humanista entende o espaço geográfico como aquele que é ocupado e transformado pelos seres humanos, e este reflete a cultura vivida pelos grupos de pessoas que atuam e produzem nele. A luta por liberdade torna-se cada vez mais necessária e espontânea.

Diante desse cenário, um coletivo que envolve a sociedade civil organizada (artistas, advogados e comunicólogos ativistas) trava uma batalha com a Cyrela, uma das maiores empreiteiras do país, pela preservação de uma das últimas áreas verdes do centro de São Paulo.

O terreno, de 25 mil m², abrigou alguns edifícios históricos da cidade: um antigo palacete erguido em 1902 e um colégio de freiras, que atuou até meados de 1970 e foi demolido quatro dias antes da criação da lei de tombamento municipal. A área, com resquícios de mata nativa, passou a ser objeto de especulação imobiliária. Situado entre as ruas Augusta, Marquês de Paranaguá e Caio Prado, o Parque Augusta resiste há 40 anos numa disputa entre os proprietários e a sociedade civil.

Abandonado pelo poder público e na reserva dos especuladores, o terreno arborizado começou a ser ocupado por pessoas em situação de rua. Com o acirramento da disputa pela área, a luta englobou novos atores: artistas e movimentos de moradia. Rafael Pelletti, ativista do movimento Organismo Parque Augusta, afirmou que “o centro é um ponto de confluência da cidade, o parque precisa de um olhar simbólico para a luta pelo direito à cidade”.

O movimento nasceu nesse contexto de disputa pelo espaço público e desde então vem realizando assembleias periódicas, horizontais e autogestionadas, nas noites de segundas e quintas-feiras. Desde 2013, o coletivo realiza aulas públicas, festivais e exibições de cinema ao ar livre, a fim de conseguir a visibilidade necessária para a preservação do parque.

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No final de 2013, as construtoras Cyrela e Setin encabeçaram a primeira tentativa de reintegração de posse da área. Com isso, a proposta do movimento voltou-se para a construção de um espaço mais horizontal através da ocupação pacífica, reforçando o protagonismo do cidadão neste processo. As iniciativas para se consolidar a ocupação foram muitas: plantio de árvores nativas, uma biblioteca, hortas comunitárias e cisternas de captação de água para a limpeza do lugar.

A reintegração (ou desintegração) de posse

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Assim como outros movimentos sociais, tanto do centro como da periferia, o Organismo Parque Augusta repudia a criminalização dos movimentos de ocupação. Entre as iniciativas que combatem a verticalização da cidade, estão os moradores da Cidade Ademar, na zona sul, que ocupam o Parque dos Búfalos, área destinada a uma desastrosa política de habitação da prefeitura.

A luta desses parques se insere num contexto maior de disputa pelo espaço público e preservação do patrimônio ambiental da “Rede Novos Parques”. O movimento envolve os parques; Augusta, Linear Água Podre, Vila Ema, Fonte, Peruche e Parque dos Búfalos: todos na região metropolitana de São Paulo.

Nesta próxima quarta-feira (04), está marcada a reintegração de posse exigida pela construtora Cyrela, que contará com a ilustre presença da Polícia Militar. Enquanto isso, diversas atrações culturais vêm sendo promovidas no parque.

Nesse domingo, 1˚ de março, o evento “Desintegração de Posse” contou com a participação de moradores da região e simpatizantes do Parque Augusta, além do apoio de artistas como Edgard Scandurra, guitarrista do Ira!, e Arnaldo Antunes, que terminou seu show com palavras de apoio ao movimento: “A única maneira de conseguirmos um mínimo de sanidade é manter esse parque e espalhar essa ideia e a opinião pública pressionar”, ressaltou o músico.

Já no dia da reintegração o Organismo Parque Augusta promoverá uma resistência pacífica, e pede o apoio de toda a comunidade do centro paulistano que exige uma cidade para o cidadão, e não à especulação.

Os crimes ambientais

Neste processo de luta, diversas árvores não resistiram à especulação, entre elas, uma figueira centenária. Segundo os membros do movimento, as construtoras alegaram que a árvore teria sido atingida por um raio, entretanto, não foram encontrados indícios de carbonização.

Além desta, segundo o projeto das próprias empreiteiras, uma área considerável do bosque deverá ser desmatada para dar lugar ao empreendimento imobiliário. A construção prevê 6 subsolos e, segundo Rafael Pelletti, atingirá certamente um dos principais lençóis freáticos da região.

 

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O principal órgão responsável pela conservação do patrimônio histórico e ambiental, o CONPRESP (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo), ainda aprova a construção de edifícios, mesmo com os danos ambientais causados pela construtora.

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